Das suas origens, no final da Idade Média, aos dias de hoje, o capitalismo passou pelas seguintes fases:

Capitalismo ou socialismo?
  1. O modo capitalista de produção
  2. Etapas do capitalismo
  3. Socialismo: um novo modo de produção

1) pré-capitalismo (do séc. XI ao séc. XV) – O comércio e a produção artesanal começam a se expandir, mas o trabalho assalariado ainda é uma exceção: predomina o trabalho independente dos artesãos, donos dos meios de produção (oficinas e ferramentas), bem como da matéria-prima; nos campos, prossegue ainda o trabalho servil, que começa a ser substituído pelo trabalho assalariado e por formas de arrendamento da terra;

2) capitalismo comercial ou mercantil (séc. XV ao séc. XVIII) – O trabalho independente ainda predomina, mas se expande o regime assalariado; a maior parte do lucro concentra-se nas mãos dos comerciantes;

3) capitalismo industrial (séc. XVIII ao séc. XX) – Com a Revolução Industrial, o capital passa a ser investido basicamente na indústria, que se torna a atividade econômica dominante; o trabalho assalariado firma-se definitivamente;

4) capitalismo financeiro (a maior parte do século XX) – Os bancos e outras instituições financeiras passam a controlar as demais atividades econômicas por meio de financiamentos à agricultura, à pecuária, à indústria e ao comércio;

5) sociedade pós-industrial (séc. XX ao séc. XXI) – O capital financeiro continua a dominar os outros setores da economia como na fase anterior; com a globalização e o desenvolvimento das redes de computadores, grandes massas de capital passam a ser aplicadas nos países que oferecem maior lucratividade, retirando-se deles ao menor sinal de crise; ao mesmo tempo, a indústria e a agricultura perdem importância em relação ao setor de serviços; além disso, crescem gigantescamente os meios de comunicação e o setor de informática (redes de computadores), assim como a automação e a indústria de alta tecnologia.

O mercantilismo

Entre os séculos XV e XVIII, a sociedade europeia viveu tempos extraordinários. Foi a época das Grandes Navegações; da formação e consolidação do Estado absolutista na Europa ocidental, do surgimento dos sistemas coloniais, com a conquista e a colonização da América pelos europeus, e da criação de um mercado mundial. Foi também a época da transição do feudalismo para o capitalismo.

No plano da política econômica, predominou nesse período um tipo de pensamento, práticas e diretrizes conhecido como mercantilismo. O mercantilismo foi a política econômica do Estado absolutista e do capitalismo comercial.

Seus princípios e diretrizes mais importantes eram:

  • a riqueza de uma nação depende, acima de tudo, da acumulação de metais preciosos (ouro e prata);
  • portanto, é preferível exportar para terceiros do que importar bens de outros países, de modo a ter sempre uma balança comercial favorável;
  • o governo deve controlar rigidamente a indústria e o comércio, a fim de garantir que as exportações superem as importações; o Estado, portanto, deve intervir diretamente na vida econômica;
  • para equilibrar a oferta e a procura, o governo deve evitar a concorrência, fixando preços;
  • quanto mais moedas houver em circulação, mas próspero será o país.

No período mercantilista, o Estado absolutista interferiu pesadamente na economia, proibindo a importação de produtos que tivessem similares nacionais e a exportação de matéria-prima que favorecesse a indústria de outros países.

O Estado também favoreceu os monopólios (empresas que controlavam o comércio de determinados produtos) e a exploração colonial. As terras recém-conquistadas (colônias) forneciam matérias-primas, gêneros alimentícios e, em muitos casos, metais preciosos para as potências europeias que as controlavam (metrópoles).

Nesse período, os reinos de Portugal e Espanha, depois seguidos pela Inglaterra, França e Holanda, patrocinaram as Grandes Navegações, que saíram em busca de novas terras e novos mercados.

Liberalismo: a “mão invisível” do mercado

No século XVIII, época da Revolução Industrial, os pensadores também se modernizaram. Na França e na Inglaterra, surgiu o Iluminismo, corrente de ideias que condenava a monarquia absolutista e que logo se difundiu pela Europa. Entre os economistas, teve lugar uma profunda crítica aos dogmas mercantilistas.

O escocês Adam Smith (1723-1790), autor de A riqueza das nações, foi o principal ideólogo do novo capitalismo. Para ele, o trabalho e não o comércio, como pregava o mercantilismo – é a principal fonte geradora de riqueza.

Segundo Smith, as desigualdades sociais constituíam um incentivo ao trabalho e ao enriquecimento – ou seja, uma condição fundamental para que as pessoas lutassem para subir na vida.

Nessa perspectiva, ao promover seu interesse pessoal, o indivíduo acaba por ajudar o interesse coletivo, pois, ao fazer investimentos produtivos, um empresário cria emprego e faz circular a riqueza: “Não é pela benevolência do padeiro ou do açougueiro – afirmava Adam Smith – que temos nosso jantar, mas sim pelo egoísmo deles, pois, agindo segundo seu próprio interesse, os homens ajudam-se mutuamente”.

Dessa forma, a harmonia e o progresso, baseados na ambição individual, seriam garantidos por um mecanismo auto-regulador, que é o mercado, com sua lei da oferta e da procura. Ou seja, a lei da oferta e da procura funcionária como uma “mão invisível”, permitindo o crescimento da riqueza e uma melhor distribuição da renda. Mas isso só seria possível se o Estado não interferisse na economia, sem fixar preços, por exemplo.

Na contramão das ideias mercantilistas, Adam Smith acreditava firmemente no poder da livre concorrência, que seria para ele o grande motor da sociedade capitalista.

Além de ser o pai da economia clássica, Smith foi também um dos grandes defensores do liberalismo – doutrina econômica que defende a livre a iniciativa e a não-intervenção do governo na vida econômica (o chamado “Estado mínimo”).

O nascimento da fábrica

Substituir ferramentas por máquinas, energia humana por energia motriz, produção doméstica por produção fabril: essas foram as características básicas da Revolução Industrial. Foi mesmo uma revolução, por que transformou profundamente a sociedade.

A Revolução Industrial teve início na Inglaterra, na segunda metade do século XVIII. A Inglaterra, que na época ficou conhecida como “oficina do mundo”, foi pioneira na mudança do sistema manufatura, os trabalhadores produziam em casa para um comerciante, que fornecia a matéria-prima e lhes pagava por produção.

Nas fábricas -novas unidades de produção que concentravam os trabalhadores em um único edifício – o empresário contratava trabalhadores livres, que, sem meios de produção (ferramentas, matérias-primas e local de trabalho), vendiam sua força de trabalho em horas – ou jornadas – para os novos patrões.

Esse pioneirismo inglês ocorreu por várias razões. Entre elas, destaca-se o desenvolvimento do comércio externo no período anterior, favorecido pelas práticas mercantilistas. Com base numa poderosa marinha mercante, a Inglaterra praticamente dominou os mares, fazendo com que a América, a África e a Ásia fossem exploradas pelas companhias de comércio dedicadas à compra de produtos agrícolas e matérias-primas coloniais, ao tráfico de escravos e à venda de produtos ingleses.

Esse desenvolvimento mercantil – conhecido como “acumulação primitiva de capital” – impulsionou a busca de novas técnicas de produção. Desse modo, ao longo do século XVIII, a produção feita em casas ou oficinas foi substituída por novas e maiores unidades de produção: as fábricas.

Nas fábricas, racionalmente organizadas para aumentar, melhorar e acelerar a produção, concentravam-se grandes contingentes de operários, utilizando equipamentos fornecidos pelo empregador, que visava um produtividade cada vez maior.

Gravura de 1830 mostrando o interior de uma fábrica inglesa de tecidos de algodão. Por essa época, era comum o trabalho infantil na Inglaterra, berço da Revolução Industrial, assim como nos outros países que começavam a se industrializar. Observe o menino à direita, contratado para varrer os restos de algodão, rastejando entre os fios que a operária vai tecendo na máquina em que trabalha. Inventada em 1779, essa máquina, denominada Mula, fazia parte dos diversos inventos ligados à indústria que surgiram durante a Revolução Industrial.
Gravura de 1830 mostrando o interior de uma fábrica inglesa de tecidos de algodão. Por essa época, era comum o trabalho infantil na Inglaterra, berço da Revolução Industrial, assim como nos outros países que começavam a se industrializar. Observe o menino à direita, contratado para varrer os restos de algodão, rastejando entre os fios que a operária vai tecendo na máquina em que trabalha. Inventada em 1779, essa máquina, denominada Mula, fazia parte dos diversos inventos ligados à indústria que surgiram durante a Revolução Industrial.

A disciplina ali reinante era extremamente rígida e até cruel – como veremos a seguir -, com hierarquia até então desconhecida nas oficinas de artesãos.

Da Inglaterra, a Revolução Industrial se difundiu pela Europa e, mais tarde, pelo resto do mundo, com toda a sua modernidade expressa nas grandes invenções – energia a vapor, novas máquinas de fiar e de descaroçar o algodão – e em novas relações de produção. Essas relações eram agora, definitivamente, relações capitalistas de produção.

Explode a questão social

Desde o início da Revolução Industrial, a indústria não parou de progredir. Já as condições de vida dos que trabalhavam nas fábricas eram alarmantes. Antes da invenção da máquina a vapor, as fábricas ficavam em zonas rurais, junto às margens dos rios, aproveitando sua energia hidráulica. Nesses locais, surgiam oficinas, casas e hospedarias.

Com o aperfeiçoamento da máquina a vapor pelo inventor inglês James Watt em 1768, as fábricas, que já não dependiam da energia hidráulica dos rios, mudaram-se para a periferia das cidades, mais próximas dos mercados consumidores e onde os trabalhadores eram contratados com mais facilidade. Eram edifícios enormes, fechados, com chaminés, apitos e grande número de operários,

Por dentro, o espaço das fábricas constituía um ambiente insalubre, sem luz e ventilação suficientes, muito semelhante a um prisão. A massa trabalhadora era formada por homens, mulheres e crianças recrutados entre os camponeses expulsos das aldeias, soldados desempregados, artesãos empobrecidos e indigentes.

Os operários trabalhavam nas fiações e tecelagens, nas oficinas mecânicas e nas minas. Como o serviço era extremamente árduo, no começo era difícil encontrar trabalhadores em número suficiente. Assim, os industriais passaram a empregar mulheres e crianças, cujos salários eram mais baixos. As crianças submetiam-se ao trabalho mais facilmente, sendo recrutadas muitas vezes em orfanatos e casas paroquiais.

Na verdade, essas crianças ficavam confinadas nas fábricas, isoladas da sociedade sob o total domínio dos patrões. Frequentemente, esses tristes filhos da Revolução Industrial sofriam maus-tratos, castigos e espancamentos.

Os operários adultos também levavam uma vida duríssima, trabalhando doze a dezesseis horas por dia, sem férias, feriados ou mesmo descanso semanal remunerado. Recebendo salários de fome, os trabalhadores ingleses viviam em bairros ou cidades industriais, amontoados em cortiços, sem água nem esgoto. Eram vítimas fáceis de doenças como tuberculose, infecções intestinais, raquitismo e outros males.

Também não podiam contar com assistência médica ou aposentadoria. Assim, só restavam as associações de classe (sindicatos) e as greves como instrumento de luta para a conquista de direitos. Embora terminantemente proibidos e severamente reprimidos, esses recursos eram a única possibilidade de alterar o miserável estado em que se encontravam as classes trabalhadoras entre a segunda metade do século XVIII e o começo do século XX.

Diante dessas condições de vida e de trabalho, os operários do capitalismo florescente desencadearam fortes movimentos sociais que da Inglaterra, expandiram-se por toda a Europa industrializada.

Movimentos sociais e pensadores socialistas

No século XIX, os capitalistas ficavam cada vez mais ricos, enquanto os trabalhadores viviam em condições miseráveis. Essa situação levou muitos pensadores, ou mesmo simples operários, a formular críticas ao capitalismo e a apresentar propostas de transformação da sociedade. Tais ideias acabaram constituindo uma corrente de pensamento que teria papel fundamental nas lutas políticas a partir de então: o socialismo.

Os primeiros teóricos socialistas desenvolveram suas ideias entre a Revolução Francesa de 1789 e os movimentos sociais de 1848 e 1871, ano da Comuna de Paris, quando os operários parisienses chegaram a tomar o poder e a organizar um governo socialista revolucionário que durou pouco mais de dois meses.

Os principais socialistas dessa fase foram os franceses Saint-Simon (1760-1825), Charles Fourier (1772-1834), Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865) e o inglês Robert Owen (1771-1858).

De um modo geral, esses socialistas pregavam a justiça social por meio da razão, da boa vontade e do convencimento. Acreditavam que, do ponto de vista racional, nada melhor do que uma sociedade igualitária e fraterna.

Valendo-se dessa convicção, tentaram criar comunidades-modelo (Fourier) e a associação de produtores (Owen). Tais iniciativas não deram certo – no sentido de transformar radicalmente a sociedade -, mas as críticas e as lutas sociais de todos esses pensadores, reforçadas pelas greves, foram importantes para a melhoria das condições de vida dos trabalhadores.

Esses primeiros reformadores sociais ficaram conhecidos como “socialistas utópicos”, nome atribuído a eles pelos alemães Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895), que se propuseram a desenvolver as bases do que chamaram de “socialismo científico”.

Em seu livro O Capital, Marx realizou a mais completa radiografia do capitalismo, apontando suas principais contradições. Segundo ele, o valor de um bem é determinado pela quantidade de trabalho socialmente necessário para sua produção. Assim, o lucro não se realiza no momento da troca de mercadorias, mas sim na produção dessas mercadorias. Isso acontece porque os trabalhadores não recebem o valor correspondente a seu trabalho, mas só o necessário para sua sobrevivência.

O valor da força de trabalho de um assalariado, como de toda mercadoria, é estabelecido pelo tempo de trabalho necessário para produzir os bens destinados a garantir a sobrevivência do trabalhador. Isso se expressa em alimentos, moradia, tempo para descansar etc. O valor de todos esses bens consumidos pelo operário diariamente é o valor de sua força de trabalho.

Suponhamos agora que um operário trabalhe oito horas por dia na produção de sapatos. Para repor sua força de trabalho, ele precisa alimentar-se e descansar. Suponhamos ainda que o valor dos bens consumidos por ele para repor suas energias em um dia seja igual ao valor produzido por ele em seis horas de trabalho na produção de sapatos. Para garantir sua sobrevivência, portanto, bastaria a ele trabalhar seis horas por dia, mas ele trabalha mais duas horas na fábrica do patrão. Essas duas horas a mais representam o que Marx chamava de sobretrabalho (ou trabalho excedente), e é delas que sai o lucro do patrão na forma inicial de mais-valia.

Desse modo, na análise de Marx, a mais-valia consiste na diferença entre o valor (expresso em horas de trabalho) incorporado a um bem e o pagamento do trabalho necessário para sua reposição (o salário). A essência do capitalismo seria a apropriação privada (isto é, pelo capitalista) dessa mais-valia, que dá origem ao lucro.

No capitalismo, a classe dominante apropria-se da mais-valia (ou lucro), mas não ao consome totalmente. Boa parte dela é investida e reinvestida na produção. A esse investimento permanente se dá o nome de acumulação de capital.

Por capital, entende-se o dinheiro, a mercadoria ou os meios de produção – ou uma combinação dos três – aplicados de tal forma que levem os trabalhadores assalariados a produzir mercadorias e mais-valia. Ou seja, não é todo tipo de dinheiro que funciona como capital. Só é capital aquele dinheiro (ou meios de produção) empregado de forma que produza mais-valia por meio do trabalho assalariado.

Ainda segundo Marx, o capitalismo, diferentemente dos modos de produção anteriores, não funciona para que as coisas fiquem sempre do mesmo jeito. Por sua própria natureza, ele precisa crescer, acumular e reinvestir parte da mais-valia na produção, aumentando sempre o lucro e a produtividade. Ou seja, as forças produtivas devem estar em permanente desenvolvimento.

Leia o que Karl Marx disse a esse respeito no texto “Capitalismo e revolução”, que contém trechos de seu célebre Manifesto comunista, escrito em parceria com Friedrich Engels em 1848.

As ideias de Marx influenciaram profundamente o pensamento econômico, as práticas políticas e os movimentos sociais nos séculos XIX e XX.

Apoiando-se no proletariado – considerado por Marx e Engels como a classe que substituiria a burguesia num futuro melhor para a humanidade, no qual não haveria mais opressores nem oprimidos -, criaram-se na Europa e mais tarde em outros continentes partidos socialistas, social-democratas e comunistas.

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