Em grande parte das pequenas cidades rurais do Mediterrâneo, na Sicília, na Calábria, mas também em Múrcia (regiões da Itália) e no Peloponeso (Grécia), a situação tem mudado radicalmente nas últimas décadas. Essas aldeias, quando ainda não estão abandonadas, são habitadas, em sua maior parte, por idosos. Os diversos países dessa parte do Mediterrâneo parecem estar em etapas diferentes de um mesmo processo.

No início, os homens partem sozinhos da aldeia, enviam dinheiro para casa para alimentar a família e comprar um pedaço de terra ou uma loja. Preparam, assim, a volta ou sonham com ela. Depois, quando já não há mais nenhuma esperança de retorno, as mulheres também partem com seus filhos, e a ruptura torna-se definitiva. Após viver um breve período de prosperidade, graças ao dinheiro enviado por seus filhos, a aldeia acaba “morrendo”.

Essa emigração em massa mostra uma parte do Mediterrâneo que vem perdendo expressão econômica pelo atraso com que busca entrar na era industrial. As economias da região entram em declínio, seus poucos habitantes se sentem ameaçados e cada vez mais dependentes.

Na Itália pós-unificada (1870), na África do Norte da época colonial (século XIX), na Espanha e em Portugal dos anos de 1950, na Iugoslávia e na Turquia dos anos de 1960 ou 1970, a história se repete: a abertura de mercado desses países para o exterior e a vontade de seus dirigentes de desenvolver suas economias acarretaram uma grave crise das sociedades rurais tradicionais.

Isso provoca a emigração em massa dessas populações para as cidades ou mesmo para outros países, onde esperam conseguir trabalho. A aldeia deixa atrás de si apenas a lembrança da saudosa de um modo de vida tradicional, condenado a desaparecer ou a ser reinventado pelo turismo.

A atual crise é algo mais do que a terra que morre. Ela indica que os seculares laços de solidariedade essenciais, que caracterizam essas comunidades, estão seriamente ameaçados de desaparecer.

Dessa forma, a decadência dessas cidades não significa apenas uma perda econômica, mas o fim de uma forma social de convivência, de uma cultura, na qual as relações entre as pessoas são marcadas por vínculos de afetividade muito fortes, a solidariedade essencial.

(Por solidariedade essencial entendemos as relações de troca afetiva e material que geralmente se estabelecem nas pequenas organizações comunitárias Elas podem ser representadas pelas pequenas cidades e vilarejos, com sua praça, ruas estreitas, igreja, missa dominical, escola, cerimônias de casamentos, festas comunitárias; pequenas comunidades regidas por hábitos e costumes, em que a solidariedade entre os indivíduos é favorecida, entre outros fatores, pela proximidade física.)