Em outubro de 2003, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) publicou um alentado estudo denominado Estatísticas do século XX. O documento retrata em números o desenvolvimento da sociedade brasileira, levantando e comparando dados socioeconômicos de 1901 a 2000. O texto a seguir discute alguns aspectos desse estudo.

O século XX foi aquele em que o Brasil aumentou sua riqueza, mas não a dividiu. Em cem anos, a riqueza total cresceu quase doze vezes em relação à população; no entanto, a distribuição de renda piorou na segunda metade do século.

Em 1960, ano marcado pela inauguração de Brasília pelo então presidente Juscelino Kubitschek, o rendimento recebido pelos 10% mais ricos era 34 vezes o obtido pelos 10% mais pobres; em 1991, a diferença chegou a 60 vezes e, em 2001, os 10% mais ricos ganhavam 47 vezes o recebido pelos 10% mais pobres.

A concentração de renda é tão grande que, na virada do século 20 para o 21, o 1% mais rico dos brasileiros ganhava praticamente o mesmo que os 50% mais pobres.

Mesmo com o país mais rico, a estagnação econômica a partir dos anos 1980 fez o rendimento real cair cerca de 7,5% em vinte anos. De 1977 a 1999, o número absoluto de pobres aumentou de 40,7 milhões para 53,11 milhões. (…) A desigualdade é a marca nacional, seja desigualdade de renda, racial (entre brancos e negros), de gênero (entre homens e mulheres), seja regional (entre as regiões Sul-Sudeste e Norte-Nordeste).

De 1901 a 2000, o PIB (Produto Interno Bruto, a soma das riquezas do país) mais do que centuplicou, subindo de 9,1 bilhões de reais para um trilhão de reais. No mesmo período, a população cresceu quase dez vezes, de 17,4 milhões (em 1901) para 169,8 milhões de habitantes (em 2000).

O PIB per capita – hipotética divisão do PIB pela população – cresceu doze vezes, de 516  reais em 1901 par 6.056 reais em 2000.

Entretanto, apesar do enriquecimento, a renda ficou mais concentrada a partir de 1960. Em 1999, o 1% mais rico da população em idade ativa e com rendimento concentrava 13% da renda – quase o mesmo que os 50% mais pobres, que ficaram com apenas 13,9% da renda nacional.

O índice de Gini, que mede a concentração de renda, cresceu de 0,50 em 1960 para 0,63 em 1991. Na década de 1990, sofreu uma pequena queda, chegando a 0,59 em 1999. Usado mundialmente para expressar a concentração de renda, o índice varia de 0 a 1. Quanto mais próximo de 0, melhor é a distribuição. Quando mais perto de 1, mais concentrada.

“O Brasil teve um crescimento fantástico, mas não aprendeu a dividir a riqueza. O crescimento econômico, comparável ao de poucos países nesse século, levou a uma evolução sem resolução de uma série de problemas, que seguem agora para o século XXI”, afirma o presidente do IBGE, Eduardo Pereira Nunes.

De acordo com o relatório de 2003 do Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), o Brasil encerrou o século XX com a sexta pior distribuição de renda do mundo, perdendo apenas para Namíbia, Botsuana, Serra Leoa, República Centro-Africana e Suazilândia. (…)

Segundo o assessor de desenvolvimento sustentável do Pnud, José Carlos Libânio, a América Latina tem os maiores níveis de desigualdade do mundo, e o Brasil, na América Latina, é o mais desigual. (…)

Um estudo do Iedi (Instituto de Estudos sobre Desenvolvimento Industrial) mostra que, em todo o século XX, o Brasil ficou em segundo lugar entre os países que mais cresceram no mundo – uma média de 4,5% ao ano, igual à da Coréia do Sul e só superada pela de Taiwan (5%). De 1900 a 1973, o Brasil foi o país que mais cresceu no mundo – média de 4,9% ao ano. Já nas décadas de 1980 e 1990, o crescimento médio foi de apenas 2,4% ao ano. (…)

A crise da dívida externa nos anos 1980 também reduziu o rendimento do brasileiro: de 1981 a 1999, a renda média do trabalhador perdeu 7,5% de seu valor, caindo de 485 reais para 449 reais.

Nas seis principais regiões metropolitanas do país, o rendimento médio real corrigido caiu 18,5% de maio de 1983 a dezembro de 2000. O salário mínimo no Rio e em São Paulo perdeu cerca de 50% do poder de compra entre o valor mais alto (de 1958 a 1960) e os do final do século.

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