Em última análise, o que ocorre no Brasil é uma profunda dicotomia entre a moderna sociedade industrial que veio se formando — gradualmente a partir dos anos 1930 e aceleradamente em anos mais recentes — e as grandes massas de procedência rural. Enquanto a população agrícola vem crescendo a taxas superiores às da média nacional de 2,5%, o crescimento da taxa de emprego rural, nos últimos dez anos, foi igual a zero, o que forçou cerca de 15 milhões de brasileiros a se deslocarem do campo para as cidades, fenômeno conhecido como êxodo rural.

Nossa indústria, entretanto, usando uma tecnologia cada vez mais moderna, não teve capacidade para absorver esse excedente de mão-de-obra. Ao mesmo tempo, as pressões exercidas sobre a lavoura pela dívida externa e pelo programa do álcool transferiram para produtos agrícolas de exportação, ou utilizados como matérias-primas industriais, áreas antes dedicadas à produção de alimentos. Daí a formação, por um lado, de um déficit de emprego que chegou a 25% da mão-de-obra em 1983 e, por outro lado, de um déficit na oferta de alimentos da ordem de 40%.