O economista Celso Furtado é um dos maiores pensadores brasileiros contemporâneos. Autor de diversos livros sobre o subdesenvolvimento no Brasil e na América Latina, é conhecido também por um estudo clássico de historiografia: Formação econômica do Brasil, publicado em 1959. No texto a seguir, ele critica a ilusão segundo a qual um país subdesenvolvido só pode avançar se seguir o modelo de desenvolvimento estabelecido pelos países ricos.

A ideia defendida nas últimas décadas, de que as grandes massas de população dos países pobres podem atingir os padrões de consumo da minoria da humanidade que vive hoje nos países altamente industrializados, como os Estados Unidos, não passa de um mito, de uma ilusão.

Essa ideia interessa aos ricos dos países pobres, pois justifica a concentração da riqueza em poucas mãos, em nome do progresso tecnológico e do desenvolvimento econômico que, como eles querem fazer crer, futuramente vão beneficiar toda a população. Enquanto isso, essa população continua na miséria, sem alimentação, sem moradia, sem saúde, sem acesso à educação; as grandes metrópoles continuam com seu ar irrespirável, a crescente criminalidade, a deterioração dos serviços públicos etc.

O que os defensores do mito do desenvolvimento econômico deixaram de considerar é o impacto sobre a natureza de uma eventual universalização do consumo, conforme eles preconizam. Um estudo feito por um grupo de especialistas procurou responder a esta pergunta: “O que aconteceria se o desenvolvimento econômico, para o qual estão sendo mobilizados todos os povos da Terra, chegasse efetivamente a universalizar-se?”

A resposta é clara: se isso acontecesse, a pressão sobre os recursos não-renováveis (petróleo, carvão, urânio, alumínio etc.) seria tal que o sistema econômico entraria em colapso; a depredação do mundo físico e a poluição seriam de tal ordem que colocariam em risco as possibilidades de sobrevivência da própria espécie humana. Conclusão: a ideia de que os povos pobres possam um dia chegar a ter os padrões de consumo dos povos ricos é irrealizável, não passa de uma ilusão.

Na verdade, o que acontece é que essa ideia — do desenvolvimento econômico — serve para levar os povos pobres a aceitar grandes sacrifícios em nome de um futuro que nunca vai acontecer. Essa ideia serve também para desviar as atenções das necessidades básicas da vida humana — alimentação, saúde, habitação, educação — para cuja satisfação devem orientar-se os esforços de cientistas, economistas, políticos e de todos os cidadãos. O desenvolvimento de um povo só será possível por meio do atendimento a essas necessidades, para as quais precisam ser orientados os investimentos.