Os sociólogos costumam fazer distinção entre sociedades e comunidade. Em sentido amplo, a expressão sociedade refere-se à totalidade das relações sociais entre os seres humanos. Em sentido mais estrito, ela é contraposta pelos sociólogos ao conceito de comunidade. Nesse caso, sociedade seria uma associação humana caracterizada por relações baseadas em convenções e não em laços afetivos.

Comunidade, sociedade, cidadania
  1. Comunidade
  2. Sociedade
  3. Cidadania
  4. Minorias

Segundo o sociólogo alemão Ferdinand Tönnies (1855-1936), enquanto a comunidade está ligada internamente por uma vontade coletiva natural, na sociedade predomina a vontade artificial, deliberada, proposital (leia no texto “Comunidade e sociedade“).

Sociedade societária

Ao nos referirmos às comunidades camponesas que serviram de fonte de observação para Frdinand Tönnies, utilizamos a expressão sociedade comunitária. Em oposição a ela, alguns sociólogos utilizam o conceito de sociedade societária para designar as sociedades modernas. Outros, contudo, preferem manter as designações tradicionais de comunidade e sociedade.

As grandes metrópoles contemporâneas são uma síntese da sociedade societária. Esta se caracteriza pela acentuada divisão do trabalho e pela proliferação de papéis sociais. Nela os indivíduos precisam enquadrar-se numa complexa estrutura social, em que ocupam determinado status e desempenham papéis diferentes, frequentemente sem ligação entre si.

As relações sociais nas sociedades societárias tendem a ser transitórias, superficiais e impessoais. Os indivíduos associam-se uns aos outros em função de determinados propósitos limitados. São relações essencialmente instrumentais. A vida perde a coesão unitária que mantinha estável a antiga comunidade. O trabalho fica distanciado da família e do lazer. A religião tende a confinar-se a determinadas ocasiões e lugares, em vez de fazer parte do convívio cotidiano das pessoas. Nessa estrutura social, a família deixa de ser o centro de união do grupo.

Na sociedade societária, os interesses comuns muitas vezes entram em conflito, e perde-se em grande parte a força da tradição. A relativa uniformidade de penamento da comunidade é substituída por uma enorme variedade de interesses e ideias divergentes. São relativamente poucas as crenças, os valores e padrões de comportamento universalmente aceitos.

Os mores são enfraquecidos e a lei formal emerge para regular o comportamento e governar o intercâmbio social. No lugar da firme coesão social, característica da sociedade comunitária, na sociedade societária a integração é frouxa e o grau de consenso tende a diminuir. Isso pode provocar uma frequência maior de situações de conflito.

Uma transição dolorosa

A distinção entre comunidade (ou sociedade comunitária) e sociedade societária proporciona instrumentos para a interpretação da sociedade contemporânea, assim como para estabelecer uma projeção de suas tendências.

Com o avanço da industrialização e da globalização, as sociedades comunitárias tendem a se transformar rapidamente em sociedade societárias. Manifestações desse processo são o crescimento sistemático das cidades, o declínio da importância da família, a ampliação do poder da burocracia, o enfraquecimento das tradições e a diminuição do papel da religião na vida cotidiana. (Um das reações a essa diminuição é o crescimento de certas igrejas, como a evangélica, nas quais os crentes desenvolvem aspectos importantes de vida comunitária.)

Tais mudanças conduzem, de um lado, ao conflito, à instabilidade, à ansiedade e às tensões psicológicas; de outro, à liberação dos sistemas de control e de coerção, e as novas oportunidades para o desenvolvimento humano.

Para aprofundar o conhecimento desse processo, leia o texto “Supervia da informação redefine tempo e espaço“.

A cultura do individualismo

Embora as definições de Tönnies sejam um instrumento indispensável para a compreensão dos dois tipos de sociedade, a Sociologia contemporânea atualizou certos conceitos de comunidade e sociedade, de acordo com as noas relações sociais que vêm se estabelecendo entre os indivíduos. Um exemplo de novo tipo de vida, que se baseia em relações sociais acentuadamente indiretas, são os chamados singles (pessoas que preferem viver sozinhas). Leia a seguir o depoimento da escritora Cristina Porto sobre esse tipo de vida.

“Moro sozinha desde 1978 (…). É difícil dividir as coisas, manter a beleza da relação (amorosa) no dia a dia. Morar com outro interfere até na nossa própria energia. Eu, por exemplo, gosto de ouvir música baixinho, detesto muito barulho – tem que ser tudo calmo, para não me atropelar. Gosto de curtir meus pequenos rituais, como tomar o café da manhã cedinho, de pijama, depois voltar para a cama e cochilar com o rádio ligado, às vezes escutando música sertaneja.

São coisas que eu não poderia fazer tão à vontade se morasse com alguém. É uma delícia também, quando volto de viagem, saber que a coisa vai estar exatamente do jeito que deixei, sem alteração de cheiro, de astral, de nada. Só não gosto mesmo é de providenciar serviços de manutenção – quando peço orçamento para encanador, eletricista, pedreiro, chaveiro, sempre tenho a sensação de estar sendo enganada e explorada.

Uma as grandes vantagens de morar sozinha é o descompromisso – sair e voltar quando quiser, sem ter de avisar ninguém. A liberdade é fundamental para mim. Talvez por isso não me incomode a solidão. Liberdade e solidão estão juntas. Se você quiser exercitar sua liberdade, você vai ser uma pessoa sozinha. Mas deve ser pior se sentir sozinha ao lado de outro. Isso eu nunca senti. Procuro as pessoas quando sei que tenho coisas boas para dar, quando posso dividir alegria. Dor e tristeza eu prefiro curtir sozinha.” (Cristina Porto, escritora. Cultura News, nº 48, 1996.)

A tendência para o auto-isolamento vem se verificando principalmente nas cidades grandes: é cada vez maior o número de pessoas que moram sozinhas. O tabu de que estar só é sinal de abandono ou de incompetência afetiva está sendo superado por uma nova forma de olhar a questão. Hoje, morar sozinho é acima de tudo uma opção de vida, que tem suas vantagens e desvantagens.

Não ter com quem dividir as tarefas cotidianas está entre as dificuldades apontadas pelos homens, enquanto para as mulheres o maior problema está na manutenção dos serviços da casa (contratar eletricista ou pedreiro para consertos, por exemplo).

No Brasil, há quase 4 milhões de pessoas que vivem sozinhas em seus domicílios. São exigentes, têm estilo próprio e colecionam manias: a tribo dos singles não pára de crescer. Essa tendência é mundial. Nos Estados Unidos há 26 milhões de adultos que moram sozinhos por opção. Na Alemanha são 13 milhões. Estima-se que eles serão 25% da população do país em dez anos. Na França, o percentual de lares onde viveu uma só pessoa aumentou 21,4% em oito anos, enquanto na Inglaterra esse aumento foi de 37,5% em dez ano.

Uma interpretação sociológica da “tendência single

Por que tantas pessoas vem optando por uma vida solitária? São várias as explicações, algumas demográficas, outras econômicas; há também as razões particulares.

A primeira constatação é óbvia: as pessoas se casam menos e com mais idade. Portanto, o número de solteiros é cada vez maior no país. O grupo dos descasados também contribui para fazer crescer o número dos que vivem sozinhos. Cerca de 150 mil pessoas se divorciam anualmente no Brasil. Como os casais tendem a ter menos filhos do que antigamente, é comum que, na separação, cada um arrume seu próprio canto. Além disso, o aumento da expectativa de vida do brasileiro faz com que o número de idosos também aumente.

Os singles são sistemáticos e individualistas. Alguns estudiosos acreditam que o individualismo leva à percepção de que é desvantajoso estar com outra pessoa. Os próprios singles confessam certa intolerância para com o outro, prevalecendo o egoísmo. A dificuldade de estabelecer relações duradouras e o fortalecimento do individualismo poderão gerar alguns dos principais problemas sociais num futuro próximo.

A Sociologia tem se dedicado a pesquisar os singles, investigando suas formas de vida. O sociólogo alemão Stefan Hradil, por exemplo, afirma que eles são os “sismógrafos” do nosso tempo: “Os singles colocam em relevo a relação extremamente instável entre o indivíduo e a coletividade que é própria das sociedades contemporâneas em geral e da Alemanha, em particular”.

De fato, os singles são mais numerosos nas grandes metrópoles do que no campo (onde os estímulos para uma vida comunitária e solidária são mais fortes): um terço deles vive em cidades com mais de 1 milhão de habitantes. Ao mesmo tempo, sua formação educacional está acima da média: são geralmente bem-sucedidos na carreira profissional, ganham bem e moram, de modo geral, em casas confortáveis.

Indagações, mudanças e desafios

Como será a sociedade no futuro? Qual será a base do consenso e da estabilidade na sociedade pós-industrial urbana? Será necessário, para resolver nossos problemas econômicos e sociais, retomar os valores tradicionais e os modernos mais antigos de organização? Serão as formas sociais alternativas (como a dos singles) apropriadas a uma sociedade complexa como a nossa, com valores muitas vezes conflitantes, como o da liberdade, da oportunidade e da individualidade? Será possível conciliar, de alguma forma, os diferentes tipos de vida que se estabelecem no centro e nos bairros das grandes metrópoles e em suas periferias?

Embora as metrópoles contribuam para o surgimento de novos estilos de vida, as mudanças parecem não ter afetado ainda significativamente todos os moradores dos grandes centros urbanos: mesmo em cidades como Nova York e São Paulo podem-se encontrar relações intensas de vizinhança, nas quais os indivíduos estabelecem contatos sociais diretos, com ações de solidariedade.

Isso se dá com frequência nos bairros pobres da periferia, onde o código moral se baseia, em geral, na ajuda mútua. Em muitos dos bairros mais pobres, mesmo numa sociedade societária, preservam-se certos valores das antigas comunidades. Nesses lugares, a vida gira em torno da família, do local de moradia, das relações da vizinhança. O vizinho, muitas vezes, passa a ser quase um membro da família, um companheiro nas horas de apuro.

Entretanto, a velocidade com que estão se dando as mudanças na sociedade societária traz novos desafios às grandes metrópoles: um exemplo disso é o assustador aumento da criminalidade e as dificuldades para combatê-la.

Nesse processo, embora continue forte em alguns lugares da periferia, a solidariedade entre as pessoas perde sua força nas grandes cidades; antigas instituições sociais sofrem duros golpes em sua credibilidade e legitimidade. Tudo favorece o comportamento individualista que se manifesta inclusive no desenvolvimento de estratégias de autodefesa pessoal ou de procurar “fazer justiça pelas próprias mãos”. Mesmo algumas relações de vizinhança, onde persistem as manifestações da vida comunitária, poderão não sobreviver ao individualismo crescente, que tende a se universalizar.

Com seu estímulo ao consumo e à competição desenfreada, a economia capitalista, dinâmica e tecnologicamente inovadora, colabora para reforçar a cultura do individualismo e o isolamento; favorece a formação de uma sociedade egocêntrica, com uma frágil conexão entre seus membros, na qual as pessoas buscam satisfazer apenas suas necessidades e impulsos. Numa sociedade desse tipo, a satisfação individual está acima de qualquer obrigação comunitária.

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