O século XVIII foi marcado na Europa ocidental pelo Iluminismo, movimento que se opunha ao absolutismo dos reis e ao misticismo religioso, valorizando a ciência e as “luzes da razão” contra a ignorância e o obscurantismo. Um dos maiores pensadores desse período foi o suíço Jean-Jacques Rousseau (1712-1784), que viveu boa parte de sua vida na França. No texto que você vai ler agora, Rousseau procura analisar as origens das desigualdades existentes na sociedade de sua época.

Eu concebo na espécie humana dois tipos de desigualdades: uma, que chamo natural ou física, porque foi estabelecida pela Natureza, e  que consiste na diferença das idades, da saúde, das forças corporais e das qualidades do espírito ou da alma; outra, a que se pode chamar de desigualdade moral ou política, pois que depende de uma espécie de convenção e foi estabelecida, ou ao menos autorizada, pelo consentimento dos homens. Consiste esta nos diferentes privilégios desfrutados por alguns em prejuízo dos demais, como o de serem mais ricos, mais respeitados, mais poderosos que estes, ou mesmo mais obedecidos.

Não há por que perguntar qual é a fonte da desigualdade natural, já que a resposta se encontra enunciada na simples definição do termo. Ainda menos se pode procurar qualquer ligação essencial entre as duas desigualdades, porque seria indagar, em outros termos, se os que dirigem valem necessariamente mais que aquelas que obedecem, e se a força do corpo ou do espírito, a sabedoria ou a virtude, são sempre encontradas nos mesmos indivíduos na proporção do poder ou da riqueza (…).

O primeiro que, cercando um terreno, se lembrou de dizer: “Isto me pertence”, e encontrou criaturas suficientemente simples para acreditar; foi o verdadeiro fundador da sociedade civil. Quantos crimes, guerras, assassinatos, misérias e horrores teria poupado ao gênero humano aquele que, tivesse gritado aos seus semelhantes: “Guardai-vos de escutar este impostor! Estais perdidos se vos esqueceis de que os frutos a todos pertencem e de que terra não é de ninguém!”.

Porém, é por demais evidente que, àquela altura, as coisas já tinham chegado a ponto de não poderem mais durar como duravam: porque essa ideia de propriedade, dependendo de um sem-número de ideias anteriores, que não puderam nascer senão sucessivamente, não se formou de repente no espírito humano. Foi preciso conseguir muitos progressos, adquirir muita indústria e muitas luzes, transmiti-los e aumentá-los de idade, antes de se chegar ao derradeiro termo do estado natural. Retomemos, pois, as coisas de mais longe e tratemos de reunir sob um único ponto de vista essa lenta sucessão de acontecimentos e conhecimento na sua ordem mais natural.

O primeiro sentimento do homem foi o da sua existência; o primeiro cuidado, o da sua conservação. Os produtos da terra lhe forneciam todos os auxílios necessários; o instinto o levou a servir-se deles. A fome e outros apetites fizeram-no experimentar, alternadamente, diversas maneiras de existir, e houve um apetite que o convidou a perpetuar a própria espécie; e esta cega propensão, desprovida de qualquer sentimento do coração, não produzia senão um ato puramente animal. (…)

Tal foi a condição do homem no começo; tal foi a vida de um animal, de início limitado às puras sensações, que aproveitava apenas os dons que a Natureza lhe oferecia, longe de sonhar em extrair-lhe algo. Todavia, cedo se apresentaram dificuldades e foi preciso aprender a vencê-las: a altura das árvores que o impedia de alcançar-lhe os frutos, a concorrência dos animais que deles buscavam nutrir-se, a ferocidade dos que pretendiam sua própria vida. Tudo isso o obrigava a exercitar o corpo; foi necessário fazer-se ágil, rápido na corrida, vigoroso no combate.

As armas naturais – cedo se acharam em suas mãos. Ele aprendeu a sobrepujar os obstáculos da Natureza, a combater por necessidade os outros animais, a disputar a subsistência aos próprios semelhantes ou a se compensar do que era forçado a ceder ao mais forte.

Contudo, é preciso assinalar que a sociedade começada e as relações já estabelecidas entre os homens exigiam deles qualidade diferentes das que eles possuíam de sua constituição primitiva; que, começando a moralidade a introduzir-se nas ações humanas, e sendo cada qual, antes das leis o único juiz e vingador das ofensas recebidas, a bondade conveniente ao estado natural puro não mais convinha à nascente sociedade; que se fazia preciso que as punições se tornassem mais severas, à medida que as oportunidades de ofender aumentavam de frequência; e que, devido ao terror da vingança, se fazia necessário o freio das leis.

Assim, embora os homens se houvessem tornado menos tolerantes e a piedade natural tivesse sofrido alguma alteração, esse período do desenvolvimento das faculdades humanas, sustentando um justo meio-termo entre a indolência do estado primitivo e a petulante atividade de nosso amor-próprio, deve ter sido a época mais feliz e mais durável.

Quanto mais nisto se reflete, mais se reconhece que este estado era menos sujeito às revoluções, o melhor para o homem, do qual não deve ter saído senão em virtude de algum acaso funesto que, para o bem comum, jamais devia ter chegado. O exemplo dos selvagens, quase todos encontrados nesse ponto, parece confirmar que o gênero humano estava feito para nele permanecer sempre, que tal estado é a verdadeira juventude do mundo, e que todos os progressos posteriores foram, na aparência, uns tantos passos na direção da perfectibilidade do indivíduo, mas, na realidade, no sentido da decrepitude da espécie.

Enquanto os homens se contentaram com suas cabanas rústicas, enquanto se limitaram a coser as vestes de pele com espinhos e arestas, a adornar-se de penas e conchas marinhas, a pintar o corpo com tintas de diversas cores, a aperfeiçoar e embelezar os arcos e as flechas, a talhar, com a ajuda de pedras cortantes, algumas canoas de pescadores ou alguns grosseiros instrumentos musicais (…), viveram livres, são, bons e felizes, tanto quanto o podiam ser por sua natureza, e continuaram a desfrutar entre si de um comércio independente; mas, desde o instante em que um homem teve precisão da ajuda de outrem, desde que percebeu ser conveniente para um só ter alimentos para dois, a igualdade desapareceu, introduziu-se a propriedade, o trabalho tornou-se necessário e as vastas florestas se mudaram em campos risonhos que passaram a ser regados com o suor dos homens, e nos quais logo se viu a escravidão e se viu a miséria germinar e crescer com as colheitas.