O texto a seguir trata de dois temas importantes abordados nos tópicos de “A convivência humana“: conflitos e terror. Seu autor é o teólogo e ex-frade Leonardo Boff, um dos teóricos da Teologia da Libertação, corrente de pensamento que propõe o envolvimento da Igreja católica nas lutas sociais ao lado das classes populares.

Hoje se fala muito em fundamentalismo.

Mas o que é fundamentalismo?

Surgido em meados do século XIX, dentro do protestantismo americano, o fundamentalismo é uma tendência religiosa que toma as palavras da Bíblia ao pé da letra. Para seus seguidores, se Deus permitiu que sua revelação fosse escrita na Bíblia, então tudo, cada palavra e cada sentença, é verdadeiro e imutável.

Assim, qualquer interpretação que outros cristãos façam sobre esses textos, escritos há mais de dois, três mil anos, são uma ofensa a Deus. Os fundamentalistas também são contra toda a ciência, especialmente a biologia, que possa questionar a verdade bíblica. Para eles, o mundo foi criado em sete dias, o cristianismo detém o monopólio da verdade revelada e Jesus é o único caminho para a salvação.

O fundamentalista é intolerante para outras religiões. Na moral, é muito rigoroso, particularmente no que concerne à sexualidade e à família. É contra os homossexuais, o movimento feminista e os movimentos libertários em geral. Na economia é conservador e na política sempre exalta a ordem e a segurança a qualquer custo.

O catolicismo tem também seu tipo de fundamentalismo. Sob o nome de Restauração e Integrismo, ele busca restaurar a antiga ordem, baseada no casamento do Estado com a religião. Pretende integrar todos os elementos da sociedade sob a hegemonia espiritual da Igreja católica. O inimigo a combater é a modernidade, com suas liberdades e seu processo de secularização. (…)

O fundamentalismo não é uma doutrina, e sim uma forma de interpretar a doutrina, vivida como verdade absoluta. Tal atitude acarreta consequências gravíssimas: quem se sente portador da única verdade não suporta ideias diferentes e seu destino é a intolerância. A intolerância gera o desprezo pelo outro; o desprezo, a agressividade; a agressividade, a guerra contra o erro a ser combatido e exterminado. Irrompem conflitos religiosos violentíssimos. (…)

Nos dias atuais, assistimos a dois tipos de fundamentalismo. Um representado pelo presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, e outro, por Osama Bin Laden (autor intelectual do atentado de 11 de setembro de 2001 contra as torres gêmeas do World Trade Center de Nova York, Estados Unidos). Bush prepara seus discursos no melhor código fundamentalista: a luta é do Bem (Estados Unidos) contra o Mal (terrorismo islâmico). (…)

Há décadas que a política externa norte-americana maltrata as nações árabes, apoiando governantes despóticos para garantir o suprimento de petróleo. (…) A Arábia Saudita – território sagrado do Islã, pois lá estão as cidades de Meca e Medina – abriga uma base militar norte-americana. Tal fato é, para a fé islâmica, tão vergonhoso quanto um católico ver a Máfia no governo do Vaticano. Coisas assim acumulam amargura, ressentimento, revolta e vontade de vingança. É o fermento do terrorismo muçulmano.

Osama Bin Laden também encara o mundo segundo a lógica da guerra entre o Bem (islamismo) e o Mal (Estados Unidos). Em seu famoso discurso após o atentado de 11 de setembro, afirmou: “O chefe dos infiéis internacionais, o símbolo mundial moderno do paganismo, são a América e seus aliados”. O atentado significa que “a América foi atacada por Deus em um dos sus órgãos vitais – Graças e gratidão a Deus”.

Em nome de que Deus ambos falam? Não é seguramente em nome de Alá, nem em nome de Jesus Cristo. (…)

É o próprio fundamentalismo responder terror com terror, pois se trata da luta do Bem contra o Mal, da Verdade contra a Mentira. Foi o que Bush e Bin Laden fizeram. Enquanto predominarem tais convicções, seremos condenados à intolerância, à violência e à guerra. (…)

Mas como enfrentar o fundamentalismo? Pelo diálogo. Trazer o fundamentalista à realidade concreta, cheia de contradições e nuances, pode semear nele a dúvida e o questionamento, abrindo uma brecha no muro das convicções cerradas e levando-o a aceitar o “outro” (isto é, o diferente, ou aquele que pensa de modo diverso ao dele).

Estamos numa encruzilhada da história humana. Ou criamos relações multipolares de poder, com investimentos sociais para que todos vivam com dignidade, ou iremos ao encontro do pior, quem sabe, ao mesmo destino dos dinossauros. Armas para isso existem – e sobra demência. Faz-se urgente mais sabedoria que poder e mais espiritualidade que bens materiais. Então, os povos poderão se abraçar como irmãos na mesma Casa Comum, a Terra, e irradiaremos como filhos da alegria e não como condenados ao vale de lágrimas.