Resumos de Livros

O livro A Educação pela Pedra, apesar de apresentar-se tematicamente disperso (uma série de poemas aparentemente desconexos e de assuntos diversos), apresenta uma unidade estrutural marcante, crucial para sua compreensão. Cabral vale-se da recorrência do número dois e seus múltiplos, dividindo os poemas em quatro séries: Nordeste (a), Não-Nordeste (b), Nordeste (A) e Não-Nordeste (B). Os poemas que não versavam sobre o Nordeste, tratavam da experiência do autor na Espanha.

Cada uma das séries é composta por 12 poemas, totalizando 48 poemas, de duas estrofes cada. O número de versos alterna-se, contendo as séries (A) e (B) 24 versos, enquanto (a) e (b) apresentam 16 versos. Divididos dessa maneira, impressionam pelo cálculo e destreza de antemão planejados pelo poeta.

Ao longo de toda a obra, a retomada de versos por outros poemas causa grande impacto. A reestruturação e o jogo de antagonismos desmascaram os sentidos habituais articulados às expressões, acontecimentos e elementos atualizados no dia a dia, como ocorre em “O mar e o canavial” / “O canavial e o mar”, “Comendadores jantando”/ “Duas faces do jantar dos comendadores”, “Nas covas de Baza”/ “Nas covas de Guadix” e “Coisas de cabeceira, Recife”/ “Coisas de cabeceira, Sevilha”.

A dualidade semântica está diretamente ligada à dualidade ornamental da estrutura do poema, que parece se repetir e se reconfigurar. Toda a composição dos versos, estrofes e esquemas de significados são tirados de materiais ordinários, “antipoéticos”, como urubus, feijões, hospitais e moléstias.

Contexto

Sobre o autor

João Cabral de Melo Neto figura como um dos mais importantes pensadores do fazer poético. Preocupado em demonstrar o lirismo abundante nas formas tidas como prosaicas e banais, alcança, como poucos, impressionantes versos em que extrapola o significado corriqueiro de fatos e objetos, apresentando novos sentidos.

Importância do livro

O poema que dá título ao livro de João Cabral de Melo Neto pode ser lido como resumo da trajetória literária do poeta. A relevância se dá por serem os temas e a forma expressões de sua concepção do que deve ser o trabalho poético: tarefa árdua com seu material (a palavra escrita), destituída a primazia do sentimentalismo, e atenção à correspondência entre objeto e designação. Sua composição estrutural é significativa.

Período histórico

O livro de poemas A Educação pela Pedra foi publicado em 1966, um período conturbado da história política brasileira. O poeta foi consagrado com o Prêmio Jabuti pelo poema que dá nome ao livro.

Análise

O livro A Educação pela Pedra pode ser analisado tomando como pontos centrais de tensão três temas recorrentes que se fundem numa só forma e se colocam de maneiras distintas à medida que o poema avança. A saber: crítica à visão idealizada do homem sertanejo e de seu lugar; denúncia das formas desgastadas da poesia sentimentalista e da hipervalorização da subjetividade; e tentativa de mostrar a poeticidade que ainda se esconde por trás do sentido dos dados mais triviais, muitas vezes até mesmo os considerados asquerosos.

Em primeiro lugar, em poemas como “A fumaça no sertão”, Cabral mostra como a imagem romântica de um sertão conflitante, misterioso e lírico está longe de corresponder a um conhecimento verdadeiro das incoerências do lugar e das mazelas pelas quais passa o sertanejo. O homem do sertão pertence a um espaço em que não se pode aprender a pedra, mas onde a própria pedra se aloja na alma do sujeito.

E é esse incômodo, essa realidade às vezes repugnante às vezes encantadora, que deve figurar ao mesmo tempo nos versos do poeta. A contradição na temática sertão versus metrópole, recorrente em muitos poemas de A Educação pela Pedra, convém para reforçar a insistência no resgate da dimensão concreta, crua e direta da realidade. Serve também como metáfora empregada para distinguir uma versificação “fluida”, que se deixa abandonar em estruturas “batidas”, visões incontestadas, resistentes a uma poesia de “pedra”. Ou seja, uma poesia de imagens duras, tanto nos temas quantos na escolha das palavras.

São essas poesias de grãos, por fim, que permitem a surpresa, permitem procurar, descobrir ou mesmo inventar novos sentidos às palavras que, talvez antes, sequer merecessem figurar dentre os versos de um poema. Tais poesias buscam refletir, claramente, o fundo filosófico por trás dos seus versos, dando valor à experiência e ao aprendizado difícil – pelo contato, pelo atrito, pela visão e pelo sentido – , que é muito mais completo que qualquer abstração.

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