O texto “O capitalismo e a revolução tecnológica“, examina um dos problemas mais sérios da globalização: o desemprego. Em certos países europeus, o desemprego tem contribuído para exacerbar a xenofobia (ódio aos estrangeiros) e o racismo. Isso porque muitas pessoas acusam os imigrantes de tirar empregos dos trabalhadores nativos.

O texto a seguir, entretanto, trata a questão dos imigrantes de uma perspectiva bem mais democrática e tolerante. Segundo o autor, a imigração e a heterogeneidade étnica e cultural são fatores de enriquecimento da vida de um país, contribuindo para o aumento da criatividade nacional. Leia o texto e reflita sobre ele.

A capacidade de adaptar-se a culturas diferentes tornou-se uma vantagem decisiva no atual mundo de competição. Na economia globalizada se torna cada vez mais necessário desenvolver a criatividade e introduzir inovações por meio da participação de uma multiplicidade de culturas e povos.

Antes da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), o crítico social Randolph Bourne já havia se pronunciado sobre a situação dos imigrantes nos Estados Unidos, defendendo sua integração: “Para não cair na estagnação, precisamos de novos povos”.

Os Estados nacionais orgulharam-se por muito tempo da sua autonomia: eles se desenvolviam com suas próprias forças, fundando suas indústrias, conseguindo de seu próprio povo a mão-de-obra especializada e necessária para seu crescimento. Não era uma mera questão de orgulho nacional, mas também as realidades políticas e sociais da época levaram tanto os detentores do poder como seus povos a negar a ideia de que visitantes estrangeiros, imigrantes, pudessem ter importância vital para o progresso de seu Estado.

Entretanto, Bourne comprovou, na prática, que tinha uma visão mais ampla sobre a questão. Na Nova Economia atual, com as novas tecnologias, os países que somente confiarem em seus próprios talentos — e não aceitarem trabalhadores estrangeiros como um enriquecimento importante para seu desenvolvimento — ficarão social e economicamente atrás de outras nações.

Com o envelhecimento de suas populações, devido em parte aos baixos índices de natalidade, os países ricos não podem esperar uma melhora de seu padrão de vida sem a ajuda dos imigrantes talentosos e inteligentes provenientes de outros países. De quantas pessoas eles necessitam, quantos imigrantes eles devem acolher; depende da situação e da posição de cada Estado.

Mas todo país rico, para se desenvolver deforma harmoniosa, necessita de talentos e energias de trabalhadores estrangeiros. E, inevitavelmente, uma grande parte dessa mão-de-obra especializada terá de vir dos países pobres do Terceiro Mundo.

Na Sociedade do Conhecimento, as ideias são realmente as fontes de criação de novos valores e de novos produtos, e elas vêm frequentemente de uma direção inesperada — e se dão através do encontro de pontos de vista diferentes. Isso só acontece quando se vive em uma sociedade heterogênea.

Também é correto afirmar que a mistura de pessoas diferentes, vindas dos mais diversos países, tem de ser submetida a um certo controle; caso contrário, ela levará a inquietações sociais. Mas, aplicando-se as regulamentações necessárias, a mistura de grupos étnicos e nacionais abre caminho para inovações. (…)

Etnicamente, a Islândia é o mais “puro” dos países europeus. Além disso, ela tem o menor índice de desemprego da Europa, mas importa imigrantes, batendo recordes no recrutamento de estrangeiros, para assegurar seu desenvolvimento.

A Irlanda, país que tem atualmente a maior taxa de crescimento econômico da Europa — e de onde, por quase dois séculos, muitos habitantes tiveram que emigrar para sobreviver —, tem recebido nos últimos três anos uma influência crescente de imigrantes que foram trabalhar e morar no país.

Cingapura, um dos “tigres asiáticos”, também está se transformando numa sociedade de multiplicidade étnica. Apesar disso, ela tem procurado atrair cada vez mais a mão-de-obra especializada vinda do estrangeiro. “Se não ganharmos este jogo, vamos perder em todos os outros jogos”, disse-me recentemente George Yeo, ministro do Comércio e da Indústria de Cingapura.

É claro que os países podem fechar as suas portas aos imigrantes, não deixando entrar especialistas estrangeiros, mas eles têm de estar conscientes de que estão colocando em risco seu bem-estar. Eles necessitarão de uma multiplicidade étnica crescente, se não quiserem estagnar econômica, demográfica e socialmente.