O texto que você vai ler agora foi escrito pelo jornalista José Arbex em 1999, alguns anos depois da desintegração da União Soviética. Ele faz um rápido balanço da experiência de construção do socialismo a partir da Revolução Russa de 1917.

“Passemos à construção do Estado socialista proletário russo. Viva a revolução mundial!”, proclamou Vladimir Ilitch Lenin, na tarde de 25 de outubro de 1917, na sede do soviete (conselho) de Petrogrado, na Rússia. Na noite anterior, os bolcheviques haviam derrubado o governo e tomado o poder.

Inaugurava-se uma nova era na História da humanidade. Nenhum evento cultural, político e social do mundo contemporâneo pode ser analisado sem se levar em conta a História e os destinos da Revolução de 1917.

Lenin e Trotski, os principais líderes da Revolução Russa, estavam certos de que aquele era apenas o primeiro passo de um poderoso movimento mundial. E era mesmo.

Entre o final de 1917 e 1920, multiplicaram-se as greves, manifestações e insurreições operárias e camponesas no Brasil, Argentina, México, Estados Unidos, Alemanha, Hungria, China, Austrália, Holanda, Áustria, Bulgária e Espanha. (…)

O sonho libertário de uma sociedade mais justa e solidária parecia ao alcance da mão. Em 1922, ao proclamar a fundação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), os líderes da Revolução Russa apareciam como os anunciadores do triunfo das luzes da razão sobre os mais ferozes instintos humanos de competição. O futuro só poderia ser brilhante.

Mas, ao contrário do que desejavam Lenin e Trotski, a revolução mundial fracassou. Fora da URSS, foi massacrada pelos exércitos e agentes do capitalismo. Dentro da URSS, foi derrotada pelo isolamento da própria revolução, pelo atraso econômico e social herdados do czarismo e pelo surgimento de uma poderosa camada de burocratas corruptos que se apossou dos principais cargos de comando do PCUS (Partido Comunista da União Soviética, o único que podia legalmente existir), comandada por um obscuro e sinistro ex-seminarista chamado Josef Stalin.

Stalin instaurou o culto à sua própria personalidade, proibiu todo e qualquer debate e substituiu o “internacionalismo socialista” pela ideia de “socialismo num só país”. A polícia stalinista executava os “traidores” ou os enviava aos campos de trabalho forçado na Sibéria. Assim, os anos 1920 na União Soviética foram encerrados com uma monstruosa ditadura totalitária.

Não que o capitalismo estivesse em boa fase. Muito ao contrário: o crash da Bolsa de Nova York, em 1929, que esfacelou toda a economia norte-americana, tinha, como contrapartida, uma Europa devastada pela guerra (a de 1914-1918).

Na Alemanha, a ascensão do nazismo em 1933 foi um sintoma do esfacelamento da ordem burguesa. Hitler contou com a conivência dos governos europeus, como uma promessa de aniquilação do comunismo. O líder britânico Winston Churchill chegou a afirmar que a Europa precisava de vários “hitleres”. Calculava que Hitler e Stalin se destruiriam mutualmente.

Hitler invadiu a URSS em 1941 e cerca de trinta milhões de soldados e cidadãos soviéticos morreram na guerra contra os alemães. Apesar disso, não conseguiu derrotar os soviéticos. Mas a frágil aliança entre os vencedores da Segunda Guerra Mundial (refere-se à aliança entre Estados Unidos, União Soviética, Inglaterra e França para combater o nazismo) logo seria rompida pela Guerra Fria entre os Estados Unidos e a União Soviética (1947-1991).

A Guerra Fria jogou pesadamente com a ideia de “Bem” e “Mal”, destruindo a credibilidade do discurso político. Intelectuais e políticos eram obrigados a se posicionar: a “direita” achava que o stalinismo era decorrência necessária do marxismo, que não passava de uma louca tentativa de controlar a História. A URSS, a China, Cuba e outras nações socialistas seriam uma prova de que “socialismo” era incompatível com “liberdade”.

A “esquerda” se dividiu. Stalinistas e pró-soviéticos justificavam a ditadura soviética como “mal menor”. Trotskistas e outras correntes marxistas preconizavam uma “revolução política” para liquidar o stalinismo.

Na década de 1980, a União Soviética tinha um novo governante – Mikhail Gorbatchov -, que propunha mudanças. Era uma alternativa ao capitalismo que impunha limites ao mercado. Gorbatchov achava possível construir um “Estado de direito”, unindo socialismo e liberdade. Mais estranho ainda: Gorbatchov fazia o que dizia. Nunca reprimiu opositores. Ao contrário, libertou os presos políticos. Nunca enviou tropas para sufocar manifestações. Foi mais longe na prática da tolerância do que qualquer outro estadista.

Sua queda, em 1991, causou um prejuízo teórico e político para toda a humanidade. Poucos entenderam isso. A direita apressou-se em festejar o ingresso da Rússia no mercado. A esquerda stalinista encarou a política de Gorbatchov como traição. Entre os risos e a ira, uma rica experiência permanece soterrada sob os escombros da URSS. 

Hoje, a Rússia privatizada é um dos poucos países em que a mortalidade infantil cresce com a mesma rapidez com que cai a expectativa de vida. Em suas cidades dominadas pela máfia vicejam a prostituição, os cassinos, o narcotráfico. A distância que separa esse quadro desolador da proclamação leninista de 1917 é a própria síntese do século XX.

Como disse o historiador inglês Eric Hobsbaum, a Revolução de 1917 foi o evento mais marcante do mundo contemporâneo. Sua grandeza e tragédia continuarão a desafiar intelectuais, políticos e pensadores do século XXI.

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