Vamos abordar um tema que você conhece bem: o rap. Esse gênero – que está entre a música e a poesia – nasceu nos bairros negros dos Estados Unidos e foi adotado pelas comunidades negras da periferia de grandes cidades brasileiras. Suas letras são geralmente registros das condições de vida das camadas pobres urbanas, particularmente dos jovens negros. Daí seu interesse para a Sociologia.

Existe um muro na música pop brasileira. De um lado estão os roqueiros. Do outro, os rappers. Em suas letras, eles falam dos mesmas assuntos: drogas, mulheres, violência. Mas nem parece que habitam o mesmo país. Os roqueiros fazem a trilha sonora da curtição. Falam de drogas do ponto de vista do usuário endinheirado e retratam de forma machista as garotas que frequentam os lugares da moda.

No caso dos rappers, a conversa é completamente diferente. Para eles, mulher é a menina negra com problemas de auto-estima ou então a mãe solteira. Para eles, mais do que curtição, as drogas estão entre os responsáveis pelo cotidiano violento grandes cidades brasileiras.

Até pouco tempo atrás, todos os jovens brasileiros, independentemente da classe social em a que pertencessem, consumiam o mesmo tipo de música. Agora, a exemplo do que ocorre nos Estados Unidos, a distinção é clara.

Os rappers fazem a trilha sonora da vida do jovem pobre, que mora na periferia e não tem acesso aos lugares da moda. Os roqueiros compõem para a classe média – que é, em geral, de onde eles vêm. Isso não impede, claro, que bandas de ambos os grupos pulem o muro divisório e que suas composições sejam consumidas pela rapaziada dos dois estratos. Foi o que aconteceu, recentemente, com os rappers Racionais MC’s, que venderam mais de 1 milhão de cópias, um desempenho assombroso para o gênero.

“No nosso contexto, lidamos com problemas como drogas, pobreza e marginalidade. É por isso que falamos disso em nossas músicas”, diz o rapper KL Jay, integrante da banda Racionais MC’s. O discurso em favor de minorias – negros, pobres e nordestinos – continua, mas agora é ilustrado por pequenas narrativas.

Um caso emblemático é a música João e Maria, dos Racionais MC’s, que conta a história de um pedreiro para falar da discriminação que os nordestinos sofrem em São Paulo.

Veja, nos dois trechos a seguir, como o rap trata a mulher e as drogas.

“A preta linda que não olha no espelho
Tem vergonha do nariz, da boca e do cabelo
A piveta que já tem um pivete
Que até da mamadeira, ei mano, ela se esquece.”
(Homem de aço, do grupo de rap DMN.)

“Em São Paulo mais uma pedra é queimada (refere-se ao crack)
Na zona sul mais uma mente é atordoada
O caminho das pedras não leva a nada
Parada errada, farinha empedrada, substância que mata.”
(O caminho das pedras, dos rappers do Zona Proibida.)

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