Claude Lévi-Strauss é um antropólogo belga que conhece muito bem nosso país. Professor da Universidade de São Paulo (USP) entre 1934 e 1937, estudou grupos indígenas do Brasil central e tornou-se profundo conhecedor dos hábitos e da cultura de nossos índios.

No texto que você vai ler agora, Lévi-Strauss faz uma reflexão sobre a família como instituição. Ao mesmo tempo, critica as tendências evolucionistas na Antropologia, que consideravam a família monogâmica como o “último estágio” de uma evolução que começou com formas “promíscuas” de organização familiar nas sociedades ditas “primitivas”.

A palavra família é tão comum, a realidade a que se refere é tão próxima da experiência de todos nós, que alguém poderá pensar que seu estudo é uma coisa muito simples. Os antropólogos, entretanto, são gente estranha.gostam de fazer até mesmo o “familiar” parecer misterioso e complicado. De fato, o estudo comparativo da família entre muitos povos diferentes deu origem a alguns dos mais acirradas debates em toda a história do pensamento antropológico.

Durante a segunda metade do século XIX e princípios do século XX, os antropólogos foram muito influenciados pelas teorias evolucionistas da Biologia. Acreditavam que as instituições dos povos mais simples correspondiam a um estágio primitivo da evolução da humanidade. Dessa forma, nossas próprias instituições eram tidas como as formas mais avançadas ou desenvolvidas.

Como, entre nós, a família baseada no casamento monogâmico era considerada uma instituição digna de louvor e carinho, concluiu-se imediatamente que as sociedades selvagens — consideradas semelhantes às que existiam no começo da humanidade — tinham de ser diferentes.

Como consequência, os fatos foram torcidos e mal interpretados; ainda mais, inventaram-se fantasiosas estágios “primitivos” de evolução, tais como “casamento em grupo” e “promiscuidade” para justificar o período no qual o homem ainda era tão bárbaro que não podia conceber os princípios básicos da vida social, privilégio do ser civilizado. Cada costume diferente do nosso era logo caracterizado como vestígio de um tipo mais antigo de organização social.

Esse modo de tratar as sociedades primitivas tornou-se ultrapassado a medida que o desenvolvimento de pesquisas antropológicas revelou que o tipo de família que caracteriza a civilização moderna — o casamento monogâmico, a livre escolha dos jovens para se casar e as relações afetivas entre pais e filhos — está presente também entre aqueles que parecem ter permanecido no nível cultural mais simples.

Muitas tribos, como a dos Nambiquara do Brasil Central, vivem em pequenos bandos seminômades, possuem pouca ou nenhuma organização política, e seu nível tecnológico é muito baixo: pelo menos entre algumas delas não existe noções de tecelagem, de cerâmica e, às vezes, até de construção de choupanas.

Mesmo com todos esses traços de uma cultura primitiva, a organização social de suas famílias é semelhante à de nossas sociedades. Ali, o observador não tem dificuldade de identificar os casais, intimamente associados por laços sentimentais e pela cooperação econômica, bem como pela criação dos filhos nascidos de sua união.

A partir dessa constatação, a maioria dos antropólogos passou a observar que a vida familiar está presente praticamente em todas as sociedades, mesmo naquelas que possuem costumes sexuais e educacionais bastante distantes dos nossos. Por outro lado, os exemplos de organização familiar mais afastados da família conjugal não ocorrem nas sociedades mais selvagens e arcaicas, mas sim em formas relativamente recentes e altamente sofisticadas de sociedade.

O problema da família, portanto, não deve ser encarado de maneira rígida. Sabemos muito pouco acerca do tipo de organização social predominante nos primeiros estágios da humanidade. Os registros do homem do Paleolítico Superior, de cerca de 50 mil anos atrás, consistem essencialmente em fragmentos de esqueletos e objetos de pedra, que proporcionam apenas um mínimo de informações sobre as leis e os costumes sociais.

Mas, se compararmos as mais diversas sociedades humanas, desde as mais antigas às atuais, pode-se verificar que a família conjugal monogâmica é relativamente frequente. Sempre que ela parece ter sido superada por tipos diferentes de organização, isso ocorreu em sociedades muito especializadas e sofisticadas e não, como se esperava, nas mais simples e primitivas.