Vamos estudar agora as principais características dos três tipos de estratificação social: as castas, os estamentos ou estados e as classes sociais.

Classes sociais e estratificação
  1. Estratificação social
  2. Tipos de sociedades estratificadas
  3. Mobilidade social

Castas sociais

Existem sociedades em que os indivíduos nascem numa camada social mais baixa e podem alcançar, com o decorrer do tempo, uma posição social mais elevada. Esse fenômeno é conhecido como mobilidade social.

Em contrapartida, existem sociedades em que, mesmo usando toda a sua capacidade e empregando todos os esforços, o indivíduo não consegue alcançar uma posição social mais elevada. Nesses casos, a posição social lhe é atribuída por ocasião do nascimento, independentemente de sua vontade. Ele carrega consigo, pelo resto da vida, a posição social herdada.

A sociedade indiana é estratificada dessa maneira. Há seculos, a população da Índia está distribuída em um sistema de estratificação social rígido e fechado, que não oferece a menor possibilidade de mobilidade social. É o sistema de castas.

Enquanto nas sociedades ocidentais pessoas de níveis sociais diferentes podem se casar – o que não raro possibilita a ascensão social de um dos cônjuges –, em certas regiões da Índia o casamento só é permitido entre pessoas da mesma casta.

As castas sociais são grupos sociais fechados, cujos integrantes devem se comportar de acordo com normas preestabelecidas de origem religiosa. Um indivíduo nascido em determinada casta deve permanecer nela por toda a vida. Sua posição social é definida ao nascer. Além de direitos e deveres específicos, as pessoas de castas consideradas inferiores não podem ascender socialmente mediante qualidades pessoais mérito ou realizações profissionais.

Pode-se esquematizar a estratificação social indiana por meio da seguinte pirâmide de castas:

Estratificação social indiana.
Estratificação social indiana.

No topo da pirâmide estão os brâmanes, que são os sacerdotes e os mestres da erudição sacra. Segundo sua crença, a eles compete preservar a ordem social, estabelecida por orientação divina.

A seguir, distribuidos pela segunda casta, vem os xátrias, guerreiros que formam a aristocracia militar.

A terceira grande casta – a dos vaixás – é formada pelos comerciantes, artesãos e camponeses.

Os sudras, por sua vez, executam os trabalhos manuais e diversas tarefas servis. São uma casta depreciada, tendo o dever de servir às três castas superiores.

Na base da pirâmide social ficam os párias, grupo de miseráveis, desprovidos de direitos e sem profissão definida. Totalmente desprezados pelas demais castas, vivem da caridade alheia. Os párias não podem banhar-se nas águas sagradas do rio Ganges (o que é permitido às outras castas), nem ler os Vedas, que são os livros sagrados dos hindus.

Embora o sistema de castas tenha sido abolido oficialmente em 1947, quando a Índia conquistou a independência sob a liderança de Mahatma Gandhi, basta percorrer o país para constatar que, na prática, o antigo regime sobrevive. Os indianos das castas superiores não aceitam perder seus privilégios, e os membros das castas inferiores e os “sem castas” continuam sendo excluídos, rejeitados, privados de educação formal e de outras oportunidades. Cabem a eles as piores tarefas, como limpar fossas e lavar cadáveres.

Na segunda metade do século XX, reformas sociais e mudanças na economia da Índia, impulsionadas pela industrialização, começaram a romper o sistema de divisão em castas. Assim, nos grandes centros urbanos do país, como Nova Délhi, Bombaim e Calcutá, a abolição do sistema vem ocorrendo gradativamente. Entretanto, ele ainda perdura na maior parte da Índia rural.

Estamentos ou estados

Um exemplo típico de sociedade estratificada em estamentos pode ser encontrado na Europa ocidental durante a Idade Média (476-1453), sob a vigência do modo de produção feudal.

Estamento ou estado é uma camada social semelhante à casta, porém um pouco mais aberta. Na sociedade estamental, a mobilidade social é difícil, mas não impossível, como na sociedade estratificada em castas.

Na sociedade feudal, a ascensão era possível nos raros casos em que a Igreja recrutava seus membros entre os mais pobres; quando os servos eram emancipados por seus senhores; no caso de o rei conferir um título de nobreza a um homem do povo; ou, ainda, se a filha de um rico comerciante se casasse com um nobre, tornando-se, assim, membro da aristocracia.

A pirâmide social da sociedade estamental durante o feudalismo europeu apresentava-se da seguinte maneira:

Pirâmide social da sociedade estamental durante o feudalismo.
Pirâmide social da sociedade estamental durante o feudalismo.

No vértice da pirâmide encontravam-se a nobreza e o alto clero. Eram os donos da terra, da qual obtinham renda explorando o trabalho dos servos. Os nobres dedicavam-se à guerra e à caça, cuidavam da administração do feudo e exerciam o poder judiciário em seus feudos.

O alto clero (cardeais, arcebispos, bispos, abades) era uma elite eclesiástica e intelectual. Seus membros vinham da nobreza. Constituíam também a única camada letrada na primeira fase do período medieval, desempenhando importantes funções administrativas.

Abaixo da camada dos nobres, encontravam-se os comerciantes. Embora ricos, muitas vezes eles não tinham os mesmos privilégios da nobreza. Além disso, suas atividades sofriam uma série de restrições legais. Tais restrições foram desaparecendo a medida que o feudalismo entrou em declínio.

Mais abaixo estavam os artesãos, os camponeses livres e o baixo clero. Os artesãos viviam nas cidades, reunidos em associações profissionais, as corporações de ofício; os camponeses livres trabalhavam a terra e vendiam seus produtos agrícolas nas vilas e cidades; o baixo clero, originário da população pobre, convivia com o povo prestando-lhe assistência religiosa.

Abaixo de todos estavam os servos, que trabalhavam a terra para si e para seus senhores, vivendo em condições precárias: estavam ligados a terra, passando a ter novo senhor quando a terra mudava de dono.

A divisão da estrutura social em estamentos – que representou um tipo intermediário entre a casta e a classe – o era encontrada na Europa até fins do século XVIII.

Classe social

Já vimos como é possível descrever a divisão da sociedade em estratos ou camadas. Agora, vamos conhecer outra abordagem da divisão social, baseada no conceito de classes sociais.

Mas, atenção: estamos acostumados a ver, sobretudo na mídia e nas pesquisas de mercado, a palavra “classe” como sinônimo de camada ou estrato. Não é disso que se trata. O que estudaremos agora é o conceito de classe social tal como é abordado na literatura sociológica. Desenvolvido pelo pensador alemão Karl Marx, esse conceito parte de premissas próprias, segue critérios específicos e sua aplicação leva a conclusões totalmente diferentes das que podem ser encontradas nos estudos que analisam a sociedade segundo o modelo descritivo da estratificação social.

Nos artigos de “Capitalismo ou socialismo?“, aprendemos que, para Marx, a história da humanidade é “a história da luta de classes”. Segundo esse autor, portanto, a classe social é acima de tudo uma categoria histórica. Quando Marx se refere às duas grandes classes do capitalismo – a burguesia e o proletariado –, está designando duas forças motrizes e concretas do modo de produção capitalista, um sistema econômico historicamente determinado.

O próprio Marx, no entanto, não reivindicava a descoberta das classes sociais nem da luta de classes, mas sim a “demonstração de que a existência das classes só se liga a determinadas fases históricas de desenvolvimento da produção”. Marx atribuía uma importância particular aos conflitos entre as classes. Para ele, são esses conflitos que constituem o principal fator de mudança social. Seriam esses conflitos, portanto, que imprimiriam movimento e dinamismo à sociedade.

Por outro lado, as classes sociais mudam ao longo do tempo, conforme as circunstâncias econômicas, políticas e sociais. As contradições que mantém entre si forjam e estruturam a própria sociedade. Quando os conflitos chegam a um ponto insuportável, ocorre uma revolução que transforma a sociedade, modificando o modo de produção.

Foi o que aconteceu, como vimos, com o feudalismo: uma nova classe (a burguesia) derrubou um velho estamento (a nobreza), gerando a sociedade capitalista. A Revolução Francesa de 1789 foi uma das expressões dessa transforma.

Mas a nova sociedade capitalista, na concepção de Marx, já começou dividida em duas grandes classes conflitantes: a burguesia (proprietária dos meios de produção) e do proletariado, ou classe operária, que só tem de seu, a fúria de trabalho.

Para Karl Marx, a classe capitalista (burguesia) precisa da classe operária (proletariado) para produzir, criar riquezas e fazê-Ias circular. Existe, assim, uma relação de complementaridade entre as duas grandes classes do modo de produção capitalista. Entretanto, essa relação é também de antagonismo, pois o proletariado esta, segundo Marx, em confronto aberto e permanente com a burguesia.
Para Karl Marx, a classe capitalista (burguesia) precisa da classe operária (proletariado) para produzir, criar riquezas e fazê-Ias circular. Existe, assim, uma relação de complementaridade entre as duas grandes classes do modo de produção capitalista. Entretanto, essa relação é também de antagonismo, pois o proletariado esta, segundo Marx, em confronto aberto e permanente com a burguesia.

Vladimir Lenin (1874-1924), líder da Revolução Russa de 1917 é um dos grandes pensadores marxistas, definiu o sistema de classes da seguinte forma: “As classes são grupos de homens relacionados de tal forma que uns podem apropriar-se do trabalho de outros por ocupar posições diferentes num regime determinado de economia social”.

Na definição de Lenin, esses homens e mulheres que formam as classes sociais se diferenciam entre si pelo lugar que ocupam na produção. Alguns desempenham cargos de direção e são proprietários de fábricas e empresas de todo tipo (meios de produção); outros apenas executam as tarefas determinadas pelos chefes em troca de um salário: São os trabalhadores. Dessa forma, é a propriedade privada dos meios de produção que constitui a base econômica da divisão de nossa sociedade em classes.

Essa divisão baseada no regime de propriedade faz com que uma classe seja dominante, e a outra, dominada, numa relação sistemática de dominação e exploração.

Assim, a teoria das classes não se limita a descrever as divisões da sociedade em camadas, como faz o modelo da estratificação social, mas procura explicar como e por que elas ocorrem historicamente. As classes sociais só existem a partir da relação que estabelecem entre si. Nesse sentido, as classes são, além de antagônicas, necessariamente complementares. A burguesia, por exemplo, não pode existir sem o proletariado.

Complementares, porque são elas que fazem funcionar o sistema. Antagônicas, porque uma delas (a burguesia) se apropria do trabalho da outra (o proletariado), o que gera o conflito permanente.

As classes médias

Entre a burguesia e o proletariado existem outros grupos que se movem entre as duas classes fundamentais, oscilando de uma para a outra. Alguns desses grupos são denominados genericamente de classes médias, ou pequena burguesia.

A pequena burguesia constitui um setor muito numeroso, que abrange desde o dono de um pequeno armazém até os pequenos e médios proprietários de terra, passando por todos os assalariados que trabalham em escritórios, funcionários públicos e profissionais liberais.

Ao contrário da burguesia e do proletariado, que atuam diretamente na produção social, entre as classes médias (também chamadas de classe média, no singular, por muitos autores) misturam-se múltiplos papéis. Não se trata, portanto, de uma classe política e socialmente homogênea.

Segundo Karl Marx, essa heterogeneidade das classes médias explica por que, nos conflitos sociais e políticos, elas oscilam tanto, ora apoiando os interesses da grande burguesia, ora apoiando os interesses dos trabalhadores.

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