Desde tempos remotos, os grupos humanos tendem a seguir a condução de um líder. No início, a relação entre líder e seus liderados era autoritária (caso dos chefes militares e dos reis, por exemplo) ou paternalista (caso dos chefes dos grupos de parentesco denominados clãs). Havia também o líder religioso, cuja autoridade se apoiava em seu papel de mediador entre Deus e os seres humanos.

Com o advento de democracia, essa relação passou a se basear no direito de escolha do líder por meio do voto e na liberdade que têm os liderados de criticá-lo e mantê-lo sob vigilância.

No texto que você vai ler agora, o pensador norte-americano Arthur M. Schlesinger Jr. discute as principais características do líder moderno.

Costuma-se dizer que a liderança faz o mundo andar. O amor, sem dúvida, facilita o caminho. Mas o amor é um compromisso privado entre duas pessoas conscientes, enquanto a liderança é um compromisso público com a História.

O conceito de liderança ressalta a capacidade de alguns indivíduos comoverem, inspirarem e mobilizarem as populações de seus países, de forma a caminharem juntos na busca do mesmo objetivo. Algumas vezes, a liderança está a serviço de fins dignos; outras não. Entretanto, independentemente de seus objetivos, os grandes líderes deixam sua marca pessoal nos anais da História.

Mas a liderança pode melhorar ou piorar a condição de seus povos. Alguns líderes têm sido responsáveis pelas loucuras mais extravagantes e pelos crimes mais monstruosos. Em contrapartida, outros têm sido vitais para a conquista de alguns dos avanços da humanidade, como a liberdade individual, a tolerância racial e religiosa, a justiça social e o respeito pelos direitos humanos.

Não há um modo seguro de reconhecer antecipadamente se um líder trará ou não benefícios para seu povo. Um dos critérios de avaliação pode ser este: os líderes comandam pela força ou pela persuasão? Pela dominação ou pelo consentimento?

No curso da História, durante séculos, a liderança foi exercida pela legitimação do direito divino. O dever dos seguidores era submeter-se e obedecer. “Não perguntar por que, apenas fazer e morrer.”

A grande revolução dos tempos modernos foi a introdução do direito da igualdade. A ideia de que todos os indivíduos podem ser iguais perante a lei derrubou as velhas estruturas baseadas na hierarquia, ordem, autoridade e submissão.

Um governo fundamentado na reflexão e na escolha passou a exigir um novo estilo de liderança e uma nova qualidade de seguidores. Tornou necessária a formação de líderes que respondessem aos anseios populares e, como seguidores ativos desses desejos, suficientemente preparados para participar desse processo.

Um segundo critério para avaliar a liderança pode ser o objetivo do líder ao procurar alcançar o poder. Quando alguns líderes pretendem impor a supremacia de uma raça (como aconteceu entre 1933 e 1945 na Alemanha nazista, sob a liderança de Adolf Hitler), a promoção de uma revolução totalitária, a aquisição e exploração de colônias, a manutenção de privilégios, ou a preservação do poder pessoal, é muito provável que suas lideranças resultem em retrocesso para a humanidade.

Quando o objetivo do líder é a abolição da escravatura, a libertação da mulher, a justiça social, a proteção dos direitos das minorias, a defesa da liberdade de expressão e de oposição, é provável que sua liderança dê uma importante contribuição para o aumento da liberdade e do bem estar humanos.

Entretanto, mesmo os líderes mais respeitados devem ser vistos com certa cautela. Líderes não são semideuses: eles comem e se vestem como qualquer outro ser humano. Nenhum líder é infalível, e cada líder deve ser lembrado disso o tempo todo. A crítica irreverente irrita os líderes, mas é o que os salva. A submissão total corrompe o líder e degrada seus seguidores. O culto a um líder é sempre um grave equívoco.

Faça seu comentário