Vá de UBER!

Os alunos de uma escola resolvem fazer uma limpeza geral no salão de festas para o baile de formatura. Organizam-se, um ajuda o outro e logo o trabalho está acabado. Esse resultado foi possível porque houve cooperação. A cooperação é um tipo de processo social.

A convivência humana
  1. Sociabilidade e socialização
  2. Contatos sociais
  3. O isolamento social
  4. A importância da comunicação
  5. Interação social
  6. Processos sociais

A palavra processo designa a contínua mudança de alguma coisa numa direção definida. Processo social indica interação social, movimento, mudança. Os processos sociais são diversas maneiras pelas quais os indivíduos e os grupos atuam uns com os outros, a forma pela qual os indivíduos se relacionam e estabelecem relações sociais.

Qualquer mudança proveniente dos contatos sociais e da interação social entre os membros de uma sociedade constitui, portanto, um processo social.

Tipos de processo social

No grupo social ou na sociedade como um todo, os indivíduos e os grupos se reúnem e se separam, associam-se e dissociam-se. Assim, os processos sociais podem ser associativos e dissociativos.

Os processos associativos estabelecem formas de cooperação, convivência e consenso no grupo. Já os dissociativos estão relacionados a formas de divergência, oposição e conflito, que podem se manifestar de modos diferentes.

Os principais processos sociais associativos são cooperação, acomodação e assimilação.

Os principais processos sociais dissociativos são competição e conflito.

Resumindo:

Tipos de processo social.
Tipos de processo social.

A seguir, vamos estudar os processos associativos e dissociativos. Você vai perceber que não seguimos a ordem apresentada no esquema anterior. Isso se deve, em parte, à necessidade de se priorizarem certos processos, seja para facilitar o entendimento de outro, seja porque a partir dele podem surgir outros processos.

Cooperação

A cooperação é a forma de interação social na qual diferentes pessoas, grupos ou comunidades trabalham juntos para um mesmo fim.

São exemplos de cooperação: a reunião de vizinhos para limpar a rua, ou de pessoas para fazer uma festa; mutirões de moradores para construir conjuntos habitacionais; sociedades cooperativas etc.

A cooperação pode ser direta ou indireta.

Cooperação direta. Compreende as atitudes que as pessoas realizam juntas, como é caso dos mutirões.

Cooperação indireta. É aquela em que as pessoas, mesmo realizando trabalhos diferentes, necessitam indiretamente umas das outras, por não serem autossuficientes. Tomemos o exemplo de um médico e de um lavrador: o médico não pode viver sem o alimento produzido pelo lavrador, e este necessita de cuidados médicos quando fica doente.

Competição

“No uso recente, competição é a forma de interação que implica luta por objetivos escassos; essa interação é regulada por normas, pode ser direta ou indireta, pessoal ou impessoal, e tende a excluir o uso da força e da violência” (Dicionário de Ciências Sociais. Rio de Janeiro, Editora da Fundação Getúlio Vargas, 1987. p. 218).

A competição pode levar indivíduos a agir uns contra os outros em busca de uma melhor situação. Ela nasce dos mais variados desejos humanos, como ocupar uma posição social mais elevada, ter maior importância no grupo social, conquistar riqueza e poder, vencer um torneio esportivo etc.

Ora, nem todos pode obter os melhores lugares nas esferas sociais, pois os postos mais importantes são em número muito menor que seus pretendentes, isto é, são escassos. Assim, os que pretendem alcançá-los entram em competição com os demais concorrentes. Nessa disputa, as atenções de cada competidor estão voltadas para a recompensa e não para os outros concorrentes. Para entender melhor o conceito de competição, leia o texto “Emprego: a luta por um lugar ao Sol“.

Se você leu o texto sugerido acima, percebeu que há dois casos de competição: a que existe entre países que disputam uma fatia do mercado mundial (“concorrência estrangeira”) e a disputa entre desempregados por postos de trabalho (neste caso, na proporção de mil para um).

O lojista que procura conquistar os fregueses de outro comerciante e os estudantes que lutam por uma vaga no vestibular estão igualmente envolvidos numa relação de competição, da mesma forma que atletas em um torneio esportivo.

Há sociedades que estimulam mais a competição que outras. Entre as tribos indígenas, por exemplo, as relações não são tão acentuadas competitivas como na sociedade capitalista. Esta última estimula os indivíduos a competirem em todas as suas atividades – na escola, no trabalho e até no lazer -, exacerbando o individualismo em prejuízo da cooperação.

Conflito

Quando a competição assume características de elevada tensão social, sobrevém o conflito.

Diariamente, vemos e ouvimos no noticiário dos jornais, do rádio, da televisão e da internet relatos de conflitos em diversas partes do mundo: combates na Colômbia entre tropas do governo e guerrilheiros ou narcotraficantes; ocupações de fazendas pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST), no interior do Brasil, às vezes seguidas (ou precedidas) de assassinatos de líderes sindicais a mando de grandes fazendeiros (leia o texto “A luta pela terra no Brasil“); motins e fugas de menores da antiga Fundação Estadual do Bem Estar do Menor (Febem), atual Fundação CASA/SP, em São Paulo, conflitos entre israelenses e palestinos no Oriente Médio.

O conflito social é um processo social, pois provoca mudanças na sociedade. Tomemos o exemplo dos negros norte-americanos. Depois de violentos choques com a política durante os anos 1960, eles conseguiram ver reconhecidos seus direitos civis. Passados mais de trinta anos, embora certas formas de racismo e discriminação ainda persistam nos Estados Unidos, o negro integrou-se, pelo menos em parte, à sociedade norte-americana.

Assim, diversos negros ocupam hoje posição de destaque até mesmo no governo dos Estados Unidos, o que antes era impensável. É o caso, por exemplo, de Colin Powell, que foi secretário de Estado no governo George W. Bush, além do caso mais recente e que quebrou diversos paradigmas, com a eleição de Barack Obama, o primeiro presidente negro da história dos Estados Unidos.

Já no Brasil, o preconceito racial nunca foi tão ostensivo quanto nos Estados Unidos. Além disso, sempre foram comuns aqui as uniões inter-raciais, e a miscigenação da população é um fato que não se pode negar (ao contrário do que ocorre nos Estados Unidos). Por essa razão, há quem afirme que no Brasil temos uma “democracia racial”.

No texto, “Onde estão os negros?“, você verá que não é bem assim. Apesar de a legislação brasileira proibir quaisquer manifestações de preconceito e discriminação racial, as desigualdades sociais entre brancos e negros ainda estão longe de terem sido superadas. Elas indicam também alguma forma de racismo.

Competição e conflito

Comparando a competição e o conflito, podemos destacar as seguintes características:

  • a competição pode tomar a forma de luta pela existência, como a que se estabelece entre indivíduos para obtenção de alimento ou emprego, por exemplo;
  • o conflito pode tomar a forma de rivalidade, disputa, revolta, revolução, litígio e guerra. O conflito é bem evidente na luta entre seitas religiosas intolerantes, ou entre patrões e empregados em determinadas situações (greves, por exemplo), nas disputas pela posse da terra, ou ainda na guerra entre nações;
  • a competição pode se transformar em conflito. Vejamos um exemplo. Quando numa escola os alunos lutam para passar de ano, eles não consideram seus companheiros de classe como adversários, pois sua atenção está dirigida para a obtenção de boas notas. Alguns estudantes, porém, podem passar a encarar seus colegas como rivais, quando não desejam apenas passar de ano, mas superá-los. Um estudante que pretende passar em primeiro lugar pode entrar em conflito com colegas que tenham a mesma pretensão.
  • a competição pode ser consciente ou inconsciente; o conflito é sempre consciente, ou seja, os adversários sabem que estão em conflito;
  • o conflito pode implicar violência ou ameaça de violência; já a competição não envolve violência;
  • enquanto a competição é contínua, o conflito não pode durar permanentemente com o mesmo nível de tensão;
  • no conflito, o primeiro impulso dos oponentes é tentar agredir e destruir o adversário. Pessoas ou grupos em conflitos podem canalizar sua tensão tanto para a guerra como para a criminalidade, ou ainda reduzi-la a um processo de acomodação.

Leia o texto “Conflito e criminalidade“, que trata da relação entre conflito e criminalidade.

Terrorismo

O conflito pode levar ainda a outra forma extrema de violência: o terrorismo, resultado na maioria das vezes do extremismo político ou religioso (neste caso, chamado de fundamentalismo). Enquanto todas as formas de conflito, inclusive as guerras, levam a uma solução, seja pelos processos de acomodação, seja pela assimilação, o mesmo não ocorre com o terrorismo. Incapaz de impor-se pela ação política ou pela força das ideias, ele procura destruir o adversário sem medir as consequências.

Durante certo tempo, cientistas sociais consideraram o terrorismo uma característica de sociedades retrógradas. Alguns chegaram a supor que o processo de modernização das sociedades iria, cedo ou tarde, pôr um fim aos atentados, mesmo que em um ou outro lugar pudessem ocorrer atos isolados.

Os acontecimentos mais recentes, contudo, não comprovam essa teoria O sacrifício de pessoas em nome de uma causa entre, dessa maneira, na era da globalização.

O atentado de 11 de setembro de 2001 – quando foram destruídas as torres gêmeas do World Trade Center de Nova York, nos Estados Unidos – mostra que nenhum país está imune a esse perigo. Ele pode atingir igualmente militares e civis inocentes; pode ocorrer na Nigéria, na Arábia Saudita, na Inglaterra, nos Estados Unidos ou em qualquer outro lugar do mundo.

O terrorismo encontra adeptos entre pessoas e grupos que se sentem excluídos num mundo que está se globalizando rapidamente. Alguns deles temem perder suas culturas e tradições religiosas, como ocorre com os fundamentalistas muçulmanos. Outros se desesperam porque estão impedidos de ter sua própria pátria – ou seja, seus Estados nacionais e soberanos. Este é o caso dos curdos, na Turquia e no Iraque, e dos palestinos no Oriente Médio. Em sua ação devastadora, provocam uma reação igualmente perversa: o terrorismo de Estado.

Acomodação

Nem todo conflito termina com a extinção do oponente derrotado. Em alguns casos, este pode aceitar as condições impostas pelo vencedor para fugir à ameaça de destruição. Ocorre, assim, um processo de acomodação, pois o vencido aceita as condições do vencedor e adota uma posição de subordinação.

A escravização dos povos vencidos, comum na Antiguidade, é um caso típico de acomodação. Quando alguém cumpre uma lei ou segue um costume com os quais não concorda, só para evitar sanções ou divergências, também se enquadra num processo associativo de acomodação. Da mesma forma, um estrangeiro pode não apreciar o modo de vida do país que reside, mas acaba por aceitá-lo para evitar constrangimentos.

Normalmente, muitos imigrantes entram num processo de acomodação quando chegam a outro país: deixam de lado sua língua e seus costumes, adaptam-se à nova vida, procurando se prevenir contra possíveis conflitos.

Desse modo, a acomodação é o processo social pelo qual o indivíduo ou o grupo se ajusta a um situação de conflito, sem que ocorram transformações internas. Trata-se, portanto, de uma solução superficial de conflito, pois este continua latente, isto é, pode voltar a se manifestar. Isso ocorre porque nos processos acomodação continuam prevalecendo os mesmos sentimentos, valores e atitudes internas que separam os grupos. As mudanças são apenas exteriores e manifestam-se somente enquanto comportamento social.

Os escravos, por exemplo, nunca aceitaram a situação de servidão que lhes era imposta. Apenas se acomodavam à dominação, mas sempre que podiam se revelavam. Revoltas de escravos aconteceram em diversas épocas da História. A mais famosa delas ocorreu na península Itálica entre 73 e 71 a.C., quando cerca de 120 mil escravos se reuniram sob a liderança de Espártaco e formaram um exército que chegou a ameaçar o poderio de Roma.

A acomodação é, assim, o ajustamento de indivíduos ou grupos apenas nos aspectos externos de seu comportamento. Ela atenua o conflito. Mas este só desaparece com a assimilação.

Assimilação

A assimilação é a solução definitiva e mais ou menos pacífica do conflito social. Trata-se de um processo de ajustamento pelo qual os indivíduos ou grupos antagônicos tornam-se semelhantes. Difere da acomodação porque implica transformações internas nos indivíduos ou grupos, sendo estas geralmente inconscientes e involuntárias. Tais modificações internas envolvem mudanças na maneira de pensar, de sentir e de agir.

A assimilação se dá por mecanismos de imitação, exigindo um certo tempo para se completar. É um processo longo e complexo.

O exemplo típico de assimilação é o do imigrante. Ele, que a princípio se acomodou no novo país, vai aos poucos, sem perceber, deixando-se envolver pelos costumes, símbolos, tradições e língua da nova pátria.

No Brasil, tivemos vários casos de assimilação, entre os quais o dos alemães em Santa Catarina e o dos italianos em São Paulo. No início, esses imigrantes falavam sua própria língua e conservavam seus valores e costumes. Ao preservar essas características, cada grupo se constituía em uma espécie de corpo estranho na sociedade brasileira.

Apenas quando as características marcantes da cultura de origem se atenuaram ou se desfizeram – sendo substituídas pelos hábitos e costumes locais – os imigrantes puderam ser assimilados pela nossa sociedade. Com o tempo, eles se desfizeram de sua identidade cultural e passaram a observar os sentimentos e valores da nova cultura, tornando-se parte integrante da sociedade adotada.

Concluindo, o aspecto importante da assimilação é que ela implica uma transformação da personalidade. O processo de assimilação atinge áreas profundas e extensas da personalidade, determinando novas formas de pensar, sentir e agir.

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