A década de 1970 foi o período culminante de um processo de separação entre religião e política. Terminada a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), as instituições políticas pareciam haver imposto uma autonomia definitiva em relação às instituições religiosas, concluindo um processo iniciado pelos filósofos do Iluminismo (movimento de ideias do século XVIII que rejeitava o misticismo e pregava o triunfo da razão e do conhecimento científico).

A religião viu sua própria influência ficar restrita à esfera privada ou familiar e passou a inspirar a organização da família apenas de modo indireto, como um resquício das tradições do passado. Essa tendência alimentada pelos triunfos da ciência, cujo único credo era o progresso adquiriu uma infinidade de formas e intensidades que variavam de acordo com os lugares e tipos de sociedade.

Muitas religiões aliaram-se às elites, participando de sua visão exclusivista do mundo. Essa visão procurava dissimular outros processos de transformações sociais mais complexos e que estavam preenchendo o cenário público.

A partir da década de 1960, parece ter havido um afrouxamento dos vínculos entre a religião e os fiéis, a tal ponto que deixou os clérigos preocupados. Muitas instituições eclesiásticas tiveram que se esforçar para adaptar seus propósitos aos valores “modernos” da sociedade, além de explicitar suas convergências.

O mais espetacular desses empreendimentos foi o Concílio Ecumênico Vaticano II, com seu consequente aggiornamento, isto é, “modernização” da Igreja católica, de modo a integrá-la às grandes questões sociais, éticas e morais da sociedade contemporânea. Surgiram fenômenos semelhantes no mundo protestante e até no mundo muçulmano, onde se tratou de “modernizar o islamismo”.

Esse movimento começou a mudar de direção no final da década de 1970. Um novo discurso religioso tomou forma, não mais para se adaptar aos valores seculares, e sim para voltar a dar uma base sagrada à organização da sociedade, modificando-a, se preciso. Não se trata mais de aggiornamento (modernização), e sim de uma “segunda evangelização da Igreja”. Não mais para modernizar o islamismo, mas sim para “islamizar a modernidade”.

Passadas mais de duas décadas, esse fenômeno adquiriu uma dimensão universal, pois surgiu em civilizações que diferem tanto pela origem cultural como pelo nível de desenvolvimento. Em toda parte o fenômeno se multiplicou, reagindo a uma “crise” da sociedade, cujas raízes profundas encontram-se nos problemas econômicos, políticos, sociais e culturais que essa sociedade está atravessando.

Do Cairo ou de Argel a Praga, dos evangélicos americanos aos fanáticos do Gush Emunim, dos militantes islamitas aos católicos carismáticos, são diversas as formas de renovação religiosa no cristianismo, no islamismo e no judaísmo nas últimas duas décadas.

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