O texto a seguir aborda um conceito relativamente novo, surgido na Europa e nos Estados Unidos: multiculturalismo. Em princípio, trata-se de uma noção que alarga o espaço da democracia e instaura a tolerância multirracial onde antes havia intolerância, preconceito e discriminação. A autora do texto, porém, chama a atenção para as contradições inerentes ao conceito, já que o multiculturalismo procura celebrar as diferenças entre as etnias e culturas, mas não faz uma crítica sistemática do racismo, da discriminação e do preconceito que estão entranhados no próprio cerne da cultura dominante.

O multiculturalismo está na ordem do dia. Talvez seja uma alternativa para a famigerada “crise de paradigmas”, uma saída, dita nova, para velhos problemas sem solução.

A multiplicidade de culturas e etnias tem caracterizado as sociedades modernas. Portanto, a ideia de multiculturalismo é uma resultante desses processos civilizatórios marcados pela heterogeneidade. São características do multiculturalismo: o reconhecimento da filiação de cada indivíduo a um grupo cultural; o destaque à herança cultural de cada um desses grupos, para que os demais possam apreciá-la e respeitá-la; a afirmação da equivalência dos vários grupos étnico-culturais de uma dada sociedade; a postulação (por vias legais ou não) do direito dos grupos sociais manterem sua singularidade cultural; o enaltecimento da diversidade como característica positiva das sociedades modernas.

Na sociedade norte-americana, o multiculturalismo tomou vulto nos últimos dez anos, em resposta às atitudes racistas e xenófobas dirigidas contra os imigrantes latinos pela população branca dos Estados Unidos. Esses imigrantes buscam o “paraíso do Tio Sam” como alternativa às péssimas condições econômicas (desemprego, inflação e baixos salários) dos países de origem.

Na Europa, o problema da diversidade étnico-cultural é mais antigo e complexo. As fortes migrações dos países da África e da Ásia ocorridas nas décadas de 1970 e 1980, motivadas por conflitos étnicos, guerras, perseguição política, fenômenos sociais e físicos (fome, seca), criaram a categoria dos “refugiados”.

Pessoas que aportam identidades estranhas aos países nos quais se refugiam, expressam necessidades e exigem direitos das democracias europeias. Mais recentemente, no processo de rearranjo do mundo socialista, emergiram no Leste europeu, exigindo direitos, minorias étnicas, linguísticas e religiosas, até então sufocadas pelas culturas dominantes.

Tomou-se necessário então que a educação formal desse respostas aos problemas gerados pela convivência de culturas diversas no mesmo espaço social. Nesse sentido, foram desenvolvidas várias iniciativas de tolerância cultural e enaltecimento da diversidade. Mas o que significa tolerar alguém, ou tolerar outra cultura?

O verbo tolerar

A educação anti-racista, ideário que se declarou concomitante ao multiculturalismo em escolas europeias, notadamente em Londres, foi a primeira a apontar as contradições do multiculturalismo. Ou seja, a exposição pura e simples da diversidade cultural e a celebração da diferença não problematizam os conflitos e as contradições das relações étnico-raciais assimétricas; não aprofundam a discussão do racismo, do sexismo e da xenofobia.

Consequentemente, não propõem alternativas concretas de superação do preconceito e da discriminação para que as diferenças não sejam transformadas em desigualdades, e, de fato, os diversos grupos étnico-raciais possam respeitar-se mutuamente e conviver em harmonia.

A educação anti-racista, ao contrário do multiculturalismo, compreende o racismo como elemento estrutural das sociedades modernas, como um conjunto de políticas, concepções institucionais e práticas da vida cotidiana que reiteram a primazia de um grupo pretensamente superior sobre outros. O racismo é tratado como uma ideologia que precisa ser explicitada e combatida. Uma ideologia que não pode ser amortecida ou camuflada por falsas crenças de convivência pacífica e harmoniosa. Por trás destas, descortina-se o esconderijo de práticas insidiosas de subordinação, protagonizadas por um grupo racial dominante sobre outro(s).

E quanto à realidade educacional brasileira? O enfrentamento desse problema social tão urgente ou de alguns aspectos dele, como a crescente expulsão de adolescentes e jovens da escola, por exemplo, poderia ser facilitado pela perspectiva multicultural na educação? Pela inclusão de saberes desses grupos, tradicionalmente excluídos dos currículos?

Parece não haver uma resposta pronta. É um debate que está começando. Entretanto, se não houver vontade política de cada educador(a) para desmistificar a decantada democracia racial brasileira, diariamente utilizada para amortecer os conflitos raciais entre os(as) alunos(as) no cotidiano escolar, se não houver coragem e ousadia para assumir o racismo como um componente estrutural da sociedade brasileira, o multiculturalismo será uma panaceia que não resolverá os problemas educacionais do país.

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