Resumos de Livros

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) é o maior poeta brasileiro deste século e um dos maiores de todos os tempos em língua portuguesa, ao lado de Camões e Pessoa, poetas que parodiou e homenageou mais de uma vez, como em “A Máquina do Mundo” e “Sonetilho do Falso Fernando Pessoa” (ambos poemas de seu livro “Claro Enigma”).

Drummond é um marco inicial da segunda geração modernista, a que se projetou a partir dos anos 30. No quadro geral de nosso modernismo, porém, Drummond avulta como um dos maiores inventores e mestres, como o autor que melhor assimilou e depurou o espírito da Semana de 22, que foi a principal matriz de sua poesia, pelo menos até os anos 60, quando ele já era um “clássico” e um modelo para novos autores.

Alguma Poesia (1930) é o primeiro livro de Drummond e reúne sua produção em verso desde 1925. Alguns de seus 49 poemas já haviam sido publicados anteriormente, em revistas da época. O mais famoso deles, “No Meio do Caminho”, estreou em 1928 na “Revista de Antropofagia” e provocou escândalos que hoje parecem inverossímeis. Drummond acompanhou atentamente a “biografia” de seu poema, selecionando e publicando mais tarde, em livro, as críticas e as tentativas de interpretação da imagem da “pedra no meio do caminho”. É impossível resumir a repercussão desse poema, que foi traduzido em muitas línguas e se tornou um símbolo não só da poesia de Drummond mas de toda a “fase heróica” do modernismo.

Expressão do impasse, um dos maiores temas do poeta de “José”, a “pedra no caminho” entrou na fala e na música popular: basta ouvir Tom Jobim e os versos iniciais de “Águas de Março” e “Retrato em Branco e Preto”.
Também é célebre o “Poema de Sete Faces”, que abre o livro, com sete estrofes que parecem desconexas, numa montagem como a da pintura cubista. Ele é um modelo do estilo joco-sério de Drummond: “Mundo mundo vasto mundo/ se eu me chamasse Raimundo/ seria uma rima, não seria uma solução”. Essa dicção ao mesmo tempo leve e grave existe até nos poemas-piada do livro, como em “Cidadezinha Qualquer”, “Anedota Búlgara” e “Quadrilha”. Este último (“João amava Teresa que amava Raimundo…”) faz uma crítica à sociedade burguesa. Nele, o “amor natural” se opõe ao casamento burguês (o de Lili e J. Pinto Fernandes, único nomeado pelos sobrenomes).

Em “Europa, França e Bahia”, esse espírito de crítica e engajamento social, que se intensificou na obra posterior do poeta, se mostra mais claramente. E há ainda muito mais em Alguma Poesia. Como disse José Guilherme Merquior, o título do primeiro livro de Drummond impressiona pela sua modéstia.

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