Resumos de Livros

Uma das inovações praticadas por Oswald de Andrade em Memórias Sentimentais de João Miramar é a extensão dos capítulos do livro, extremamente curtos. Funcionam como retalhos do passado do narrador, cuja memória é acionada de forma fragmentada.

João Miramar pertence a uma rica família burguesa. Sua infância é marcada pela morte do pai. Miramar estuda em bons colégios de São Paulo e, depois de se formar, parte para uma longa viagem de conhecimento e amadurecimento, passando por Tenerife, França, Alemanha, Itália, Suíça e Inglaterra. Neste último país recebe um dinheiro extra, enviado pela família, que solicita seu rápido retorno ao Brasil. O jovem deve voltar ao país para assumir suas responsabilidades de herdeiro e de homem adulto.

Ao chegar, toma conhecimento da morte da mãe – o que completa sua condição de órfão. Recebe a herança que lhe é devida e se casa com a prima Célia, estratégia usual naquela época para manter o controle financeiro em mãos familiares. Viaja ao Rio de Janeiro com a esposa, que tenta arrastá-lo a uma convivência mais estreita com a gente refinada do lugar. A tentativa é inútil, porque desde logo Miramar desenvolve um espírito rebelde às convenções.

O casal retorna a São Paulo e acompanha com apreensão o desenrolar da guerra europeia, principalmente em função da convocação de Pantico, primo e amigo de Miramar. Ao mesmo tempo, Miramar parte para uma viagem de contato com suas raízes familiares, conhecendo as terras onde seu pai tinha sido criado.

Miramar conhece a atriz Mademoiselle Rolah, que se torna sua amante. Influenciado por ela, torna-se produtor cinematográfico, mas consegue apenas criar fitas de segunda categoria. Enquanto isso, retoma o contato com José Chelinini, companheiro de estudos. O amigo tenta seduzir a sogra e as cunhadas de Miramar, que conhece durante uma viagem.

O relacionamento de Miramar e Célia não vai bem. Ele suspeita do envolvimento da esposa com seu amigo Pepe, enquanto ela reforça suas desconfianças a respeito da relação do marido com Rolah. O desenlace da crise matrimonial conduz ao divórcio. Para piorar a maré de azar de Miramar, seus negócios não vão bem e ele decreta falência. Depois disso, é abandonado por Rolah. Miramar passa então a trabalhar em um jornal, enfrentando sérias dificuldades financeiras.

Depois da morte de Célia, a filha do casal, Celiazinha, reaproxima-se do pai.

Contexto

Sobre o autor

Mário e Oswald de Andrade formaram a dupla de liderança do Modernismo no Brasil, responsável pela introdução das novas propostas artísticas das vanguardas europeias. Tão preocupados com o estabelecimento de um projeto cultural genuinamente brasileiro quanto com a recepção e adaptação das ideias vanguardistas, produziram obras que tinham como objetivo traduzir as tradições nacionais em registro inovador.

Importância do livro

Memórias Sentimentais de João Miramar, publicado em 1924, é tão importante para a literatura brasileira quanto Macunaíma, de Mário de Andrade, publicado alguns anos depois. Nos dois casos, nota-se o esforço de renovação da ficção brasileira, tanto na abordagem do assunto quanto em sua expressão verbal. Obra de leitura exigente,Memórias Sentimentais representa um dos pontos altos do radicalismo oswaldiano.

Período

Logo depois da Semana de Arte Moderna de 1922, algumas posturas vanguardistas se acentuaram. Oswald de Andrade conduziu sua obra de tal forma a realçar o que havia de mais avançado nas propostas modernistas.

Análise

O romance Memórias Sentimentais de João Miramar representa a primeira tentativa de construção do romance moderno no Brasil. Inserido no projeto modernista, busca desconstruir as bases da forma tradicional da narrativa de ficção. Esse exercício de demolição começa já no prefácio, ele próprio parte da ficção, já que vem assinado por Machado Penumbra, personagem do livro. Ao final do volume, a informação a respeito do local e data da produção da narrativa é mais um elemento de ficção: “Sestri Levante – Hotel Miramare, 1923”.

A história de vida de João Miramar não possui nada de extraordinário. Trata-se de algo proposital, para realçar a banalidade da vida burguesa. Uma comparação ligeira com o romance Macunaíma, de Mário de Andrade, por exemplo, evidencia ainda mais a linha corriqueira seguida pela biografia do protagonista. No entanto, o que mais importa aqui é a maneira de contar a história.

Os capítulos extremamente curtos (microcapítulos ou “flashes”) servem para fragmentar a narrativa, sujeita aos movimentos da memória do narrador. O capítulo 75 “Natal”, por exemplo, é composto por apenas uma frase: “Minha sogra ficou avó”.

A fragmentação do enredo parece ser a realização formal da personalidade do narrador repartida em inúmeros papéis, bem como um retrato de sua existência conduzido pelos acontecimentos mais que por vontade própria. Essa personalidade plural se manifesta também na mistura de registros presente em muitos trechos: “Napoleão que era um grande guerreiro que Maria da Glória conheceu em Pernambuco disse que o dia mais feliz da vida dele foi o dia em que fiz a minha primeira comunhão” [cap. 7, “Felicidade”]. Note-se que uma referência histórica universal – Napoleão – mistura-se a um dado pessoal – “minha primeira comunhão”.

Parte dessa escrita pluralizada se deve à ruptura das fronteiras entre prosa e poesia. A aproximação dos dois gêneros se dá de diversas maneiras. Algumas mais evidentes, como o fato de alguns capítulos do livro serem escritos em versos, o capítulo 74, “Sal O May”, é uma exemplo. Outras, mais sutis, como o trabalho com comparações surpreendentes: “Destinos calmos como vacas quietavam nos campos de sol parado”. E efeitos sonoros: “o grilo / Triste tris-tris-triste”.

A linguagem do romance acompanha as novidades das vanguardas, com o uso frequente de neologismos e estrangeirismos, como “norteamericanizava” e “guardanapavam”. Nota-se ainda a ausência de pontuação regular.

O eixo central da narrativa é a crítica à burguesia. A sucessão de viagens sugere uma riqueza que está longe de se manifestar no plano cultural. Quando, por exemplo, a sogra de Miramar escreve ao Brasil, revela: “Vi a Vênus de Milo. Tirei o Pantico do colégio porque um padre deu um tapa nele”. Aqui, uma expressão artística – Vênus de Milo – se mistura a uma informação de caráter familiar.

Personagens

  • João Miramar: narrador-protagonista, o jovem rico viaja pelo mundo em busca de conhecimento. Precisa voltar ao Brasil para assumir os negócios da família. Casa-se com a prima, Célia, mas vive um romance com Mademoiselle Rolah.
  • Célia: prima e esposa de Miramar. Desconfia das traições do marido, assim como ele desconfia da infidelidade dela. O casamento acaba em divórcio.
  • Celiazinha: filha de Miramar, reaproxima-se do pai depois que a mãe morre.
  • Mademoiselle Rolah: atriz e amante de Miramar, convence-o a investir no mercado de produção de filmes.
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