Antes de se consolidar como sistema econômico e social dominante, o modo de produção capitalista poem por um longo processo de formação que começou no século XVI. Esse processo culminou com a Primeira Revolução Industrial, iniciada na Inglaterra na segunda metade do século XVIII e caracterizada pelo surgimento da fábrica e da máquina a vapor. Cem anos depois, por volta de 1870, teve início uma Segunda Revolução Industrial, marcada pela ferrovia, pela eletricidade, pelo motor a explosão (automóvel) e pelo uso do petróleo como combustível.

Atualmente, o mundo passa por uma Terceira Revolução Industrial, cujas principais características são a eletrônica, a informática e a automação. Entretanto, enquanto as duas primeiras criaram empregos, a nova revolução industrial tem provocado desemprego crescente em quase todos os setores da economia. Esse fenômeno contraditório e angustiante é analisado aqui pelo pensador norte-americano Jeremy Rifkin.

A terceira fase da Revolução Industrial, iniciada com o casamento bem-sucedido da eletrônica com a informática, no final da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), começa a provocar sobressaltos, pesadelos e desespero em dirigentes políticos e trabalhadores. Desencadeada nos Estados Unidos — e encarada a principio como o advento da tão desejada era em que máquinas assumiriam as funções do ser humano e lhe dariam prosperidade e mais tempo para o lazer — a revolução high tech criou um novo monstro: o desemprego institucional. Um verdadeiro fantasma que, aonde chega e por onde passa, interrompe carreiras, destrói sonhos, envenena mentes e consome vidas.

No Primeiro Mundo (denominação que abarca os países desenvolvidos), foi a sociedade européia a primeira a sentir o impacto e os efeitos devastadores da transformação que as “máquinas inteligentes” começaram a produzir nos mercados de trabalho. Os britânicos denunciaram o fenômeno quando perceberam, sob o governo de Margaret Thatcher (1979-1990), que o país recuperava seu vigor econômico mas as filas de desocupados nos guichês de auxílio-desemprego não paravam de crescer.

Agora, cada vez mais controlada pelo mercado (aqueles frios e racionais administradores que conduzem as instituições financeiras e as bolsas de valores), a economia moderna atormenta e tira o sono dos profissionais que fizeram e fazem a América. Do operário de macacão e marmita ao executivo de gravata e casa de praia, ninguém nos Estados Unidos está seguro no seu emprego. O medo do desemprego se espalha, à medida que o avanço tecnológico acelerado não cessa de transferir para as máquinas as funções do ser humano.

Há uma concepção sensata, porém ingênua, sobre os benefícios da produtividade: quanto mais ela cresce, supõem racionalmente algumas pessoas, maior proveito traz a nossa vida. Em nossa época, no entanto, o aumento da produtividade, além de criar uma quantidade exagerada de bens (muitos sem a menor utilidade), resultou numa avalanche de desemprego e miséria.

Parece o fim do próprio capitalismo. Depois do fim do comunismo, da União Soviética (1991), do Muro de Berlim (1989), do apartheid na África do Sul (1992) e da Guerra Fria (1991), o mundo está agora diante de uma nova ameaça: a extinção da quase totalidade dos empregos. “A massa dos trabalhadores não vai sobreviver à era da informação”, proclama em seu livro, Fim dos empregos, o norte-americano Jeremy Rifkin. (…)

Outros autores pensam como Rifkin. Para William Bridger, por exemplo, o trabalho está se tornando cada vez mais provisório e escasso com a revolução provocada pela automação, pela telecomputação e pela globalização de mercados. Empresas ficam mais eficientes quando encolhem e terceirizam.

“Pelo ano 2020 — afirma Bridges — veremos a eliminação virtual do trabalhador de fábrica. Ele será lembrado como uma página da História”. Empregos, como ainda existem hoje, deixarão de existir e nunca mais voltarão. E o que distingue a era atual da informação. A era industrial baseou-se no trabalho em massa para a produção de bens e serviços. A era da informação baseia-se no uso de uma pequena elite da força de trabalho, altamente qualificada e equipada com sofisticadíssimos computadores e outras tecnologias, formando o que se pode chamar de setor do conhecimento. A massa de trabalhadores não terá como sobreviver à era da informação.

O que farão os sem-trabalho, a maioria sem trabalho? Existem duas opções segundo Rifkin, e elas dependem da resposta a duas questões. Uma delas: o que fazer com milhões de pessoas que decaem de seu nível econômico até um patamar abaixo do limite mínimo da pobreza, num mundo crescentemente globalizado? A segunda questão: como começamos a tratar disso?

A melhor maneira de compartilhar os vastos ganhos de produtividade dessa nova revolução tecnológica seria a participação de todos nesses benefícios, e não apenas de uma pequena elite.

Na era industrial, quando novas tecnologias que poupavam o trabalho aumentaram a produtividade, milhões de pessoas se organizaram e exigiram semana de trabalho mais curta, melhores pagamentos e benefícios e mais lazer. O sucesso provocado pelas mudanças tecnológicas na era industrial representou menos horas de trabalho, melhores salários e mais benefícios.

Por que esperar qualquer coisa diferente na era da informação? “Acho que precisamos de uma semana de trabalho de trinta horas para o ano 2005 e talvez devamos baixá-la ainda para 25 ou vinte horas por semana nos vinte anos seguintes. Se dispomos de tecnologia que poupa trabalho humano, a opção é encurtar as horas de trabalho. Desemprego ou lazer, eis as opções. Se não compartilharmos os ganhos da produtividade, haverá desemprego. Se os compartilharmos, poderemos ter menos trabalho bem pago.”

Contam-se atualmente em todo o mundo cerca de 120 milhões de desempregados e outros 700 milhões afetados pelo desemprego disfarçado ou pelo subemprego crônico — eles já representam 30% de toda a força de trabalho.

A diminuição do número de empregos não pode ser atribuída a ausência de crescimento econômico ou a crises financeiras. O desemprego e o subemprego crônico coexistem com taxas de crescimento respeitáveis da economia mundial e com uma prosperidade sem precedentes dos mercados financeiros.

O crescimento econômico sem emprego se torna uma realidade da qual não se pode esquivar. Na opinião de Marx, “o maquinário, dotado do maravilhoso poder de amenizar e aperfeiçoar o trabalho humano, só faz, como se observa, sacrificá-lo e sobrecarregá-lo”. A História tem demonstrado que “a burguesia não pode sobreviver sem revolucionar constantemente os instrumentos de produção, e com eles as relações de produção e as relações sociais”.