Resumos de Livros

A história se passa na década de 60, na Bahia, e começa com uma promessa. Zé do Burro pede que Santa Bárbara salve seu burro, que fora ferido por um galho de árvore. Como na cidade não havia uma igreja dedicada à santa, a promessa foi feita em um terreiro de candomblé, onde a santa ganha o nome de Iansã.

Zé do Burro, portando uma cruz nos ombros, e sua mulher, Rosa, caminham sete léguas do sertão baiano até Salvador com o intuito de pagar a promessa. Chegam a Salvador de madrugada, alojando-se nas escadarias da igreja dedicada à santa. São interpelados pelo sedutor Bonitão, que se aproveita da ingenuidade de Zé do Burro para seduzir Rosa. A mulher resiste no início, mas acaba por passar a noite com ele em um quarto de hotel.

Ao contar ao padre que a promessa fora feita em um terreiro de candomblé a Iansã, Zé é impedido de entrar na igreja. Obstinado, ele insiste em permanecer, ignorando os apelos da mulher para partirem. Zé do Burro torna-se assunto na cidade e acaba alvo de um repórter sensacionalista, que distorce os fatos e o retrata como um messias que apoia a reforma agrária.

Ao saber por Marli, uma prostituta apaixonada por Bonitão, que Rosa passara a noite com o homem, Zé começa a dar vazão à sua revolta. Já Bonitão, decidido a se livrar de Zé para poder se aproveitar de sua esposa, convence o policial, Secreta, da credibilidade da versão do jornal.

Após muita insistência, o Monsenhor tenta persuadi-lo a refazer a promessa para que possa entrar na igreja. Desacatando as considerações do eclesiástico, Zé se enfurece e termina autuado pela polícia. Recusando-se a ir detido, tenta desesperadamente entrar na igreja com a cruz para cumprir sua promessa, ao que é assassinado pelo Secreta.  Os capoeiristas, por fim, fazem entrar, sobre a cruz, seu corpo na igreja.

Contexto

Sobre o autor

Alfredo de Freitas Dias Gomes é o dramaturgo brasileiro mais traduzido e encenado em outros países. Isso se deve à sua genialidade em mesclar o retrato da cultura brasileira marginalizada, as reflexões sobre a natureza do homem, a obstinação humana, os sacrifícios e a tendência heroica da vida.

Importância do livro

Ganhador de sete importantes prêmios de dramaturgia, O Pagador de Promessas é um dos dramas mais importantes do sopro de renovação do teatro nacional, em pleno vigor nos anos 60. Aparece como uma das produções teatrais que se inscreve na onda de reativação do nacionalismo crítico, apostando na carga transformadora da cultura genuinamente brasileira. A maior contribuição da peça é levar ao palco a cisão entre cultura rural e urbana, através choques entre duas realidades incomunicáveis e contrárias. A peça é encenada em 1960 e adaptada para o cinema em 1962, conquistando a primeira indicação ao Oscar de um filme brasileiro.

Período histórico

A obra foi apresentada ao público em um período de turbulência política, poucos anos antes do início da ditadura militar. Durante o regime, Dias Gomes teve sua novela mais conhecida censurada. “Roque Santeiro” só pôde ser exibida em 1985 com o fim da ditadura.

Análise

O Pagador de Promessas traz à tona uma série de conflitos entre o Brasil rural e o urbano, muito evidente na onda de modernização que atravessava o país ao longo da década de 50 e 60. Tais conflitos, na peça, são sintetizados pelo embate entre a crença popular, o sincretismo que formou a tradição religiosa brasileira, e o dogmatismo, o ritualismo rigoroso e a burocratização da igreja.

Esse ponto ajuda a refletir sobre como todas as instâncias de poder, sejam culturais, políticas ou econômicas, se automatizaram, engessando-se no curso desse processo de modernização. Com isso, distanciaram-se cada vez mais das necessidades e demandas do povo.

Zé do Burro pode ser entendido como o espírito livre do povo simples. Sua dificuldade em se comunicar e em compreender a rejeição do padre ao sincretismo entre Iansã e Santa Bárbara, deve ser lida como representação desse hiato que se formava entre um país que se modernizava para uma nova classe média e se tornava incompreensível para os que não tinham acesso ao consumo.

Quando padre Olavo impede a entrada de Zé do Burro na igreja, Dias Gomes parece querer retratar o desamparo do povo, sobretudo da população rural. As saídas autoritárias executadas tanto pelo pároco quanto pelo poder público demonstram a inversão do papel do Estado, que deixa de auxiliar e passa a reprimir o povo, seja pela instauração de um aparelho burocrático estranho, seja pela opressão direta.

A crítica à corrupção dos meios de comunicação torna-se clara no ponto em que o autor tangencia o tema da reforma agrária, em debate à época. A abordagem sensacionalista do repórter mostra o desconhecimento e o descaso dos meios de comunicação com a questão da distribuição de terra. A obra ainda mostra como a elite coloca um sentido de subversão a essa discussão. O papel do jornal no assassinato de Zé pretende discutir a responsabilidade política da imprensa no Brasil.

Personagens

  • Zé do Burro: Homem simples, ingênuo, incompreendido e possuidor de um senso de justiça rústico e objetivo. Caminha sete léguas carregando uma cruz nos ombros ao lado da mulher para pagar uma promessa que fez à Santa Bárbara (Iansã) pela vida de Nicolau, seu burro.
  • Rosa: Mulher de Zé do Burro, é atraente e explosiva, mas não necessariamente má. Incomoda-se com a falta de malícia do marido, o que a leva a passar a noite com Bonitão. Arrepende-se do adultério e tenta resistir aos encantos do sedutor. Teme pelo marido.
  • Marli: prostituta das ruas de Salvador, Marli trabalha para sustentar Bonitão, por quem sente enorme atração e incontrolável ciúme. Descobre que Rosa passara a noite com Bonitão e revela o adultério a todos, inclusive a Zé do Burro.
  • Bonitão: Jovem sedutor, mau caráter e malicioso. Explora mulheres para que estas lhe sustentem à custa de prostituição. Seduz Rosa e, para se livrar de Zé do Burro, arma a sua prisão.
  • Padre Olavo: Jovem pároco, enérgico e intransigente. Segue à risca os ditames da liturgia católica. Ao saber que Zé do Burro fez uma promessa à Santa Bárbara em um ritual de candomblé, proíbe sua entrada na igreja. Arrepende-se do fim trágico de sua intolerância.
  • Minha Tia: Típica baiana vendedora de iguarias em praça pública. Tenta convencer Zé do Burro a pagar a promessa em um terreiro de candomblé. Sente o perigo que ronda Zé.
  • Repórter: Homem sensacionalista, preocupado com a exclusividade da cobertura do caso de Zé do Burro. Vale-se da exploração do caso para atacar a igreja, distorcendo as declarações de Zé do Burro, tachando-o “subversivo”. Desconfia de intenções políticas de Zé.
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