Um dos grandes problemas da sociedade contemporânea é o desemprego. Ao lado dele, há também o emprego informal (sem carteira profissional assinada e, portanto, sem direitos trabalhistas — como férias, 13º salário, descanso semanal remunerado, aposentadoria etc.). Mesmo o emprego formal (com carteira assinada) tornou-se hoje mais precário do que nos anos posteriores à Segunda Guerra Mundial (1939-1945), o chamado pós-guerra, quando surgiu o Estado de bem-estar, com sua rede de proteção social para os trabalhadores. Tudo isso é discutido no texto de Gilberto Dupas que você vai ler agora.

As sociedades deste início de século já escolheram seu inimigo: o medo da exclusão social. Ela atinge todos os níveis. Os incluídos — que sentem as vantagens da tecnologia e da liberdade de mercado, acumulam riquezas, informações e circulam pela “aldeia global”— têm medo da violência dos excluídos, além de um razoável sentimento de culpa, dependendo do seu grau de solidariedade social. Eles se sentem assustados com a diminuição dos empregos formais e a redução do Estado protetor. Temem também escorregar para a exclusão.

Finalmente, aqueles que são ou se sentem excluídos têm razão de sobra para ter medo. Afinal, não está provado que o modelo globalizado da economia mundial que privilegia a economia de mercado e a concentração industrial leva ao inevitável acúmulo da exclusão?

O primeiro passo para tentar resolver o problema é definir o que se entende por exclusão social. Ela tem a ver com a renda mínima, com a cesta básica, com o acesso ao trabalho, com o acesso à cultura ou com o medo do futuro? Radicalizando o conceito, até que ponto quem não tem acesso à Internet deveria ser considerado excluído? Será que o inconformismo social aumentou e a sociedade tende a denunciar mais a pobreza? Ou ainda, que a percepção da desigualdade, por conta da terrível distribuição de renda, é tão forte que até pequenos avanços são considerados insucessos? Além desses, há fatores culturais que reforçam a sensação de aumento da exclusão.

Uma importante mudança no padrão de emprego está em curso em toda a economia mundial. A informalização do emprego formal é mundial. Ela deve-se à radical automação na indústria e nos serviços, que gerou amplos mercados de reserva de mão- de-obra em todo o mundo. Essa possibilidade de haver mão-de-obra abundante e disponível está transformando o trabalho (assim como sua proteção e direitos).

Até meados do século XX, os cidadãos identificavam no trabalho seu grau de inserção na sociedade. Quanto mais protegido e estável o emprego, melhor. Não é à toa que as mães de filhas casadouras de nossa geração cobiçavam os gerentes do Banco do Brasil.

Em questão de décadas, essa realidade mudou radicalmente: cerca de 50% do trabalho gerado hoje no Brasil (exceto no serviço público) não inclui carteira assinada. São os trabalhadores informais e autônomos.

Submetidos a um novo desafio, eles dependem quase exclusivamente de si mesmos para gerar renda em trabalhos mais precários, sem as habituais proteções que o emprego formal garantia. Quando podem, pagam seus serviços de aposentadoria e saúde e olham para o Estado em busca de uma proteção que não mais existe. Alimentam-se por sua própria conta e trabalham muitas vezes nas próprias casas.

Os fins de semana e as férias, para eles, têm um sabor amargo, já que seus antigos direitos transformaram-se em perda de renda. Mesmo que muitas vezes o ganho obtido com o trabalho informal seja maior, ainda assim há uma sensação de precariedade. Várias décadas se passarão até que as pessoas se acostumem com mudanças tão radicais em relação às novas formas de trabalho.

Outra questão que agrava a sensação de exclusão é a deterioração do Estado no seu tradicional papel de prestador dos serviços essenciais (saúde e educação, por exemplo). O colapso da saúde pública, a derrocada do sistema previdenciário, a segurança precária, a escola pública deficiente e o anúncio frequente e mal compreendido de que o Estado precisa diminuir de tamanho (quando seu objetivo deveria ser tornar-se mais eficiente nas áreas sociais) aumentam a sensação de desamparo. É como se o trabalhador que passou à informalidade ou estivesse desempregado dissesse ao Estado: “Agora preciso de você”. E ouvisse como resposta: “Não venha com esperanças vãs. Não, não posso ajudar. Você sabe que estou cortando custos”.

Finalmente, outro fator que a sensação de desconforto social provoca é a face metropolitana da exclusão. Os pobres e desamparados não se escondem mais no interior, no campo. Mostram-se no centro das metrópoles, onde circulam as pessoas que têm recursos. Interditam estradas, ocupam fazendas agrícolas avisando a tempo todos os meios de comunicação. E a mídia, maniqueísta por natureza, cumpre o que acha ser seu papel.

A conclusão é que a exclusão é a grande ameaça neste início de século. Mas é preciso tomar cuidado. Afinal, a verdade social é composta de uma série de expectativas e realidades. Embora os dados ainda não sejam suficientemente sólidos, é muito provável que as novas formas da economia seja uma das grandes vilãs dessa história. Mas não hã dúvida de que, além dos fatores econômicos, há fortes razões de natureza subjetiva que amplificam o problema. A sociedade está começando a acreditar que a globalização traz exclusão. E os governos não podem ficar indiferentes a essa percepção. Não é fácil, mas é preciso agir.

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