Com o avanço da globalização, alguns estudiosos chegaram a pensar que as diferenças regionais tenderiam a desaparecer e, com elas, o sentimento de identidade nacional ou étnica. Não é isso, entretanto, o que vem ocorrendo. O texto a seguir analisa justamente a persistência e até a exacerbação do sentimento de identidade cultural (chamado de tribalismo pelo autor) diante do processo de globalização.

O internacionalismo e o regionalismo desafiam a nação-Estado soberana pelo lado de fora. O tribalismo a enfraquece por dentro. Ele corrói o poder de integração da nação-Estado.

Nos Estados Unidos, o tribalismo se manifesta na crescente ênfase da diversidade, ao invés da unidade. Os Estados Unidos sempre foram um país de imigrantes. Ali, o imigrante e seus descendentes eram inicialmente considerados “estrangeiros” e discriminados por duas gerações, antes de se transformarem em cidadãos americano.

Isso teve início com os irlandeses, nas décadas de 1830 e 1840. Nos últimos trinta anos, isso saiu de moda. Hoje em dia, a mensagem apregoada e praticada é a da “diversidade”. Qualquer tentativa de se transformar novos grupos em “americanos” é considerada discriminação; entretanto, há apenas sessenta anos a tentativa de impedir que esses grupos se tornassem “americanos” seria vista como uma discriminação, um preconceito.

Atualmente, quer esses grupos sejam europeus ou asiáticos, quer sejam negros, marrons ou brancos, quer sejam católicos ou budistas, a ênfase está em manter sua identidade e em impedir que eles sejam encorajados ou, pior ainda, forçados a se tornar “americanos”. 

Esse não é, de maneira alguma, um fenômeno americano, nem pode ser explicado em termos puramente americanos. O tribalismo é ainda mais violento na Europa. Ele dilacerou a Iugoslávia com uma sangrenta guerra civil. Ameaça provocar guerras civis por todo o antigo império soviético.

Os escoceses querem se separar do Reino Unido, os eslovacos exigiram autonomia e separação dos tchecos e formaram seu próprio país; a Bélgica é abalada por disputas entre flamengos e valões, embora nunca tenham sofrido discriminação, exigem “autonomia cultural”, como é o caso dos 150 mil surbs que vivem nas florestas ao sul de Berlim e que são os últimos sobreviventes de tribos eslavas que habitaram o norte da Alemanha há mais de mil anos.

O tribalismo torna-se um fenômeno mundial. O Canadá sobreviverá ou será separado em duas partes, uma de fala inglesa e outra de fala francesa? Será que a Índia permanecerá politicamente unida? A Córsega e a Bretanha permanecerão francesas? Os lapões do norte da Finlândia e da Suécia irão ganhar sua autonomia? O México ficará unido, ou os índios do sul irão se separar do norte hispânico? A lista é imensa.

Uma razão para a tendência ao tribalismo é que o tamanho territorial já não constitui muita vantagem. Na era nuclear, nem mesmo o maior dos países pode defender seus cidadãos. Uma pequena nação – Israel, por exemplo – pode também construir armas atômicas.

A razão principal do tribalismo não é política, nem econômica. Ela é existencial. As pessoas precisam de raízes em um mundo transnacional; elas precisam de uma comunidade.

Todas as pessoas educadas na Espanha sabem castelhano (que o mundo exterior chama de espanhol). Mas o idioma que muitos espanhóis falam na escola, em casa e mesmo no trabalho é o catalão, o basco, o galego ou o andaluz (dialetos regionais).

Essa passagem de uma língua para outra representa uma mudança fundamental de identidade. Catalães, bascos, galegos e andaluzes assistem às mesmas novelas em seus televisores. Os produtos que compram podem ter sido feitos tanto no Japão ou nos Estado Unidos quanto na Espanha. Em número cada vez maior, eles trabalham para um empregador cuja sede está em Tóquio, em Seul, em Nova York ou em Dusseldorf. Eles vivem cada vez mais em um mundo transnacional, mas sentem a necessidade de manter as raízes locais, a necessidade de pertencer a uma comunidade.