Resumos de Livros

Vestida de preto

Juca, o narrador, rememora no conto Vestida de Preto a aventura amorosa experimentada com a prima Maria durante a infância, a emoção do primeiro beijo e as brincadeiras nas quais figuravam de casal. Durante a adolescência, ocorre um esfriamento na relação entre eles, já que Juca se torna mau aluno e Maria se afasta.

Aos poucos, a situação se modifica: o rapaz passa a se dedicar aos estudos, enquanto a moça ganha fama de namoradeira. Por fim, casa-se com um diplomata rico e se muda para a Europa. A mãe de Maria reclama com Juca, dizendo que a culpa do afastamento da filha é dele, que nunca correspondeu ao seu amor. Juca se dá conta então que sempre amou a prima, buscando-a em seus amores inconstantes. Maria retorna ao Brasil e Juca vai visitá-la. O reencontro lhe devolve as antigas sensações mas, percebendo que a prima desperta nele “os instintos da perfeição”, limita-se a uma conversa rápida e a uma despedida seca.

O ladrão

A perseguição a um ladrão provoca correria pelas ruas de um bairro operário, envolvendo policiais e moradores. O conto apresenta uma sucessão de pequenos episódios: homens corajosos que entram nas casas; outros, mais temerosos, que, alegando ter família, afastam-se do local; policial que flerta com uma moradora, bela mulher que, segundo boatos, recebia homens em sua casa durante as constantes ausências do marido; alguns rapazes que discutem com uma moça, acusando-a de dar um alarme falso sobre o ladrão; um violinista que se aproxima, toca uma valsa e é aplaudido. Aos poucos, os grupos se dispersam, restando apenas alguns reunidos no ponto do bonde.

Primeiro de maio

Na celebração do Dia do Trabalho, o carregador de malas 35, que trabalha na Estação da Luz (ferroviária paulistana), resolve se dar o luxo de faltar ao trabalho. É uma manhã de sol e 35 se barbeia, veste uma roupa bonita e sai de sua casa. Sem se dar conta, acaba tomando o rumo costumeiro do trabalho. No caminho, nota a cidade tomada por policiais. Chega à Estação e zomba de alguns companheiros que preferem trabalhar ao invés de comemorar.

Descansa em um banco de praça, um pouco distante dali, envergonhado de ficar à vista dos colegas. Almoça na casa da mãe e retoma seu dia de passeio. Dirige-se ao Palácio das Indústrias, onde uma comemoração oficial está sendo preparada. Continua a reparar na quantidade de policiais nas ruas. Alguns deles dispersam qualquer ajuntamento, enquanto homens de terno insistem para que todos entrem no Palácio. O 35 resolve desobedecer a ordem e se afasta. Acaba retornando à Estação, onde auxilia um velho companheiro a carregar as malas.

Atrás da catedral de Ruão

Quarentona e virgem, Mademoiselle serve como dama de companhia para algumas mocinhas ricas, cujos pais se separaram. Conta com a confiança da mãe das meninas, D. Lúcia, que permite que a mulher as acompanhe em festas. Um dia, as meninas lhe contam o episódio que haviam presenciado atrás da catedral francesa de Ruão, onde avistaram um homem em atitude suspeita. Perturbada com o relato, Mademoiselle, entre o temor e o desejo, passa a dirigir seus caminhos de tal maneira a passar por trás de toda catedral de São Paulo depois que sai do trabalho e se dirige ao hotel onde se hospeda.

Em uma ocasião, sente-se perseguida por dois homens após passar por trás da Igreja de Santa Cecília. Chega a delirar que eles a atacam com violência. No entanto, eles sequer se aproximam, apenas, por coincidência, fazem o mesmo trajeto. Quando chega à frente de seu hotel, Mademoiselle os espera e lhes dá uma moeda, agradecendo pela companhia.

O poço

Alguns homens, trabalhando debaixo de chuva a serviço do fazendeiro Joaquim Prestes, constroem um poço em um pesqueiro na beira do rio Mogi. Examinando o trabalho, o fazendeiro deixa cair uma caneta no poço e ordena aos homens que a busquem. A terra é mole, o frio é intenso e a missão difícil e arriscada. O fazendeiro, no entanto, exige o cumprimento da ordem.

Albino, mais magro, obedece, para preocupação de seu irmão José, temeroso de um desmoronamento de terra na boca do poço. Diante dos perigos, José impede o irmão de continuar as buscas e elas são adiadas para um dia de tempo melhor. O fazendeiro se revolta e vai embora. Dois dias depois, a caneta é encontrada e entregue, bem limpa. Observando-a, o proprietário repara em alguns riscos. Lança um palavrão e joga-a no lixo, pegando outra de uma coleção na qual figuravam algumas de ouro.

O peru de natal

O narrador, Juca, mora com a mãe viúva, uma irmã mais velha e a tia. O pai sempre foi avesso a festas e agora a família aproveita o primeiro Natal sem ele, celebração conseguida por Juca depois de vencer a resistência das três mulheres que o criaram.

Durante o jantar, Juca faz questão de preparar os pratos das três antes do seu, contrariando um antigo costume familiar. O gesto arranca lágrimas das mulheres. No choro, todos se recordam do ausente. E Juca percebe a instalação de uma luta entre o peru e o morto. Na tentativa de reanimá-las, ele mente, afirmando que o pai preferiria a alegria. Depois de conseguir algum resultado, o rapaz parte, alegando ir a uma festa de amigos. Pisca para a mãe, que sabe que ele vai encontro da namorada Rose.

Frederico Paciência

Mais uma vez o narrador é Juca. No conto, Juca relata um episódio, ocorrido na adolescência, envolvendo seu melhor amigo, Frederico Paciência. Moravam então próximos um do outro e faziam juntos parte do trajeto da escola para a casa. Aos poucos, a ligação entre eles se estreita. Frederico é de família rica e Juca sente certo embaraço diante da própria pobreza. A amizade entre eles desperta comentários entre os colegas. Um deles é agredido por Frederico e posteriormente por Juca. Gestos mais expansivos, como um beijo no rosto trocado entre eles, são reservados para momentos mais discretos, para evitar falatório.

No fim da adolescência, ambos conhecem o sexo e o interesse pelas mulheres. É quando Juca começa o namoro com Rose. Com a morte do marido, a mãe de Frederico resolve mudar-se para o Rio de Janeiro e os amigos se separam. Trocam cartas, que, com o tempo, são menos frequentes. Quando morre a mãe de Frederico e a família o impede de viajar ao Rio, Juca fica intimamente feliz, por não saber ainda o que fazer com aquela amizade.

Nelson

Em um bar, alguns amigos conversam. De repente, entra um sujeito estranho que passa a ser alvo dos comentários do grupo. Um deles, Alfredo, afirma conhecer toda a sua história. Trata-se de um ex-fazendeiro do Mato Grosso. Certa vez, durante uma visita ao Paraguai, trouxe consigo a mulher com quem se casou. A esposa não se sentia feliz no Brasil e o fazendeiro lhe comprava revistas para que se distraísse.

Os amigos percebem que o homem esconde uma das mãos sob a mesa e ficam curiosos a respeito disso. Outro deles revela saber o segredo: o sujeito tem uma cicatriz horrível na mão por ter perdido o polegar e parte do braço em um ataque de piranhas. Segundo a versão apresentada, o ataque ocorreu porque o rapaz se escondeu sob os tapumes de um cais durante uma das perseguições à Coluna Prestes, da qual fazia parte.

Alfredo retoma a narrativa da história do desconhecido. Um dia, a paraguaia resolveu voltar ao seu país de origem e não houve meio de fazê-la desistir. Depois que ela se retirou, ele encontrou sobre a cama um livro em castelhano contando a história da Guerra do Paraguai, o texto continha ataques à política brasileira. O homem se retira do bar e segue em direção à sua casa. Diante dela, espera até que tudo fique deserto e entra, dando três voltas à chave.

Tempo da camisolinha

Dessa vez o narrador, Juca, resgata um episódio da infância, quando foi submetido a um corte de cabelos e perdeu os cachos de que tanto gostava. Em uma foto, aparece com a camisolinha, roupa infantil com a qual a mãe insistia em vesti-lo aos quatro anos de idade.

A família passava todas as férias na praia, em busca de clima favorável para a saúde frágil do irmão mais velho e da mãe. Em uma dessas viagens, Juca convive com operários que trabalham na construção de um canal e com os pescadores em sua lida diária. Um destes se aproxima e lhe entrega duas estrelas-do-mar, dizendo que trariam boa sorte. Alguns dias depois, percebe a tristeza no rosto de um dos operários e lhe pergunta a razão para tal sentimento. Quando o homem revela ser vítima de “má sorte”, Juca corre até a casa e apanha a maior das estrelas-do-mar, entregando-a ao operário.

Contexto

Sobre o autor

Mário de Andrade foi o principal líder do movimento modernista brasileiro, que começou com a Semana de Arte Moderna de 1922. Soube unir as influências das vanguardas européias à construção de um projeto de cultura nacional, buscando, assim, modernizar a arte brasileira e romper com a tradição literária, aplicando novos princípios estéticos à expressão de nossa realidade.

Importância do livro

Mário de Andrade foi um polígrafo, isto é, praticou diversos gêneros literários, entre eles a poesia, a crônica, o romance e o conto. Neste último, destaca-se o livro Contos Novos, no qual o escritor alcançou resultados excelentes, com alguns contos realmente antológicos, como “Primeiro de Maio” e “O peru de Natal”.

Período histórico

A coletânea de Contos Novos traz textos escritos pelo autor ao longo de toda a sua vida. O livro traz desde os primeiros momentos modernistas, movidos pelo entusiasmo do contato com as vanguardas europeias  até a maturidade, que dotou o escritor de uma expressão mais contida, passando pela marca nacionalista e pela perspectiva crítica.

Análise

O livro é uma síntese dos principais traços do estilo do autor: oralidade, linguagem simples e livre, referências pessoais mais ou menos explícitas, temática do trabalho e da solidão.

As narrativas de Contos novos podem ser divididas em dois grandes grupos, de acordo com o foco narrativo. Assim, temos quatro contos narrados em primeira pessoa (“Vestida de preto”, “O peru de natal”, “Frederico Paciência” e “Tempo da camisolinha”) e cinco em terceira (“O ladrão”, “Primeiro de maio”, “Atrás da Catedral de Ruão”, “O poço” e “Nelson”).

O traço comum aos contos narrados em primeira pessoa é a presença de um mesmo narrador, Juca. Sua personalidade é formada a partir de experiências marcantes de rejeição e luta contra a repressão. Das primeiras, destaca-se a relação adolescente com a prima Maria de “Vestida de preto”. Das segundas, mais marcantes, os exemplos se sucedem. Entre as imagens da repressão, ganha destaque a figura paterna, que aparece em “Tempo da camisolinha” obrigando o narrador a podar as madeixas – alegoria simples da castração.

Em “Peru de natal”, o pai, já morto, ainda representa a instância capaz de anular a celebração e a liberdade. A fama de louco que Juca adquire com o tempo é uma reação ao rigor familiar e superá-lo representa a deglutição paterna de que trata Freud.

A oposição entre prazer e repressão, no entanto, nem sempre tem final feliz: a relação com Frederico Paciência termina sem conclusão e sem nome porque as barreiras sociais e psicológicas são fortes demais para Juca. Mas o desejo de libertação pode também ter fornecido as bases para a estética não convencional que o narrador manifesta nos contos em sua linguagem marcada pela oralidade.

Nos contos narrados em terceira pessoa, duas imagens sobressaem: de um lado, a solidão; de outro, a solidariedade. Solitário é Nelson, do conto homônimo, cuja identidade se limita ao título, já que no corpo da narrativa ele não tem nome e nem sequer uma história precisa. Sua condição se acentua no interesse sádico e desrespeitoso demonstrado pelos rapazes que comentam sua vida, tão passageiro quanto a comunhão provocada pela correria de “O ladrão”, depois da qual cada morador retorna ao seu insulamento, reforçando a solidão. Note-se, aliás, que neste último conto o ladrão que lhe dá título não é sequer visto – marca de uma marginalização contundente. Solitária é ainda a Mademoiselle de “Atrás da Catedral de Ruão”, envolvida em suas fantasias sexuais e seus desejos contidos.

Por outro lado, a solidariedade se manifesta no universo do trabalho na união dos empregados de “O poço”, que enfrentam o fazendeiro – imagem acabada do autoritarismo paternalista e do desprezo elitista pela vida humana. E também na trajetória de 35, o protagonista de “Primeiro de maio” que faz da celebração da data uma forma de oposição ao oficialismo – demarcado no conto pela presença de policiais pelas ruas de São Paulo, representativa da opressão da ditadura Vargas. O 35 busca escapar, assim, de um trabalho alienante para o qual a única saída parece ser a solidariedade, evidente em seu gesto final de auxílio ao colega idoso.

Personagens

  • Juca: presente em vários contos na condição de narrador, parece funcionar como alter-ego do autor.
  • 35: o protagonista sem nome de “Primeiro de maio”, símbolo da festa e da solidariedade que se opõem ao estado repressivo.
  • Frederico Paciência: personagem do conto homônimo, síntese das tentativas de vencer as barreiras impostas pelo superego.
  • Nelson: personagem do conto homônimo, figuração da solidão.
  • Mademoiselle: personagem de “Atrás da Catedral de Ruão”, figuração do desejo sexual reprimido.
  • Trabalhadores: presentes em “O poço”, “Tempo da camisolinha” e “Primeiro de maio”, evidenciam a perspectiva social da literatura modernista.
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