Em outubro de 2003, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) publicou um alentado estudo denominado Estatísticas do século XX. O documento retrata em números o desenvolvimento da sociedade brasileira, levantando e comparando dados socioeconômicos de 1901 a 2000. O texto a seguir discute alguns aspectos desse estudo.

Uma era de extrema desigualdade. Assim pode ser definido o século XX para o Brasil, como mostra a compilação de cem anos de estatísticas lançada na semana passada pelo IBGE. O que os números não respondem é: por quê?Não há respostas simples nem fáceis. Em busca delas estiveram formadores do pensamento nacional como Caio Prado Jr., Celso Furtado, Gilberto Freyre e Sergio Buarque de Holanda, para citar os mais conhecidos.

“As razões históricas são clássicas: quatro séculos de escravidão, uma estrutura agrária oligopolizada (ou seja, muita terra nas mãos de poucos proprietários); uma economia voltada para o mercado externo. Mas a escravidão, por exemplo, já se foi há mais de cem anos e a desigualdade não mudou. Então, entram também as razões de ordem política e social”, sintetiza p historiador José Murilo de Carvalho.

Segundo o pensador Roberto Mangabeira Unger, “a classe endinheirada nunca teve por que mudar isso. A classe pobre nunca teve como mudar isso. E a classe média – que em tese teve por que e teve como – raramente teve estômago”, analisa. 

Na visão do sociólogo Nelson do Valle Silva, integrante do Núcleo Interdisciplinar de Estudos sobre Desigualdade da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), além do “pecado original da escravatura”, a moderna desigualdade no Brasil tem três fontes principais: a concentração fundiária, base da modernização conservadora no campo; o baixo nível geral e a desigualdade na educação do trabalhador; as vantagens usufruídas pela posições de privilégio (…).

No índice de Gini (parâmetro usado para medir a concentração de renda, que varia de zero a um, sendo quanto mais perto de zero melhor a distribuição de renda), o país iniciou a década de 1960 com taxa de 0,50 e começou os anos 1990 com 0,63. Houve uma pequena melhora nessa última década, com o índice recuando para 0,59 em 1999.

Esse último indicador é aparentemente uma boa notícia, mas pode esconder mais uma perversidade, na análise do cientista político Fábio Wanderley Reis. Provavelmente, diz ele, expressa antes a redução das oportunidades de ganho da elite, com o limitado dinamismo da economia no período recente, do que melhorias de renda dos mais pobres. (…)

José Murilo de Carvalho afirma que a melhora da educação é um “fator extraordinário” de redução da desigualdade, porque permite um emprego melhor e por seus efeitos políticos também. ”Um ponto crucial da desigualdade é o grau baixíssimo de educação mantido até o final do século passado, com uma grande taxa de analfabetismo. Isso forma um cidadão pouco reivindicativo. (…) As mudanças não ocorrem sem que sejam feitas pressões contra os grupos encastelados no poder. Não falo só das elites, mas dos setores organizadores (trabalhadores sindicalizados, por exemplo).”