Esquecida desde que se tornou uma vila no início do século passado, Guaribas, no Piauí, entrou no mapa desde que se tornou vitrine do programa “Fome Zero”, instituído no começo deste ano pelo governo Lula. Tudo cheira a novo por lá: casas em construção, adultos rabiscando letras pela primeira vez, a água posta nas residências (…).

Agora as coisas estão mudando por lá. “Aqui não chegava nenhuma notícia, de tão longe e isolado que era”, diz uma das antigas moradoras. “Meu filho, o Brasil foi descoberto em 1500 e Guaribas só foi achada este ano”, diz Orlando Rocha, 62 anos, que criou dez filhos. “Só passava por aqui quem tivesse se perdido.”

Retratada como o terceiro pior índice do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) entre os 5507 municípios brasileiros. Guaribas foi escolhida como um dos laboratórios do programa “Fome Zero”. Além de beneficiar 500 famílias com R$ 50,00 mensais para comprar comida, o município assiste à chegada de uma série de ações que estão mudando a paisagem do município. “Ninguém na face da Terra tem olhado por nós. A gente vivia jogado como Deus criou batata”, conta Teresa, mulher de Orlando.

As condições econômicas miseráveis e a falta de água tratada fizeram com que a expectativa de vida em Guaribas seja de apenas 56 anos. A mortalidade infantil ainda tem feição africana — 59,9 mortos para cada mil nascidos. A maioria das mães do lugar perdeu filhos por conta da desnutrição. “Toda casa já mandou seus ‘anjinhos’ para a casa do Senhor, não tem jeito”, lamenta o agricultor João Bertoldo, 76 anos, que perdeu 8 de seus 15 filhos.

Guaribas nunca teve hospital ou médico. “De modo geral, um doente era colocado na rede e carregado nessas serranias até chegar a um lugar que tivesse carro que o levasse para uma cidade mais próxima”, recorda Orlando.

Hoje, o município ainda não tem um hospital, mas já conta com a visita de médicos, o que é outra das novidades.

FONTEJornal do Brasil, 19/02/2003
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