Resumos de Livros

O quinze (1930) foi o primeiro livro de Rachel de Queiroz e acabou se tornando sua obra mais conhecida pelo público. O romance apresenta a grande seca ocorrida em 1915, vivenciada pela escritora em sua infância.

O quadro interior do sertanejo

Narrado em terceira pessoa, o romance foi escrito em linguagem simples e direta. O tempo é trabalhado de forma linear nessa obra, que apresenta a preocupação de contar uma história e penetrar na interioridade de seus personagens.

Estaria com razão a avó? Porque, de fato, Conceição talvez tivesse umas idéias; escrevia um livro sobre pedagogia, rabiscara dois sonetos, e às vezes lhe acontecia citar o Nordau ou o Renan da biblioteca do avô. Chegara até a se arriscar em leituras socialistas, e justamente dessas leituras é que lhe saíam as piores das tais idéias, estranhas e absurdas à avó. Acostumada a pensar por si, a viver isolada, criara para seu uso idéias e preconceitos próprios, às vezes largos, às vezes ousados, e que pecavam principalmente pela excessiva marca de casa.

O romance já revela a grande preocupação social da então jovem Rachel de Queiroz, sem, contudo, prescindir daquilo que a faz única: a abordagem mais psicológica que exterior de seus personagens. A autora tece um duro quadro interior do sertanejo que luta, como pode, para fugir de um destino que parece quase atávico.

Algumas reses, sem ir mais longe, começavam a babujar a poeira do panasco que ainda palhetava o chão nas clareiras da caatinga.
Outras, mais tenazes, seguiam cabisbaixas, na mesma marcha pensativa, a cauda abanando lentamente as ancas descarnadas.
Chico Bento parou. Alongou os olhos pelo horizonte cinzento. O pasto, as várzeas, a caatinga, o marmeleiral esquelético, era tudo um cinza de borralho. (…) E ao dar as costas, rumo à casa, de cabeça curvada como sob o peso do chapéu de couro, sentindo nos olhos secos pela poeira e pelo sol uma frescura desacostumada e um penoso arquejar no peito largo, murmurou desoladamente:
– Ô sorte, meu Deus! Comer cinza até cair morto de fome!

Seca e fome

Não apenas a seca, mas também a fome que a acompanha, fazem parte do pano de fundo do romance que se tornou um dos grandes representantes da chamada literatura regionalista de temática social que caracterizou um período da literatura brasileira do século XX.

A marrã se esticava mais, querendo morrer, com os olhos sanguinolentos girando, esbugalhados.
Vicente olhava, de braços cruzados, vendo a pobrezinha morrer sem resistência, só naquela aflição, naquela agonia de quem quer lutar e não pode.
(…)
Alice, a filha mais nova da casa, que se ajoelhara no chão, gritou:
– Morreu!
Vicente afastou-se e chamou o João Marreca, que de longe, a cavalo na cerca do curral, assistia à cena:
– Compadre João, leve para o curral de lá, e tire o couro.

O enredo trata dos dramas típicos do Nordeste brasileiro. Sua narrativa constrói-se a partir de dois planos que têm como ponto de interseção a personagem Conceição.

Os dois planos narrativos tratam, na verdade, de duas impossibilidades: o primeiro, da impossibilidade de continuar uma situação (de emprego); já o segundo, da impossibilidade de iniciar uma relação amorosa.

A saga de Chico Bento

O primeiro plano narrativo enfoca o drama do vaqueiro Chico Bento e de sua família que, por conta de uma grande seca, veem-se obrigados a abandonar sua terra em busca de trabalho.

Agora, ao Chico Bento, como único recurso, só restava arribar.
Sem legume, sem serviço, sem meios de nenhuma espécie, não havia de ficar morrendo de fome, enquanto a seca durasse.
Depois, o mundo é grande e no Amazonas sempre há borracha…

No caminho até Fortaleza, um filho morre envenenado e outro se perde. Chegando em Fortaleza, a família de retirantes é auxiliada por Conceição. No final do romance, Chico Bento e o que restou da família vão tentar a vida em São Paulo.

Lá se tinha ficado o Josias, na sua cova à beira da estrada, com uma cruz de dois paus amarrados, feita pelo pai. Ficou em paz. Não tinha mais que chorar de fome, estrada afora. Não tinha mais alguns anos de miséria à frente da vida, para cair depois no mesmo buraco, à sombra da mesma cruz. (…)

Nesse mesmo dia, à tarde, tomaram o trem para a cidade.
(…)
No mesmo atordoamento chegaram à Estação do Matadouro.
E sem saber como, acharam-se empolgados pela onda que descia, e se viram levados através da praça de areia, e andaram por um calçamento pedregoso, e foram jogados a um curral de arame onde uma infinidade de gente se mexia, falando, gritando, acendendo fogo.
(…)
Foi Conceição quem os descobriu, sentados pensativamente debaixo do cajueiro.

Vicente e Conceição

O segundo plano narrativo apresenta a relação afetiva entre Vicente, criador de gado de hábitos rudes, e Conceição, moça culta, prima de Vicente.

Só Conceição, com o brilho de sua graça, alumiava e floria com um encanto novo a rudeza da sua vida. (…) Só pouco a pouco foi verificando que a prima o fitava com grandes olhos de admiração e carinho; considerava-o, decerto, um ente novo e à parte; mas à parte como um animal superior e forte, ciente dessa sua força, desdenhosamente ignorante das sutilezas em que se engalfinham os outros (…) Havia de ser quase um sonho ter, por toda a vida, aquela carinhosa inteligência a acompanhá-lo. E seduzia-o mais que tudo a novidade, o gosto de desconhecido que lhe traria a conquista de Conceição (…)

Vicente e Conceição se amam, mas reconhecem que esse amor é impossível, uma vez que Vicente é o típico proprietário rural de hábitos grosseiros e pouca educação, e Conceição é a moça culta e letrada da cidade que gosta dos livros e, certamente, ambiciona mais do que arar um pedaço de terra.

Vicente a ouvia, com o pensamento distante, desagradando-lhe aquele tom indiferente e didático em que a moça se exprimia. (…)
Em vão procurou naquela moça grave e entendida do mundo, a doce namorada que dantes pasmava com a sua força, que risonhamente escutava os seus galanteios, debruçada à janela da casa-grande, cheirando o botão de rosa que ele lhe trouxera.

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