Você certamente já ouviu falar de Mogli, o Menino Lobo. Trata-se de uma criança literária do escritor anglo-indiano Rudyard Kipling (1865-1936). Na história de Kipling, Mogli é um menino inteligente e sociável, que se dá muito bem com os animais e também com os seres humanos. Mogli é um personagem fictício, criado pela imaginação do autor. Mas o que aconteceria realmente a um ser humano, caso fosse criado entre lobos?

A história a seguir pertence à vida real e mostra como o personagem Mogli está longe de refletir a realidade.

Duas meninas, Amala e Kamala, foram descobertas em 1921, numa caverna da Índia, vivendo com lobos. Essas crianças, que na época tinham quatro e oito anos de idade, foram confiadas a um asilo e passaram a ser observadas por estudiosos. Amala, a mais jovem, não resistiu à nova vida e logo morreu. A outra, porém, viveu por cerca de oito anos.

Ambas apresentavam hábitos alimentares bem diferentes dos nossos. Como fazem normalmente os animais, elas cheiravam a comida antes de tocá-la. Dilaceravam alimentos com os dentes e faziam pouco uso das mãos para beber ou comer. Possuíam aguda sensibilidade auditiva e o olfato desenvolvido. Locomoviam-se de forma curvada, com as mãos apoiadas no chão, como o fazem os quadrúpedes. Kamala levou seis anos para andar de forma ereta Notou-se também que a menina não ficava a vontade na companhia de pessoas, preferindo o convívio com os animais, que não se assustavam com a sua presença e pareciam até entendê-la.

Assim como no caso do menino de Aveyron, a experiência das duas crianças criadas entre lobos na Índia mostra que os indivíduos só adquirem características realmente humanas quando convivem em sociedade com outros seres humanos, estabelecendo com eles relações sociais.

Outro personagem célebre, surgindo da imaginação do escritor norte-americano Edgar Rice Burroughs (1875-1950), é Tarzan. Criado por macacos na África, Tarzan aprendeu a ler sozinho, com a ajuda apenas de um livro encontrado em uma cabana. Além disso, demostrava sentimentos humanos e defendia valores semelhantes aos da sociedade em que viveu o escritor.

Como obra de ficção, Tarzan sempre atraiu o interesse de jovens leitores, mas está tão distante da vida real quanto Mogli, o Menino Lobo. Na verdade, crianças que crescem entre animais são incapazes de desenvolver atitudes e sentimentos humanos antes de qualquer contato com outros indivíduos de sua espécie que já vivam em sociedade.

Para o pensador Lucien Malson, a conclusão é clara: “Será preciso admitir que os homens não são homens fora do ambiente social, visto que aquilo que consideramos ser próprio deles, como o riso ou o sorriso, jamais ilumina o rosto das crianças isoladas”.

A história das crianças selvagens, que sobrevivem quase milagrosamente entre os animais e penaram para alcançar algumas características básicas de uma existência “civilizada”, deixa uma lição que não pode ser ignorada: sem o denso tecido das relações sociais, do qual participa toda criança, simplesmente não há humanidade.

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