Composição do período

1. Tomemos o seguinte período de Goulart de Andrade:

Sopra o vento, o Sol vem, crestam-se as rosas…

Vemos que ele é composto de três orações:

1ª = Sopra o vento,
2ª = o Sol vem,
3ª = crestam-se as rosas…

Vemos, ainda, que as três orações são da mesma natureza, pois:

  • são autônomas, independentes,, isto é, cada uma tem sentido próprio;
  • não funcionam como termos de outra oração, nem a eles se referem: apenas uma pode enriquecer com o seu sentido a totalidade da outra.

Às orações autônomas dá-se o nome de coordenadas, e o período por elas formado diz-se composto por coordenação.

2. Examinemos agora este período de Jorge Amado:

Eles mesmos não sabem que no madeirame dos navios, nas velas rotas dos saveiros está a terra de Aiocá, onde Janaína é princesa.

Aqui, também, estamos diante de um período de três orações:

1ª = Eles mesmos não sabem
2ª = que no madeirame dos navios, nas velas rotas dos saveiros está a terra de Aiocá
3ª = onde Janaína é princesa.

Mas a sua estrutura é diferente da do anterior, pois:

  • a primeira oração contém a declaração principal do período, rege-se por si, e não desempenha nenhuma função sintática em outra oração do período; chama-se, por isso, oração principal;
  • a segunda oração tem sua existência dependente da primeira, de cujo verbo é objeto direto; funciona, assim, como termo integrante dela;
  • a terceira oração tem a sua existência dependente da segunda, de cujo sujeito é adjunto adnominal; funciona, por conseguinte, como termo acessório dela.

As orações sem autonomia gramatical, isto é, as orações que funcionam como termos essenciais, integrantes ou acessórios de outra oração chamam-se subordinadas.

O período constituído de orações subordinadas e uma oração principal denomina-se composto por subordinação.

3. Vejamos, por fim, este período de Guimarães Rosa:

Moleque Nicanor arregalou os olhos, e eu pensei que ia ouvir as pancadas do seu coração.

Ainda aqui temos um período composto de três orações:

1ª = Moleque Nicanor arregalou os olhos,
2ª = e eu pensei
3ª = que ia ouvir as pancadas do seu coração.

A sua estrutura é, porém, distinta das duas que examinamos, ou melhor, é uma espécie de combinação delas, pois:

  • as duas primeiras orações são coordenadas (a primeira é coordenada assindética; e a segunda, coordenada sindética aditiva);
  • a última é subordinada, uma vez que funciona como objeto direto da oração anterior.

O período que apresenta orações coordenadas e subordinadas diz-se composto por coordenação e subordinação.

Conclusão

Na análise de um período composto, cumpre ter em mente que:

  • a oração principal não exerce nenhuma função sintática em outra oração do período;
  • a oração subordinada desempenha sempre uma função sintática (sujeitoobjeto direto, objeto indireto, predicativo, complemento nominal, agente da passiva, adjunto adnominal, adjunto adverbial ou aposto) em outra oração, pois que dela é um termo ou parte de um termo;
  • a oração coordenada, como a principal, nunca é termo de outra oração nem a ela se refere; pode relacionar-se com outra coordenada, mas em sua integridade.

Coordenação

Orações coordenadas sindéticas e assindéticas

As orações coordenadas podem estar:

  • simplesmente justapostas, isto é, colocadas uma ao lado da outra, sem qualquer conectivo que as enlace, como neste passo de Machado de Assis:

Os anos vieram, / o menino crescia, / as esperanças maternas de d. Carmo iam morrendo.

  • ligadas por uma conjunção coordenativa, como neste exemplo do mesmo escritor:

Tudo se afirmou de parte a parte, / mas nem tudo se cumpriu.

No primeiro caso, dizemos que a oração coordenada é sindética, ou seja, desprovida de conectivo. No segundo, dizemos que ela é sindética, e a esta denominação acrescentamos a da espécie da conjunção coordenativa que a inicia.

Orações coordenadas sindéticas

Classificam-se, pois, as orações coordenadas sindéticas em:

1. coordenada sindética aditiva, se a conjunção é aditiva:

Ele descia a ladeira / e vinha só. / (R. de Queirós)

2. coordenada sindética adversativa, se a conjunção é adversativa:

Custou, / mas acertou. / (M. de Assis)

3. coordenada sindética alternativa, se a conjunção é alternativa:

O bode tinha descido com o senhor / ou tinha ficado na ribanceira? / (G. Ramos)

4. coordenada sindética conclusiva, se a conjunção é conclusiva:

Queria casar a filha, bem ao gosto dela, / não punha, portanto, nenhum obstáculo ao programa de Olga. (L. Barreto)

5. coordenada sindética explicativa, se a conjunção é explicativa:

Não é excessivo o seu zelo, / porque é de amigo. / (A. Peixoto)

Subordinação

A oração subordinada como termo de outra oração

Dissemos que as orações subordinadas funcionam sempre como termos essenciais, integrantes ou acessórios de outra oração. Esclareçamos melhor tais equivalências.

1. No seguinte exemplo:

É necessária a tua vinda urgente.

O sujeito da oração é a tua vinda urgente, termo essencial, cujo núcleo é o substantivo vinda. Mas, em lugar dessa construção com base no substantivo vinda, poderíamos dizer:

É necessário que venhas urgente.

O sujeito seria, então, que venhas urgente, termo essencial representado por uma oração.

2. Neste exemplo de Jorge Amado:

Mas quem adivinha a vinda de um jararacuçu-apaga-fogo?

O objeto direto de adivinha é a vinda de um jararacuçu-apaga-fogo, termo integrante, cujo núcleo é o substantivo vinda.

Em vez dessa construção nominal, poderíamos ter dito:

Mas quem adivinha que virá um jararacuçu-apaga-fogo?

Com isso, o objeto direto de adivinha passaria a ser que virá um jararacuçu-apaga-fogo, termo integrante representado por uma oração.

3. Neste exemplo de Machado de Assis:

Senhor, não desaprendi as lições recebidas.

O adjunto adnominal, termo acessório, está expresso pelo adjetivo recebidas. Mas, se quisesse, o autor poderia ter substituído o adjetivo recebidas por que recebi.

Senhor, não desaprendi as lições que recebi.

Teríamos, neste caso, como adjunto adnominal de lições a oração que recebi. Por outras palavras: teríamos um termo acessório representado por uma oração.

4. Neste período de José de Alencar:

Caubi saiu para ir à sua cabana, que ainda não tinha visto depois da volta.

São três os adjuntos adverbiais (termos acessórios) da segunda oração:

  • ainda — adjunto adverbial de tempo;
  • não — adjunto adverbial de negação;
  • depois da volta — adjunto adverbial de tempo.

Mas, em vez da expressão adverbial de tempo depois da volta, poderíamos ter empregado uma oração — depois que voltara:

Caubi saiu para ir à sua cabana, que ainda não tinha visto depois que voltara.

Depois que voltara, adjunto adverbial de tinha visto, é, pois, um termo acessório representado por uma oração.

5. Do que dissemos uma conclusão se impõe: o período composto por subordinação é, na essência, equivalente a um período simples. Distingue-os apenas o fato de os termos (essenciais, integrantes e acessórios) deste serem representados naquele por orações.

Classificação das orações subordinadas

As orações subordinadas classificam-se em substantivas, adjetivasadverbiais, porque as funções que desempenham são comparáveis às exercidas por substantivos, adjetivos e advérbios.

Orações subordinadas substantivas

As orações subordinadas substantivas vêm normalmente introduzidas pela conjunção integrante que (às vezes, por se), podendo, no entanto, ser iniciadas por pronome indefinido, pronome ou advérbio interrogativo.

Segundo o seu valor sintático, podem ser:

1. subjetivas, se exercem a função de sujeito:

É provável / que ela case outra vez. / (M. de Assis)

2. objetivas diretas, se exercem a função do objeto direto:

Perguntam-me / se ainda me lembro de Cordeiro. (M. Mota)

3. objetivas indiretas, se exercem a função de objeto indireto:

Desconfiei / de que você armava um plano qualquer… / (M. Palmério)

4. completivas nominais, se exercem a função de complemento nominal:

Dai-me a certeza / de que eu devo ousá-lo./ (M. Bandeira)

5. predicativas, se exercem a função de predicativo:

A única particularidade da biografia de Fidélia é / que o pai e o sogro eram inimigos políticos. (M. de Assis)

6. apositivas, se exercem a função de aposto:

É preciso que o pecador reconheça ao menos isto: / que a Moral católica está certa / e é irrepreensível./ (O. L. Resende)

7. agentes da passiva, quando exercem a função de agente da passiva:

— As ordens são dadas/ por quem pode. / (F. Namora)

Observação

As orações subordinadas substantivas que desempenham a função de agente da passiva iniciam-se por pronomes indefinidos (quem, quantos,qualquer, etc.) precedidos de uma das preposições por ou de:

O cargo foi ocupado / por quem realmente merecia /
Pela sua bondade ela é estimada / de quantos a conhecem. /

Omissão da integrante que

Depois de certos verbos que exprimem uma ordem, um desejo ou uma súplica, pode-se omitir a integrante que:

Queira Deus / Não voltes mais triste. (M. Bandeira)

Orações subordinadas adjetivas

1. As orações subordinadas adjetivas vêm normal-mente introduzidas por um pronome relativo, e exercem a função de adjunto de um substantivo ou pronome antecedente:

Há nomes / que andam, / nomes / que rastejam, / nomes / que voam. / (R. Ortigão)
Oh! Bendito o / que semeia livros… livros a mão cheia. / (C. Alves)

2. A oração subordinada adjetiva pode, como todo adjunto adnominal, depender de qualquer termo da oração, cujo núcleo seja um substantivo ou um pronome: sujeito, predicativo, complemento nominal, objeto diretoobjeto indireto, agente da passiva, adjunto adverbial, aposto e, até mesmo, vocativo.

Orações adjetivas restritivas e explicativas

As orações subordinadas adjetivas classificam-se em restritivasexplicativas.

1. As restritivas, como o nome indica, restringem, limitam, precisam a significação do substantivo (ou pronome) antecedente. Exercem a função de adjunto adnominal. São, por conseguinte, indispensáveis ao sentido da frase; e, como se ligam ao antecedente sem pausa, dele não se separam, na escrita, por vírgula:

Lá fora da barra está um navio/ que apita. / (J. Amado)

2. As explicativas acrescentam ao antecedente uma qualidade acessória, isto é, esclarecem melhor a sua significação, à semelhança de um aposto. Mas, por isso mesmo, não são indispensáveis ao sentido essencial da frase. Na fa-la, separam-se do antecedente por uma pausa, indicada na escrita por vírgula:

Tio Cosme, / que era advogado, / confiava-lhe a cópia de papéis de autos. (M. de Assis)

Orações subordinadas adverbiais

Funcionam como adjunto adverbial de outras orações e vêm, normalmente, introduzidas por uma das conjunções subordinativas (com exclusão das integrantes que, vimos, iniciam orações substantivas). Segundo a conjunção ou locução conjuntiva que as encabece, classificam-se em:

1. causais, se a conjunção é subordinativa causal:

/ Como anoitecesse, / recolhi-me pouco depois e deitei-me. (M. Lobato)

2. comparativas, se a conjunção é subordinativa comparativa:

Juro-lhes que essa orquestra da morte foi muito menos triste / do que podia parecer. / (M. de Assis)

Observação

Costuma-se omitir o predicado da oração subordinada comparativa, quando repete uma forma do verbo da oração principal. Assim:

Teus olhos são negros, negros / como as noites sem luar… / (C. Alves)
Ou seja: como as noites sem luar [são negras].

3. concessivas, se a conjunção é subordinativa concessiva:

/ Ainda que não dessem dinheiro, / poderiam colaborar com um ou outro trabalho. (O. L. Resende)

4. condicionais, se a conjunção é subordinativa condicional:

/ Se fosse antes, / não me importaria. (A. M. Machado)

5. conformativas, se a conjunção é subordinativa conformativa:

Houve, / segundo me pareceu, / cochichos e movimentos equívocos. (G. Ramos)

6. consecutivas, se a conjunção é subordinativa consecutiva:

O caminho é tão comprido / que não tem fim. / (J. de Lima)

7. finais, se a conjunção é subordinativa final:

Estirava o indicador e contraía o médio, / para que ficassem do mesmo tamanho. / (G. Ramos)

8. proporcionais, se a conjunção é subordinativa proporcional:

Mais se alheava do mundo /
À proporção que crescia. / (O. Mariano)

9. temporais, se a conjunção é subordinativa temporal:

Você verá / quando estiver habituado. / (G. Ramos)

Orações reduzidas

Vejamos agora outro tipo de oração subordinadaa reduzida —, isto é, a oração dependente que não se inicia por pronome relativo nem por conjunção subordinativa, e que tem o verbo numa das formas nominais — o infinitivo, o gerúndio, ou o particípio. Assim:

1. Neste período de Machado de Assis:

Todos nós havemos de morrer; basta / estarmos vivos. /

A oração estarmos vivos tem valor substantivo. Não a encabeça, porém, a integrante que, nem o seu verbo se apresenta numa forma finita, mas na do infinitivo pessoal.

A oração denomina-se, por isso, substantiva reduzida de infinitivo, e pode ser equiparada à oração subordinada desenvolvida que estejamos vivos.

Todos nós havemos de morrer; basta / que estejamos vivos. /

2. Neste período de Raul Pompeia:

Há sombras / vagueando… /

A oração vagueando tem valor adjetivo. Não vem, no entanto, iniciada por pronome relativo, nem traz o verbo numa forma finita, mas na do gerúndio.

A oração denomina-se, neste caso, adjetiva reduzida de gerúndio, e corresponde à oração desenvolvida que vagueiam:

Há sombras / que vagueiam… /

3. Neste período de Manuel Antônio de Almeida:

/ Terminada a procissão, / retiraram-se os convidados.

A oração terminada a procissão tem valor adverbial. Não está, porém, encabeçada por conjunção subordinativa, nem traz o verbo numa forma finita, mas na do particípio.

A oração denomina-se, então, adverbial reduzida de particípio, e equivale à oração desenvolvida depois que terminou a procissão:

/ Depois que terminou a procissão, / retiram-se os convidados.

Orações reduzidas de infinitivo

As orações reduzidas de infinitivo podem vir ou não regidas de preposição e, como as desenvolvidas, classificam-se em:

Substantivas

1. subjetivas:

Urge / tomarmos uma providência. / (H. Sales)

2. objetivas diretas:

Delfim sentiu / bater-lhe o coração. / (M. de Assis)

3. objetivas indiretas:

Gostamos / de nos imaginar bons e generosos. / (E. Veríssimo)

4. completivas nominais:

Tenho muita pena / de me desfazer de minhas riquezas, doutor. / (C. D. de Andrade)

5. predicativas:

O remédio era / ficar em casa. / (M. de Assis)

6. apositivas:

A penitência tinha sido pequena demais: / rezar dez Ave-Marias e cinco Padre-Nossos. / (O. L. Resende)

Adjetivas

Despertei com os meninos / a se levantarem da cama…/ (J. L. do Rego)

Adverbiais

1. causais:

Afastou-se, pois, a distância conveniente, murmurando despeitado / por ser frustrados seus esforços de conciliador. / (M. A. de Almeida)

2. concessivas:

/ Apesar de não ser diplomata, / Paulo também viajara. (A. Peixoto)

3. condicionais:

/ A não ser isto, / eu preferia ficar na sombra… (J. de Alencar)

4. consecutivas:

O mancebo desprezava o perigo e pago até da morte pelos sorrisos, que seus olhos furtavam de longe, levou o arrojo / a arrepiar a testa do touro com a ponta da lança. / (R. da Silva)

5. finais:

/ Os pertences são poucos / para levar. /(Adonias Filho)

6. temporais:

/ Ao cerrar a porta, / respirou com alívio. (G. Ramos)

Orações reduzidas de gerúndio

Podem ser adjetivas ou adverbiais.

Adjetivas

O emprego do gerúndio com valor de oração adjetiva tem sido considerado por certos gramáticos um galicismo intolerável. Cumpre, no entanto, acentuar que é antiga no idioma a construção quando o gerúndio expressa a ideia de atividade atual e passageira, como neste exemplo:

Vi um menino / chorando. /

Adverbiais

Como o gerúndio tem principalmente significado temporal, as reduzidas por ele formadas correspondem, na maioria dos casos, a orações subordinadas adverbiais temporais. Assim:

/ Fixando-a, / os cruéis olhos rutilavam. (G. Passos)

Mas podem equivaler também a subordinadas adverbiais:

1. causais:

Os gêmeos, / não tendo que fazer, / iam mamando. (M. de Assis)

2. concessivas:

A verdade é que, / nascendo depois, / ela sabe muito mais. (C. D. de Andrade)

3. condicionais:

/ Precisando, / disponha. (c. dos Anjos)

Orações reduzidas de particípio

Como as reduzidas de gerúndio, as de particípio podem ser adjetivas ou adverbiais.

Adjetivas

Era o Lorota, um papagaio amarelo, / criado na gaiola / e muito bem falante. (S. Lopes Neto)

Adverbiais

São mais comuns as temporais:

/Passado um instante, / os dois amigos se olharam. (A. Peixoto)

Não raro, ocorrem também as:

1. causais:

/ Ocupado com um caso mais importante, / larguei a pobre. (G. Ramos)

2. concessivas:

Creio, porém, que, / ainda admitidas as exagerações do Jornal do Comércio, / pode-se assegurar que a guerra está concluída. (J. de Alencar)

3. condicionais:

/Dada essa hipótese, / espero de nossos amigos dedicados que não sofrerão impassíveis uma oposição injusta. (J. de Alencar)

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