O artigo “À beira do abismo” é pessimista em relação ao futuro de nossas classes médias, mas o texto a seguir é francamente otimista no que se refere às possibilidades de ascensão social de pessoas das classes baixas. Ao lê-los, é preciso ir com certo cuidado. Ambos são matérias jornalísticas influenciadas pela impressão do momento. Este artigo, por exemplo, foi escrito em agosto de 2003, depois da eleição de Luiz Inácio Lula da Silva, um ex-metalúrgico, para a Presidência da República. É preciso considerar também que entre o primeiro e o segundo texto há uma distância de um ano e sete meses.

Além disso, não se deve deixar de observar que, embora algumas pessoas consigam melhorar de vida por seu próprio esforço, essa via de ascensão não está ao alcance de todos no Brasil. É preciso lembrar que as desigualdades sociais são muito grandes em nosso país e que cerca de 16 milhões de brasileiros vegetam em condições de miséria absoluta.

O economista austríaco Joseph Schumpeter, um dos pensadores que moldaram a economia moderna, compara a estrutura social de um país com um hotel que oferece aos hóspedes suítes luxuosas, apartamentos padrão e quartos modestos. Quem passa em frente ao hotel mas o vê lá do outro lado da rua conclui que nada muda naquele edifício. Há os mais ricos, ocupantes das suítes, e os mais pobres, habitantes da ala mais modesta. Ano após anos permanece a distribuição desigual dos quartos.

Entretanto, se alguém atravessar a rua, entrar no saguão e se interessar pelo história dos hóspedes, verá que muitos deles trocaram o quarto pelo apartamento, este pela suíte, e vice-versa. Assim são as sociedades, dizia Schumpeter.

O empresário gaúcho Lírio Parisotto, por exemplo, é um dos que, ao longo da vida, já ocuparam todos os quartos do hotel, e atualmente mora na cobertura. Aos 49 anos, Parisotto se tornou o maior fabricante de fitas de videocassete, virgens e gravadas, CDs, DVDs e disquetes, além de produzir a matéria-prima para tudo isso numa fábrica de poliestireno que montou em Manaus. Seu grupo, a Videolar, faturou 600 milhões de reais no ano passado, e deve chegar a 1 bilhão até 2004.

Há quarenta anos, Lírio vivia numa casa de madeira em Nova Bassano, no interior do Rio Grande do Sul, por cujas frestas entrava o vento gelado no inverno. Estudava em uma escola para onde ia descalço para não gastar calçado. Ele e os nove irmãos ajudavam os pais nas atividades da roça, de onde tiravam o sustento produzindo vinho e criando suínos.

Lírio começou a reescrever sua história quando se tornou sócio de uma pequena loja de instalação de som em automóveis, há 22 anos.

A observação do “hotel Brasil” confirma a imagem de Schumpeter. O sociólogo José Pastore, professor da Universidade de São Paulo (USP), estuda há trinta anos a composição da sociedade brasileira. Num de seus trabalhos, ele concentrou a atenção sobre um pedaço específico da população, justamente aquele que ocupa as suítes luxuosas.

Trata-se da fatia dos 5% mais ricos. Entre eles estão as pessoas com maior renda e o mais alto nível educacional, a maioria com ensino superior completo. São empresários, gerentes em empresas financeiras, engenheiros, médicos, advogados e grandes proprietários rurais. Pastore descobriu que apenas 18% dos que formam o topo da sociedade, segundo esse critério, pertencem a famílias cujos antepassados já compunham a elite. Os outros 82% são recém-chegados.

Algumas das curiosidades a respeito dos forasteiros: 20% são filhos de agricultores, na maioria analfabetos. E 16% nasceram num lar sustentado por profissionais como sementes e pedreiros. No total, mais da metade da elite é integrada por filhos de trabalhadores manuais, como Lírio Parisotto. “A mobilidade social brasileira impressiona meus colegas sociólogos do mundo todo”, comenta José Pastore.

Em muitos países se registram trajetórias como a do carioca Alexandre Accioly, 41 anos, dono de um patrimônio estimado em 200 milhões de reais. Mas a maneira fulminante como ele encontrou seu caminho rumo ao topo da pirâmide guarda uma relação próxima com o fenômeno tipicamente brasileiro apontado por Pastore.

Na adolescência, Accioly morava com a mãe e duas irmãs num apartamento de quarto e sala no Rio de janeiro depois que o pai saiu de casa. A família se sustentam com o dinheiro que a avó materna recebia como aposentadoria. Aos 17 anos, Accioly abriu seu primeiro negócio, uma agência de figurantes. Não deu certo. Montou uma agência de publicidade. Quebrou. Quebraria mais três vezes com um restaurante, um jornal de esportes e um jornal de classificados.

Em 1991, aos 29 anos, Accioly abriu uma empresa de telemarketing, a Quatro/A. Em 1999, a Telefônica comprou a Companhia por 140 milhões de reais. Atualmente, Accioly tem participação em onze empresas. É amigo de empresários, banqueiros, políticos e colunáveis, e namorou celebridades, como Adriane Galisteu e Carolina Ferraz.

A maior parte dos brasileiros não dá saltos tão largos em tão pouco tempo. Mas os dados mostram que um contingente expressivo, muito mais numeroso do que as crises frequentes da economia permitiriam imaginar, vem progredindo em ramos e graus variados.

No maior trabalho já publicado sobre o assunto, resultado de uma parceria de José Pastore com o também sociólogo Nelson do Valle Silva, foram entrevistados 42 mil chefes de família, homens com idade entre 20 e 64 anos. Os números pertencem à Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios do IBGE e foram atualizados até 1996. Muita coisa mudou nos últimos sete anos, principalmente o quadro econômico; mas Pastore informa que, como se trata de estatísticas que retratam movimentos de longo prazo, a tendência captada na pesquisa original continua válida.

Os indicadores daquele estudo mostram que cinco de cada dez brasileiros vivem melhor do que viviam seus pais. Outros quatro têm um padrão de vida semelhante ao dos pais. Apenas um está pior. O trabalho catalogou 259 profissões, divididas em seis grupos segundo uma certa hierarquia. Ocupações manuais como lavrador e pescador foram colocadas no pé da lista e lá no topo estão as atividades liberais, como medicina e advocacia. Numa comparação feita com dezenove países, entre os quais Espanha, França, Estados Unidos, Itália, Canadá e Japão, o Brasil foi apontado naquele ano como o país de maior mobilidade social do mundo. (…)

Países não são mais ou menos móveis socialmente porque assim decidiram seus governantes de forma arbitrária. Foi a história de cada um e os avanços sociais e econômicos que levaram a isso. De modo geral, nações “novas” são socialmente mais mutáveis que as “antigas”. Em países como Estados Unidos, México e Canadá pertencer a uma linhagem familiar com raízes na nobreza conta pouco – quase nada, em comparação com países monárquicos, como a Inglaterra ou repúblicas ainda fortemente marcadas pelas dinastias hieráticas do passado, como a França.

Além da importância secundária reservada à tradição familiar, certos hábitos dos países novos promovem a mobilidade. Um deles é a cultura do consumo. O americano médio compra mais que o europeu médio e se endivida mais. Aproveitando-se dos estímulos de mercado, entre os quais os juros baixos, o consumidor americano abre oportunidades a empreendedores, aquece a economia e alarga as vias de ascensão social.

Na Índia, a mobilidade tende a zero. Apesar de alguma melhora recente, o país ainda é engessado por sua milenar cultura de castas. O choque interno entre etnias, religiões e idiomas diferentes cria desconfianças e um ambiente fértil para a violência grupal. Tudo isso desestimula o empreendedorismo.

Na Europa, a mobilidade pode ser definida como uma conta de soma em zero. Isto é, para que um indivíduo suba, outro precisa descer. Uma promoção no trabalho quase sempre é decorrência de uma demissão ou aposentadoria. Não se abrem postos de trabalho novos, não se criam oportunidades de emprego.

Na Inglaterra, dependendo do desempenho do aluno no ensino médio, ele já sabe em que tipo de escola de ensino superior poderá estudar. As instituições técnicas estão reservadas aos alunos de pior desempenho, as faculdades absorvem os estudantes medianos e um seleto grupo de universidades ultra-elitizadas, as quais o acesso é dificílimo, recruta os melhores da turma.

Os estudos apontam para uma relação de causa e efeito notável entre a renda familiar dos estudantes e a escola superior em que ingressam. Os mais pobres são maioria nas escolas técnicas, e os mais ricos ficam com as vagas das universidades de elite.

Uma explicação adicional para a baixa mobilidade social na Europa é também a principal virtude do continente: a excelente distribuição de renda existente na região. Se tudo está mais ou menos dividido fraternalmente, como e para que melhorar de vida? (…)

Nos países ricos, as pessoas chegam lá em cima, só que, em geral, ninguém parte de um ponto tão baixo como acontece muitas vezes no Brasil (até porque não existe um ponto “tão baixo”). O milionário norte-americano Bill Gates é filho de um advogado e estudava em Harvard (universidade de elite) quando montou a Microsoft. Sua família situava-se num ponto elevado da pirâmide. O primeiro-ministro italiano Stivio Berlusconi, a um só tempo a maior força política e econômica da Itália, foi outro que começou de cima. Seu pai, Luigi, era diretor de banco.

No caso brasileiro, há ingredientes adicionais para explicar a mobilidade social, e um dos mais importantes foi o processo de urbanização. Quando as pessoas trocaram o campo pela cidade, foram apresentadas aos serviços públicos, tiveram acesso a saúde, água limpa e esgoto tratado, além de um mundo de oportunidades de trabalho próprias da industrialização: salário, vale-transporte, auxílio-maternidade, plano de saúde, tíquete-refeição. (…)

Os estudos a respeito da mobilidade brasileira chamam a atenção para uma característica nacional lamentável: a desigualdade na partida. No Brasil, nem todos competem em pé de igualdade por uma vaga na escola e no trabalho.

Até alguns anos atrás, homens e mulheres eram tratados de forma diferente, e eles levavam vantagem quando disputavam uma oportunidade profissional com elas. Após uma luta intensa, a distância diminuiu significativamente e há estudiosos dizendo até mesmo que desapareceu. A luta das mulheres brasileiras se inspirou na batalha das grandes lideranças feministas mundiais e surtiu efeito.

No caso da diferença racial, que também vem sendo combatida a partir de exemplos estrangeiros, os avanços parecem mais lentos. Um branco e um negro com origem social idêntica não têm a mesma oportunidade de progredir na vida. Negros e pardos, que representam 46% da sociedade, ocupam apenas 21% dos bancos universitários. Um levantamento recente realizado no Rio de Janeiro e em São Paulo mostra que, enquanto a pobreza atinge 30% dos brancos, ela vitima 45% dos negros.

O Brasil promoveu o casamento entre uma virtude social desejável, a mobilidade, e um defeito pavoroso, a desigualdade. O desafio é eliminar o defeito sem comprometer a virtude.

FONTEVeja, 13.8.2003
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