Em 1949, na cidade de Mossoró, no Rio Grande do Norte, o casal Elizabeth e Rafael Negreiros, para entrar na Igreja e celebrar seu casamento, teve que pedir uma autorização especial ao papa. Apesar de serem habituais os casamentos consanguíneos na região, a oficialização daquela união pareceu exagerada ao pároco local.

De fato, o pai da noiva, Solon, era irmão do pai do noivo, Manoel. Maricota, a mãe dos pais dos noivos, era mãe da outra avó de Rafael. Para completar, Solon e Manoel ainda eram casados com primas, Júlia e Sinhá. O padre achou que estava diante de um caso de incesto.

O casal teve sete filhos — apenas uma mulher —, e a prole manteve a tradição. Na juventude, quatro deles mantiveram namoros com parentes. Rafael Filho casou-se com uma prima, Cynthia, cujos país também são primos. A família agora acompanha atentamente o namoro de Marcelo, de 19 anos, um dos quatro filhos de Cynthia e Rafael, com Luiza, de apenas 16 anos. Os pombinhos, sim, é isso mesmo, também são primos.

Entre as Negreiros, casamento entre parentes é comum há mais de cinco gerações. Um século atrás, a família ganhou algum dinheiro na exploração de guaraná na Amazônia. A união entre parentes manteve intacto o patrimônio familiar. Outra razão tem sida o convívio entre os membros da família. Como em todas cidades pequenas, primos, tios e sobrinhos normalmente crescem juntos, namoram entre si e, na hora de escolher o cônjuge, têm poucas escolhas.

Foi assim com Enéas Negreiros e Odinéia. Ele hoje tem 91 anos. Ela, 78. Nasceram na mesma casa. Aos 20, ela aceitou o pedido de casamento. A mãe de Odinéa, Verônica, era casada, por sua vez, com um sobrinho, Carlos, também filho de um casal de primos. Dos cinco irmãos de Enéas — filhos de primos, claro —, só três se casaram, e um deles com uma irmã adotiva.

Com todos esses casamentos consanguíneos, acabaram ocorrendo casos de má-formação congênita. Raimundo, por exemplo, passou a vida encurvado, com um desvio grave na coluna. E também se casou com uma prima.

Os Negreiros têm concorrência. A família Fernandes, também de Mossoró, tem igualmente certa tradição no ramo. Elizabeth Negreiros, a noiva que precisou da bênção papal para se casar, tem Fernandes no sangue e, também por esse lado da família, há muitos casos de casamentos entre parentes. (…)

No Brasil colonial, promoviam-se casamentos em família para manter na linhagem o dote pago pelos pais da noiva. “Nas casas de engenho, muitos cunhados se casavam com a viúva do irmão”, lembra a historiadora portuguesa Maria Beatriz Nizza da Silva, autora de um estudo sobre as famílias brasileiras. “Nas camadas populares, isso acontecia porque o mercado matrimonial era pequeno.” A igreja até cobrava taxa especial para esses casamentos.

No município cearense de Hidrolândia, de apenas 17 mil habitantes, também se registra esse fenômeno. Na família Elmiro de Souza, de onze irmãos, dez se casaram com parentes. O que escapou, José, acabou dando a mão da filha, Veronice, ao irmão Aristeu. Para se casar com o tio. Veronice fez quatro exames de sangue, a pedido do juiz. Houve um casal que teve cinco de seus onze filhos com problemas congênitos. Mas ninguém desanima. “Filho assim só nasce de quem tem defeito”, alega Veronice. “Minhas duas meninas são lindas.”

FONTEVeja, 13.2.2002
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