Quando os portugueses chegaram ao território que depois seria chamado de Brasil, encontraram diversos povos vivendo em harmonia com a natureza, da qual retiravam tudo que necessitavam. Entre eles não havia propriedade privada nem Estado e o produto de seu trabalho pertencia a todos os membros da sociedade.

Cinco séculos depois desse acontecimento, as sociedades indígenas praticamente desapareceram. Algumas delas, porém, procuram ainda preservar traços de sua cultura original. O texto a seguir fala de uma delas: a nação Yanomami.

Os Yanomami são a tribo mais numerosa e de cultura melhor preservada entre os indígenas brasileiros. De acordo com a Funai (Fundação Nacional do Índio, órgão do governo que trata das questões indígenas), há cerca de 9 mil Yanomami no Brasil e outro tanto na Venezuela, já que eles vivem nas terras que fazem fronteira entre os dois países.

A língua Yanomami comporta alguns subgrupos, que definem as diferentes áreas de seu território. As variações linguísticas e as diferenças de dialeto autorizam os antropólogos a supor que os Yanomami ocuparam a mesma área por cerca de 3 mil anos.

Nosso contato com os índios aconteceu num momento especial: estava havendo o maior congresso de tuxauas (caciques) de toda a história do povo Yanomami. Dois tuxauas Macuxi também estavam presentes como observadores, para descrever a longa experiência do seu doloroso contato com a civilização.

De acordo com os Macuxi, no começo os brancos chegavam com pequenos presentes e amabilidades. Em seguida havia a contaminação de doenças – benignas entre os brancos, mortais para os índios. No final, havia a expulsão generalizada dos índios de suas terras.

No Conselho dos tuxauas todos discursaram longamente. Falaram de sua desafortunada convivência com o branco e da necessidade de se eliminar as querelas internas entre os índios, para se defenderem de invasões.

Todos os discursos eram semelhantes: “Comem nossa queixada (porco do mato), nosso mutum, nosso sapo e nossa cobra, envenenam as águas, derrubam a mata e deixam o sarampo, a catapora e a coqueluche, que dizimam adultos e crianças”.

Na manhã seguinte, saíram alguns caçadores e voltaram umas três horas depois com quinze queixadas, quase todos mortos com uma única, certeira e mortal flechada. Hábeis açougueiros, em pouco tempo limparam e esquartejaram os animais. Uma parte começou a ser assada, e o restante moqueado para ser comido no curso da semana. Carbonizada na superfície, a carne conserva-se por mais dez dias.

À tarde, seguimos a pé para a aldeia Watoriktheri, que quer dizer Serra dos Ventos. Foram oito quilômetros de caminhada, difícil para nós e facílimo para toda a tribo, e as mulheres andavam alegres, carregando pesada carga de porco moqueada e bananas, além das crianças.

Chegamos à aldeia ao anoitecer. Foi grande o nosso espanto ao depararmos com a comovente beleza da maloca (habitação coletiva dos índios). Uma enorme construção de madeira, bambu e palha. Redonda como uma bacia emborcada e sem fundo. Mais de 50 metros de diâmetro. Havia uma enorme cobertura em torno de um círculo central (com 25 metros de diâmetro), em cuja borda o telhado chegava a alcançar 10 metros de altura, com as águas da chuva vertendo para o limite redondo da maloca.

As famílias distribuíram-se em círculos junto às paredes de palha. Armaram redes rústicas e acenderam pequenas fogueiras, que foram realimentadas a noite inteira. Seguiram-se cantos e danças, que saudaram hospitaleiramente os visitantes. 

Os Yanomami vivem da caça, da pesca, de frutas silvestres e de uma agricultura rudimentar. Cultivam mandioca, banana, tabaco. Não fumam: enrolam as folhas na forma de uma cilindro de 5 centímetros de comprimento e 1 de diâmetro, e o encaixam entre o lábio e os dentes do maxilar inferior.

Na malocas há sempre um grande e pesado tronco, escavado na forma de uma canoa, onde, em ocasiões festivas, são esmagados na água centenas de cachos de banana. A beberagem é ingerida em cuias, num processo compulsivo. Chegam ao vômito e voltam a comer o mingau amarelo.

Para nós, que vivemos no mundo marcado pelos antagonismos, pela degradação da natureza e pela violência dos conflitos sociais, é estimulante refletir sobre uma sociedade sem classes e que vive em harmonia com a natureza. No posto Demini e na aldeia Watoriktheri, observamos o comportamento de cerca de trinta crianças com menos de 6 anos. Não foi possível assistir a uma única briga, ou a um singular choro infantil. São brincalhões e alegres. O folguedo preferido é o de atirar pedras com certeira pontaria.

A agricultura, a cerâmica, os cestos de palha e os diferentes utensílios são tão primitivos que mostram os Yanomami num tempo ainda muito distante daquele que os historiadores chamam de “revolução agrícola do Neolítico Superior”. Esta foi a grande inflexão da História, o abalo sísmico que mudou o destino da especie humana, quando o homem começou a produzir mais do que precisava consumir. Aí surgiram as questões relativas à divisão do trabalho e de quem deveria se apropriar do excedente.

Antes, a comida excedente sempre era proporcional aos períodos de fome. Mas o critério de referência para a formação do excedente passou a ser o seu próprio crescimento. Este foi o marco inicial daquilo que chamamos de “civilização”, ou melhor, da história da servidão humana.