O texto que você vai ler agora, trata do desemprego entre as classes médias assalariadas no Brasil. Fala de pessoas com curso universitário que trabalham como taxistas ou em outros empregos que não exigem muita qualificação. Um de seus temas, portanto, é a mobilidade social para baixo, ou seja, o empobrecimento de pessoas de classe média.

É uma descida rumo ao fundo do poço. O desemprego, que há pouco parecia drama exclusivo do trabalho braçal, tornou-se uma tragédia real e crescente também para a classe média. A renda foi se reduzindo, em meio a anos seguidos de estagnação econômica.

Sem as benesses antes oferecidas pelo serviço público, que lhe dava chão, teto, estudo e muitas vezes emprego (como funcionário público), a classe média brasileira está enredada na pior crise de sua história. Não vive apenas com menos dinheiro. Vive decepcionada. “Ela esta desencantada, ressentida, insegura e desorientada”, diagnostica o psicológico e professor Antônio Carlos Amador Pereira.

Duas pesquisas de opinião informam que a classe média sente-se frustrada: apenas 15% das pessoas com renda entre 2.280 reais e 7.600 reais ouvidas pelo Ibope consideram satisfatório seu atual padrão de vida. Há um imenso pessimismo, atestou pesquisa do Datafolha: 69% acham que o desemprego vai aumenta e haverá menos dinheiro no bolso futuro.

Duas décadas atrás, a classe média podia se defender tomando carona na ciranda financeira (ou seja, comprando e vendendo papéis do governo, ou mesmo investindo em ações na Bolsa de Valores), tirava benefícios do crescimento econômico, apesar do aumento da inflação, e, num país onde as leis trabalhistas protegem quem tem carteira assinada, conseguia usufruir do Estado de bem-estar tropical construindo pela era Vargas.

Na última década, a classe média tornou-se a vítima amarga da estabilidade econômica. Tornou-se a principal contribuintes na arrecadação de impostos, que aumentaram 10% em apenas quatro anos. Perdeu com a desregulamentação do mercado de trabalho, que atingiu basicamente as faixas mais altas de salário – onde ela se encontrava.

Trazidos ao país em clima de grande euforia, os novos mecanismo de gestão empresarial (promovidos pelo neoliberalismo e pela globalização) tiveram uma consequência imediata – expulsar a classe média do setor privado. Era para gerentes, auxiliadores e supervisores que se olhava quando se falava em “inchaço” no quadro de funcionários, se propunham “reestruturações” e se denunciavam “benefícios”, que a partir de então foram chamados de mordomias.

Na última década, os pobres seguiram pobres, muito pobres na verdade, mesmo que seja correto lembrar que tiveram ganhos de renda, alguns extraordinários. Foi a classe média que perdeu fôlego, tornando-se a grande vítima de uma economia que não cresce, de uma estabilidade que corta empregos e mantém os juros num patamar elevado. (…)

Após enfrentar sete anos de crescimento médio anual de 2,5% (o autor se refere ao período de governo de Fernando Henrique Cardoso, ainda não terminado no momento em que o texto foi escrito), uma parcela considerável dos 80 milhões de brasileiros que podem ser incluídos na classe média vive num estágio muito próximo do que está acontecendo hoje na Argentina. Trata-se de um percurso lento e contínuo de empobrecimento, que, embora não faça a pessoa despencar de uma classe para outro – como ocorre diariamente com milhares de argentinos -, deixa o sujeito na vizinhança da pobreza e da carência.

Nos anos 1970, a classe média dobrou de tamanho graças a uma explosão de oportunidades e a perspectivas criadas pelo “milagre econômico”. “Era uma gente em ascensão, com bons salários e empregos estáveis”, recorda Waldir Quadros. Na economia parada dos anos 1990, foram extintos cerca de 500 mil postos de trabalho nas ex-estatais (empresas estatais que foram privatizadas), e a iniciativa privada não conseguiu compensar essas perdas.

Sem o crescimento sustentado da economia, o mercado de trabalho desabou. A economista Lilian Miller, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), estima que foram eliminados 420 mil “empregos de qualidade” (isto é, empregos que exigiam qualificação profissional e muitos anos de estudo) naquela década.

Uma pesquisa do economista Marcio Pochmann, da Unicamp (Universidade de Campinas, SP), mostra que a taxa de desemprego aumentou 620% nos últimos dez anos para pessoas com mais de oito anos de instrução. Já para aqueles com instrução inferior a um ano cresceu menos, 189%. Dos 154 mil engenheiros que trabalhavam no Brasil em 1989, por exemplo, restaram apenas 137 mil – os outros viraram suco.

Os profissionais que buscavam cargos de chefia e supervisão, típicos dessa camada da população, levam hoje, em média, onze meses para encontrar uma vaga, e a um salário bem menor do que o do emprego anterior. Há cinco anos, o tempo de espera para se conseguir um novo emprego demorava metade desse tempo. (…)

Até a década de 1980, a mobilidade social era uma característica da sociedade brasileira – diz Márcio Pochmann. O país crescia, o filho estudava mais e tinha um emprego melhor do que o pai. Isso acabou. O filho de médico que também segue a carreira de Medicina precisa trabalhar hoje em quatro lugares para ter um rendimento razoável, e ainda assim não reproduz as condições de vida em que foi criado.

“O culto ao emprego era uma marca, um valor transmitido de pai para filho”, explica Jorge Mattos, professor da Fundação Getúlio Vargas e diretor da consultoria Dimensão Human Learning. “Antes se passava a vida numa mesma empresa, mas agora, com sorte, os filhos pulam de trabalho em trabalho”, diz ele. Em dez anos, mais de 1,3 milhões de jovens deixaram o país por falta de perspectiva. (…)

A conjunção de um mercado de trabalho cada vez mais enxuto com o fantasma de ficar sem salário faz a classe média aceitar cargos pera os quais está super qualificada. É o caso de pós-graduados que ganham a vida na direção de um táxi ou suando atrás de um balcão. Trata-se, porém, de uma questão de oportunidades efetivas: os empregos criados hoje em dia são piores. Numa metrópole como São Paulo, por exemplo, há 45 mil desempregados com curso superior contra 24 mil desempregados analfabetos. (…)

Além disso, com o crescimento das cidades e a favelização das moradias, todos passaram a conviver no mesmo espaço e a classe média tornou-se mais insegura, cada vez mais assustada com a violência urbana.

FONTEÉpoca, 3.1.2002
COMPARTILHE