O texto que você vai ler aborda as enormes mudanças ocorridas na sociedade contemporânea com o advento das redes de computadores, e particularmente com a Internet. Uma dessas mudanças é a subversão da noção de comunidade.

A comunicação pela Internet ignora hora e lugar e subverte a noção de comunidade.

Operários que hoje estendem cabos de fibra óptica no subterrâneo das cidades são uma reminiscência daqueles trabalhadores pioneiros que cravaram trilhos de trem. Agora, eles abrem uma nova estrada, a supervia da informação. Reconfiguram as tradicionais relações de espaço e tempo. “Vão mudar nossas vidas para sempre”, conclui o professor americano William J. Mitchell no livro City of bits (Cidade dos bits).

A revolução digital nas telecomunicações, a propagação de bits e a miniaturização dos aparelhos eletrônicos esboçam as cidades do século XXI. “Se compreendermos o que está acontecendo, e se conseguirmos conceber e explorar alternativas futuras, poderemos achar oportunidades para intervir, às vezes resistir e para organizar, legislar e planejar”, diz o professor Mitchell.

Como os “sem terra”, os “sem bits” serão os novos excluídos, enquanto os privilegiados serão “ricos de informação”.

O correspondente do jornal New York Times no Vale do Silício (região da Califórnia, Estados Unidos, onde se encontram as empresas ligadas à informação), John Markoff, acha que a Internet logo se tornará uma cidade de altas muralhas, com portas trancadas e travas nas janelas. “A imagem é a de que vamos viajar, comprar, comunicar, trabalhar e até fazer amor no espaço eletrônico”, diz ele. “Mas, com o fim da comunidade de compartilhamento direto, o ciberespaço reflete, cada vez mais, as atuais cidades reais.”

Na Grécia Antiga, a Ágora de Atenas era a praça onde os cidadãos se reuniam para tomar decisões políticas. Atualmente a Ágora não está em nenhum lugar e está em todos ao mesmo tempo, pois muitas pessoas “se reúnem” por meio das redes de computadores, sem ter nenhum contato físico entre si. “Ela dispersa, subverte e redefine radicalmente nossas noções de comunidade e vida urbana”, escreve Mitchell.

Navega-se pela Ágora diariamente por meio de computadores. O físico inglês Stephen Hawking vive imobilizado numa cadeia de rodas, mas em contato eletrônico com os mundos real e virtual.

Num tempo em que bibliotecas compram supercomputadores em vez de maior espaço físico, o professor Mitchel enfatiza que nesse novo mundo “fazemos nossas redes e somos feitos por elas”.

A algema eletrônica, conectada a um modem, pode significar o fim das celas e muros dos presídios. A Clearing House Interbank é um modelo de banco do futuro: de um lugar qualquer, em Manhattan (bairro de Nova York, Estados Unidos), processa trilhões de dólares por dia.

Bolsas de valores no Canadá, Coreia e Alemanha vão acabar com os pregões movidos a gritos e gestos, fazendo negócios só no ciberespaço. O shopping eletrônico já é o sucessor da venda por catálogos. “Ir às compras passou a ser algo absolutamente novo”, constata Mitchel. “Vendedor, cliente e fornecedor não precisam mais estar no mesmo lugar.”

Esvaziam-se escritórios: 6,6 milhões de americanos já haviam aderido ao teletrabalho em 1993. Na cidade dos bits “a habitação ganha um novo sentido”. A sala de estar será programada para trabalho, diversão e educação. O futurólogo americano Alvin Toffler antevê maior união da família. Feministas suspeitam de que esse processo trará de volta as trabalhadoras para dentro de casa.

O habitat eletrônico fará do arquiteto do século XXI o intermediário dos mundos real e virtual. Não chove no ciberespaço, mas a privacidade requer um abrigo. Os lugares públicos deverão prover acesso público à “bitsphera” (esfera de bits, parodiando a biosfera, ou esfera da vida, na qual estão todo os organismos vivos da Terra). “Como o virtual e o físico deverão se relacionar um com o outro?”, pergunta Mitchel. “Esta é uma das questões mais desafiadoras para os futuros planejadores urbanos.”

A corrida para a colonização do ciberespaço já começou. Os países que quiserem ser competitivos têm de “investir numa infraestrutura nacional de informação, como investiram antes em portos, frotas de navios, ferrovias e rodovias”.