Os sons da fala

Os sons da fala resultam quase todos da ação de certos órgãos sobre a corrente de ar vinda dos pulmões.

Para a sua produção, três condições se fazem necessárias:

  1. a corrente de ar;
  2. um obstáculo encontrado por essa corrente de ar;
  3. uma caixa de ressonância.

Estas condições são criadas pelos órgãos da fala, denominados, em seu conjunto, aparelho fonador.

O aparelho fonador

É constituído das seguintes partes:

  • os pulmões, os brônquios e a traqueia — órgãos respiratórios que fornecem a corrente de ar, matéria-prima da fonação;
  • a laringe, onde se localizam as cordas vocais, que produzem a energia sonora utilizada na fala;
  • as cavidades supralaríngeas (faringe, boca, fossas nasais e lábios), que funcionam como caixas de ressonância, sendo que as cavidades bucal e faríngea podem variar profundamente de forma e de volume, graças aos movimentos dos órgãos ativos, sobretudo da língua, que, de tão importante na fonação, se tornou sinônimo de “idioma”.

Funcionamento do aparelho fonador

O ar expelido dos pulmões, por via dos brônquios, penetra na traqueia e chega à laringe, onde, ao atravessar a glote, costuma encontrar o primeiro obstáculo à sua passagem.

A glote, que fica na altura do chamado pomo de adão ou gogó, é a abertura entre duas pregas musculares das paredes superiores da laringe, conhecidas pelo nome de cordas vocais. O fluxo de ar pode encontrá-la fechada ou aberta, em virtude de estarem aproximados ou afastados os bordos das cordas vocais. No primeiro caso, o ar força a passagem através das cordas vocais retesadas, fazendo-as vibrar e produzir o som musical característico das articulaçõessonoras. No segundo caso, relaxadas as cordas vocais, o ar escapa sem vibrações laríngeas, produzindo as articulações denominadas surdas.

A distinção entre sonora e surda pode ser claramente percebida na pronúncia de duas consoantes que no mais se identificam. Assim:

/ b / [= sonoro] bato / p / [= surdo] pato

Ao sair da laringe, a corrente expiratória entra na cavidade faríngea, que termina em uma encruzilhada, oferecendo duas vias de acesso ao exterior: o canal bucal e o nasal. Suspenso no entrecruzar desses dois canais fica o véu palatino, que termina na úvula. Estes, dotados de mobilidade, são capazes de obstruir ou não o ingresso do ar na cavidade nasal e, consequentemente, de determinar a natureza oral ou nasal de um som.

Quando levantado, o véu palatino cola-se à parede posterior da faringe, deixando livre apenas o conduto bucal. As articulações assim obtidas denominam-se orais (adjetivo derivado do latim os, oris, “a boca”). Quando abaixado, o véu palatino deixa ambas as passagens livres. A corrente expiratória então se divide, e uma parte dela escoa pelas fossas nasais, onde adquire a ressonância característica das articulações chamadas nasais. Compare-se, por exemplo, a pronúncia das vogais:

/ a / [= oral] mato / ã / [= nasal] manto

É, porém, na cavidade bucal que se produzem os movimentos fonadores mais variados, graças, sobretudo, à grande mobilidade da língua e dos lábios.

Som e fonema

Nem todos os sons que pronunciamos em português têm o mesmo valor no funcionamento da nossa língua.

Alguns servem para diferenciar vocábulos que no mais se identificam.

Por exemplo, em:

erro /ê/
almoço /ô/
(substantivos)
erro /é/
almoço /ó/
(verbos)

A diversidade de timbre da vogal é suficiente para estabelecer uma oposição entre substantivo e verbo.

Na série:

cato
pato
tato
chato
gato
bato
dato
jato

Temos oito vocábulos que se distinguem apenas pelo elemento consonântico inicial.

Todo som capaz de estabelecer uma distinção de significado entre dois vocábulos de uma língua é a realização física de um fonema.

São, pois, fonemas, as vogais e as consoantes, diferenciadores dos vocábulos antes mencionados.

Fonema e variante

Na produção da fala, o mesmo fonema costuma realizar-se com múltiplas variações que não impedem a identificação da palavra em que aparecem, podendo essas variações serem de natureza individual, social, regional ou contextual.

Aos vários sons que realizam um mesmo fonema dá-se o nome de variantes ou alofones.

Ninguém ignora, por exemplo, que o /l/ final de sílaba é no Brasil muito instável. Num vocábulo como animal podemos ouvir a consoante em matizadas articulações que vão desde a característica maneira gaúcha até a forma identificada à semivogal [w], de vastas regiões do país, sem falarmos na sua frequente perda, em áreas do interior.

Por outro lado, se compararmos, por exemplo, os vocábulos

tia
toa
tua

Sentimos que eles se diferenciam apenas pela vogal interna:

/i/
/o/
/u/

Se, no entanto, observarmos com atenção a pronúncia da consoante na forma tia, de um lado, e em toa e tua, de outro, percebemos que o /t/ da primeira é emitido, na pronúncia do Rio de Janeiro, como [tch], à semelhança do som inicial do vocábulo tcheco, por influência da vogal /i/.

Fonética e fonologia

A disciplina que estuda minuciosamente os sons da fala em suas múltiplas realizações chama-se fonética, e a que estuda as funções dos sons numa língua denomina-se fonologia.

Transcrição fonética e fonológica

Para simbolizar na escrita a pronúncia real de um som, usa-se um alfabeto especial, o alfabeto fonético.

Os sinais fonéticos são colocados entre colchetes: [ ].

Por exemplo: [‘saw] na pronúncia do Rio de Janeiro.

Os fonemas transcrevem-se entre barras oblíquas: / /.

Por exemplo: /’sal/.

Classificação dos fonemas

Os fonemas classificam-se em vogais e consoantes.

Vogais e consoantes

1. Do ponto de vista articulatório, as vogais podem ser consideradas sons formados pela vibração das cordas vocais e modificados segundo a forma das cavidades supralaríngeas. Na produção das vogais, a corrente de ar passa livremente por essas cavidades. Ao contrário, na realização das consoantes há sempre um obstáculo total ou parcial à passagem da corrente expiratória.

2. Quanto à função silábica — outro critério de distinção —, cabe salientar que, na nossa língua, o centro da sílaba só pode ser ocupado por vogal. As consoantes ficam às margens da sílaba: sempre aparecem junto a uma vogal.

Semivogais

São chamados semivogais /i/ e /u/ quando, juntos a uma vogal, formam uma sílaba. Foneticamente, estas vogais assilábicas se transcrevem [y] e [w].

Assim, em riso [‘rizu] e rio [‘riu] o /i/ é vogal, mas em herói [e’róy] e vário [‘varyu] é semivogal. Também o /u/ é vogal, por exemplo, em muro [‘muru] erua [‘rua], mas semivogal em chapéu [cha’péw] e quatro [‘qwatru].

Classificação das vogais

Segundo a classificação de base fundamentalmente articulatória, as vogais da língua portuguesa podem ser:

a) quanto à zona de articulação:

  • anteriores ou palatais
  • centrais
  • posteriores ou velares

b) quanto ao grau de abertura:

  • abertas
  • semiabertas
  • semifechadas
  • fechadas

c) quanto ao papel das cavidades bucal e nasal:

  • orais
  • nasais

Zona de articulação

As vogais são os sons que se pronunciam com a via bucal livre. Não se deve concluir desta afirmação que seja indiferente para a distinção das vogais o movimento dos diversos órgãos articulatórios. Pelo contrário. Basta avançarmos a língua progressivamente em direção à parte anterior da cavidade bucal ou recuarmo-la em direção à parte posterior dessa cavidade, ou ainda mantê-la numa posição intermediária, para termos séries de vogais diferentes.

No primeiro caso, produzimos a série das vogais anteriores (ou palatais): /é/, /ê/, /i/, /ẽ/, /ĩ/.

No segundo caso, a das vogais posteriores (ou velares): /ó/, /ô/, /u/, /õ/, /ũ/.

E no terceiro, as vogais centrais: /a/, /ã/.

Grau de abertura

Do ponto de vista articulatório, o grau de abertura é dado pelo movimento de elevação gradual da língua na cavidade bucal, partindo da posição baixa, em direção ao palato duro ou em direção ao palato mole (véu palatino).

Esses movimentos da língua resultam nos diversos timbres vocálicos que dependem, essencialmente, das formas tomadas pelas cavidades faríngea e bucal, que funcionam como tubo de ressonância.

A maior largura do tubo de ressonância, provocada pela língua em posição baixa, produz as vogais chamadas abertas: /a/ e /ã/.

A pequena elevação da língua em direção ao palato (quer duro, quer mole) produz as vogais chamadas semiabertas: /é/, /ó/.

A elevação um pouco maior da língua em direção ao palato, duro ou mole, produz as vogais chamadas semifechadas: /ê/, /ô/, /ẽ/, /õ/.

A elevação máxima da língua, permitida para a realização de uma vogal, em direção ao palato, produz as vogais chamadas fechadas: /i/, /u/, /ĩ/, /ũ/.

Vogais orais e vogais nasais

Além das sete vogais orais que examinamos — emitidas todas com o véu palatino levantado contra a parede posterior da faringe: /a/, /é/, /ê/, /i/, /ó/, /ô/, /u/ —, possui a nossa língua cinco vogais nasais, em cuja articulação o véu palatino, abaixado, permite que uma parte da corrente expiratória ressoe na cavidade nasal:

/ã/
/ẽ/
/ĩ/
/õ/
/ũ/

Em português, as vogais nasais podem empregar-se com fins distintivos. Comparem-se estas palavras:

lã
senda
linda
bomba
mundo
lá
seda
lida
boba
mudo

Intensidade e acento

Em sílaba tônica, distinguimos as sete vogais orais, como atesta a sequência vocabular:

saco
seco
seco
sico
soco
soco
suco
/a/
/é/
/ê/
/i/
/ó/
/ô/
/u/

Em sílaba átona, anula-se a distinção entre /é/ — /ê/, /ó/ — /ô/, do que resulta um sistema de cinco vogais, mais estável em sílaba pretônica.

lavar
pesar
pisar
corar
curar
/a/
/ê/
/i/
/ô/
/u/

Em sílaba átona final, o vocalismo tende a simplificar-se ainda mais pela identificação do timbre das vogais finais /e/ — /i/ e /o/ — /u/. As palavras tarde e povo, por exemplo, soam efetivamente /’tardi/ e /’povu/.

Quadro de classificação das vogais

Levando em conta os três critérios de classificação das vogais adotados, poderíamos apresentar o seguinte quadro:

Zona de Articulação
Anteriores
Centrais
Posteriores
Papel das cavidades
Orais
Nasais
Orais
Nasais
Orais
Nasais
Graus de Abertura
Fechadas
/i/
/ĩ/
/u/
/ũ/
Semifechadas
/ê/
/ẽ/
/ô/
/õ/
Semiabertas
/é/
/ó/
Abertas
/a/
/ã/

Encontros vocálicos

Ditongos

O encontro de uma vogal + uma semivogal, ou de uma semivogal + uma vogal recebe o nome de ditongo.

Os ditongos podem ser:

  • decrescentes e crescentes;
  • orais e nasais.

Ditongos decrescentes e crescentes

Quando a vogal vem em primeiro lugar, o ditongo se denomina decrescente. Assim:

pau
cai
deu
viu

Quando a semivogal antecede a vogal, o ditongo se diz crescente. Assim:

série
colégio
água
frequente

Em português apenas os decrescentes são ditongos estáveis. Na linguagem coloquial os ditongos crescentes só apresentam estabilidade quando a semivogal [w] vem precedida de /k/ (grafado q), ou de /g/:

quase
sequela
enxaguar
lingueta
quota
tranquilo

Ditongos orais e nasais

Como as vogais, os ditongos podem ser orais e nasais, segundo a natureza oral ou nasal dos seus elementos.

São os seguintes os ditongos orais decrescentes:

Ditongo
Exemplificação
Ditongo
Exemplificação
[ay]
pai
[iw]
viu
[aw]
mau
[ôy]
noite
[êy]
sei
[óy]
herói
[éy]
papéis
[ôw]
vou
[êw]
seu
[uy]
azuis
[éw]
céu

Há os seguintes ditongos nasais decrescentes:

Pronúncia
Escrita
Exemplificação
[ãy]
ãe, ãi
mãe, cãibra
[ãw]
ão, am
mão, vejam
[ẽy]
em, en
vem, benzinho
[õy]
õe
põe, sermões
y]
ui
mui, muito

Observação

Não se assinala na escrita a nasalidade do ditongo [ũy] como na palavra muito.

Tritongos

Denomina-se tritongo o encontro formado de semivogal + vogal + semivogal.

De acordo com a natureza (oral ou nasal) de sua vogal, os tritongos se classificam também em orais e nasais.

São tritongos orais:

Tritongo
Exemplificação
Tritongo
Exemplificação
[way]
Paraguai
[wiw]
delinquiu
[wêy]
averiguei
[wôw]
enxaguou

São tritongos nasais:

Pronúncia
Escrita
Exemplificação
[wãw]
uão, uam
saguão, enxáguam
[wẽy]
uem
mínguem, águem
[wõy]
uõe
saguões

Hiatos

Dá-se o nome de hiato ao encontro de duas vogais.

Assim, comparando-se as palavras pais (plural de pai) e país (região), verifica-se:

  • na primeira, o encontro ai soa apenas numa sílaba: pais;
  • na segunda, o a pertence a uma sílaba e o i a outra: país.

Conclui-se, portanto, que em paisditongo; em país, hiato.

Observação

Quando átonos finais, os encontros -ia, -ie, -io, -oa, -ua, -ue e -uo são normalmente ditongos crescentes: gló-ria, cá-rie, vá-rio, má-goa, á-gua, tê-nue, ár-duo. Podem, no entanto, ser emitidos com separação dos dois elementos, formando assim um hiato: gló-ri-a, cá-ri-e, vá-ri-o, etc. Ressalte-se, porém, que na escrita, em hipótese alguma, os elementos desses encontros vocálicos se separam no fim da linha.

Classificação das consoantes

As consoantes da língua portuguesa, em número de dezenove, são tradicionalmente classificadas em função de quatro critérios de base essencialmente articulatória:

  1. quanto ao modo de articulação:
    • momentâneas – oclusivas.
    • contínuas – construtivas; laterais; vibrantes.
  2. quanto ao ponto de articulação:
    • bilabiais; labiodentais; linguodentais; alveolares; palatais; velares.
  3. quanto ao papel das cordas vocais:
    • surdas; sonoras.
  4. quanto ao papel das cavidades bucal e nasal:
    • orais; nasais.

O modo de articulação

A articulação das consoantes não se faz, como a das vogais, com a passagem livre do ar através das cavidades supralaríngeas. Em sua realização, a corrente expiratória encontra sempre, em alguma parte do conduto vocal, ou um obstáculo total, que a interrompe momentaneamente, ou um obstáculo parcial, que a comprime. No primeiro caso, as consoantes se dizem momentâneas (oclusivas); no segundo, contínuas (constritivas, laterais,vibrantes).

1. oclusivas, caracterizadas pela interrupção momentânea da corrente de ar pelo contato dos órgãos articuladores:

/p/ (pato)
/t/ (tato)
/k/ (cato)
/b/ (bato)
/d/ (dato)
/g/ (gato)

2. constritivas, caracterizadas pela passagem do ar através de uma estreita fenda formada pelos órgãos articuladores, o que produz um ruído comparável ao de uma fricção:

/f/ (faca)
/s/ (selo)
/x/ (chato)
/v/ (vaca)
/z/ (zelo)
/j/ (jato)

3. laterais, caracterizadas pela passagem da corrente expiratória pelos dois lados da cavidade bucal, em virtude do obstáculo formado no centro desta pelo encontro da língua com os alvéolos dos dentes ou com o palato:

/l/ (fila)
/lh/ (filha)

4. vibrantes, caracterizadas pelo movimento de batidas rápidas de um órgão elástico (o ápice da língua ou a úvula), que provoca uma ou várias brevíssimas interrupções da passagem da corrente expiratória:

No primeiro caso tem-se a vibrante simples e no segundo a vibrante múltipla.

/r/ (caro)
/rr/ (carro)

O ponto de articulação

O obstáculo (total ou parcial) necessário à articulação das consoantes pode produzir-se em diversos pontos das cavidades bucal e labial. Daí o conceito de ponto de articulação, segundo o qual as consoantes se classificam em:

1. bilabiais, formadas pelo contato dos lábios:

/p/ (pato)
/b/ (bato)
/m/ (mato)

2. labiodentais, formadas pela constrição do ar entre o lábio inferior e os dentes incisivos superiores:

/f/ (fala)
/v/ (vala)

3. linguodentais, formadas pelo contato da ponta da língua com a face interna dos dentes superiores:

/t/ (tato)
/d/ (dato)
/n/ (nato)

4. alveolares, formadas pela aproximação ou contato da língua com os alvéolos superiores dos dentes:

/s/ (selo)
/z/ (zelo)
/l/ (cala)
/r/ (cara)

5. palatais, formadas pela aproximação ou contato do dorso da língua com o palato duro:

/x/ (chá)
/j/ (já)
/lh/ (pilha)
/nh/ (pinha)

6. velares, formadas pelo contato da parte posterior da língua com o palato mole (véu palatino):

/k/ (calo)
/g/ (galo)

7. uvular, formada pelo contato da úvula com o dorso da língua:

/rr/ (ralo) (carro)

O papel das cordas vocais

Enquanto as vogais são sempre sonoras, as consoantes podem ser ou não produzidas com vibração das cordas vocais.

São surdas (produzidas sem vibração das cordas vocais) as consoantes:

/p/
/t/
/k/
/f/
/s/
/x/

As demais são sonoras (produzidas com a vibração das cordas vocais):

/b/
/d/
/g/
/v/
/z/
/j/
/l/
/lh/
/r/
/rr/
/m/
/n/
/nh/

O papel das cavidades bucal e nasal

Como as vogais, as consoantes podem ser orais ou nasais. Por outras palavras: em sua emissão, a corrente expiratória pode passar apenas pela cavidade bucal, ou também ressoar na cavidade nasal, caso encontre abaixado o véu palatino.

São nasais as consoantes:

/m/ (amo)
/n/ (ano)
/nh/ (anho)

As outras são orais.

Quadro das consoantes

Resumindo, podemos dizer que o conjunto das consoantes da língua portuguesa é constituído por dezenove fonemas, cuja classificação se expõe esquematicamente no quadro a seguir.

Quadro das consoantes.

Representação gráfica das consoantes

consoantes que têm uma só forma gráfica. É o caso das seguintes:

Consoante
Pronúncia
Escrita
Exemplificação
/b/
b
bota
cabo
/p/
p
povo
capa
/d/
d
dado
cada
/t/
t
teto
atum
/v/
v
véu
fava
/f/
f
faca
mofo
/l/
l
leme
iguala
/lh/
lhê
lh
lhe
ilha
/m/
m
medo
cama
/n/
n
nada
cana
/nh/
nhê
nh
nhambu
unha
/r/
rê (simples)
r
caro

Outras, no entanto, podem ser grafadas de diferentes formas. Assim:

Consoante
Pronúncia
 
Escrita
Exemplificação
/rr/
rrê (múltiplo)
r
rosa
tenra
rr
erro
carro
z
zero
vazio
/z/
s
casa
trânsito
x
exato
exilar
s
saco
valsa
ss
massa
ssego
ç
maço
calça
c
cego
dancei
/s/
sc
crescer
descida
creo
dea
x
trouxe
sintaxe
xc
excesso
exceção
/j/
j
jeito
haja
g
gesso
agir
/x/
x
xadrez
lixo
ch
chuva
rocha
/g/
guê
g
gado
agudo
gu
guerra
águia
/k/
quê
c
cobra
vaca
qu
queda
aquilo

Além dos valores indicados (xê, sê e zê), a letra x pode representar a sequência de duas consoantes /ks/ em palavras como táxi, axila, fixo e outras.

Encontros consonantais

Dá-se o nome de encontro consonantal ao agrupamento de consoantes num vocábulo. Entre os encontros consonantais, merecem realce, pela frequência com que se apresentam, aqueles inseparáveis cuja segunda consoante é /l/ ou /r/. Assim:

Encontro Consonantal
Exemplificação
Encontro Consonantal
Exemplificação
bl
bloco
abluir
gl
glutão
aglutinar
br
branco
rubro
gr
grande
regra
cl
claro
tecla
pl
plano
triplo
cr
cravo
Acre
pr
prato
sopro
dr
dragão
vidro
tl
atlas
fl
flor
ruflar
tr
tribo
atrás
fr
francês
refrão
vr
palavra

Encontros consonantais como gn, mn, pn, ps, pt, tm e outros não aparecem em muitos vocábulos:

gnomo
pneumático
ptialina
mnemônico
psicologia
tmese

Observação

Na linguagem coloquial há uma tendência de desfazer estes encontros de difícil pronúncia pela intercalação da vogal i (ou e):

dí-gui-no
pe-neu
rí-ti-mo

Dígrafo

Não é demais recordar ainda uma vez que não se devem confundir consoantes e vogais com letras, que são sinais representativos daqueles sons.

Assim, nas palavras carro, pêssego, chave, malho e canhoto não há encontro consonantal, pois as letras rr, ss, ch, lh e nh representam uma só consoante.

Também não existe encontro consonantal em palavras como campoponto: nelas o m e o n são apenas sinal de nasalidade da vogal anterior, equivalente a um til: po, to.

A esses grupos de letras que simbolizam apenas um som dá-se o nome de dígrafos.

Incluem-se ainda entre os dígrafos as combinações de letras:

  • gu e qu antes de e e i, quando representam os mesmos fonemas oclusivos que se escrevem, respectivamente, g e c antes de a, o e u: guerra, seguir (comparar a: galo, gula); querer, quilo (comparar a: calar, cobre, cubro);
  • sc, e xc que, entre vogais, podem representar o mesmo fonema que se transcreve também por c ou ç: florescer (comparar a amanhecer), dea (comparar a pareça), exceder (comparar a preceder).

Sílaba

Quando pronunciamos lentamente uma palavra, sentimos que não o fazemos separando um som de outro, mas dividindo a palavra em pequenos grupos que serão tantos quantos forem as vogais silábicas. Assim, uma palavra como alegrou não será por nós emitida a-l-e-g-r-o-u, mas sim: a-le-grou.

A cada som ou grupo de sons pronunciados numa só expiração damos o nome de sílaba.

A sílaba pode ser formada:

a) por uma vogal, um ditongo ou um tritongo:

é
eu
uai!

b) por uma vogal, um ditongo ou um tritongo acompanhados de consoantes:

a-mar
noi-te
U-ru-guai

Sílabas abertas e fechadas

Chama-se aberta a sílaba que termina por uma vogal:

me-ni-no
ma-te-má-ti-ca

Diz-se fechada a sílaba que termina por uma consoante:

s
mar
paz

Classificação das palavras quanto ao número de sílabas

Quanto ao número de sílabas, classificam-se as palavras em:

Monossílabas, quando constituídas de uma só sílaba:

a
mão
quais

Dissílabas, quando constituídas de duas sílabas:

ru-a
he-rói
sa-guão

Trissílabas, quando constituídas de três sílabas:

cri-an-ça
por-tu-guês
en-xa-guou

Polissílabas, quando constituídas de mais de três sílabas:

es-tu-dan-te
u-ni-ver-si-da-de
em-pre-en-di-men-to

Acento tônico

Acento consiste no maior grau de força, ou de intensidade, de uma das sílabas de determinada palavra. Assim:

diretor
aluno
matemática

A sílaba acentuada, ou seja, a que se distingue das outras pela maior intensidade do som, recebe o nome de tônica. As demais, isto é, as que não apresentam acentuação sensível, são denominadas átonas.

Classificação das palavras quanto ao acento tônico

Quanto ao acento, as palavras de mais de uma sílaba se classificam em:

Oxítonas, quando o acento recai na última sílaba:

ca
funil
Niterói

Paroxítonas, quando o acento recai na penúltima sílaba:

baía
escola
brasileiro

Proparoxítonas, quando o acento recai na antepenúltima sílaba:

arittica
mina
blico

Os monossílabos podem ser átonos e tônicos.

Átonos são aqueles pronunciados tão fracamente, que, na frase, precisam apoiar-se na acentuação de um vocábulo vizinho, formando, por assim dizer, uma sílaba deste. Por exemplo:

Diga-me / o preço / do livro.

São monossílabos átonos:

  • os artigos definidos (o, a, os, as) e os indefinidos (um, uns);
  • os pronomes pessoais oblíquos me, te, se, o, a, lhe, nos, vos, os, as, lhes; e suas combinações: mo, to, lho, etc.;
  • o pronome relativo que;
  • as preposições a, com, de, em, por, sem, sob;
  • as combinações de preposição e artigo: à, ao, da, do, na, no, num, etc.;
  • as conjunções e, mas, nem, ou, que, se;
  • as formas de tratamento dom (D. Pedro), frei (Frei José), são (São Pedro), etc.

Tônicos são aqueles emitidos fortemente. Por terem acento próprio, não necessitam apoiar-se noutro vocábulo. Exemplos: , flor, mau, mão, mês, mim,pôr, vou, etc.

Valor distintivo do acento tônico

Pela variabilidade de sua posição, o acento tônico pode ter em português valor distintivo, fonológico.

Comparando, por exemplo, os vocábulos:

bia / sabia / sabiá

Percebemos que o acento tônico é suficiente para estabelecer uma oposição, uma distinção significativa.

Acentuação viciosa

Atente-se na exata pronúncia das seguintes palavras, para evitar uma silabada, denominação que se dá ao erro de prosódia:

São oxítonas:

aloés
mister
novel
refém
sutil
Gibraltar
Nobel
recém
ruim
ureter

São paroxítonas:

alanos
efebo
inaudito
pletora
avaro
erudito
maquinaria
policromo
avito
estalido
matula
pudico
aziago
êxul
misantropo
quiromancia
barbaria
filantropo
mercancia
refrega
batavo
gólfão
nenúfar
rubrica
cartomancia
grácil
Normandia
Salonica
ciclope
gratuito (úi)
onagro
táctil
decano
hosana
opimo
têxtil
diatribe
Hungria
pegada
Tibulo
edito (lei)
ibero
periferia
tulipa

São proparoxítonas:

ádvena
areópago
égide
Niágara
aeródromo
aríete
etíope
númida
aerólito
arquétipo
êxodo
ômega
ágape
autóctone
facsímile
páramo
álacre
azáfama
fagócito
Pégaso
álcali
azêmola
farândula
périplo
alcíone
bátega
férula
plêiade
alcoólatra
bávaro
gárrulo
prístino
âmago
bígamo
hégira
prófugo
amálgama
bímano
hipódromo
protótipo
anátema
bólido (e)
idólatra
quadrúmano
andrógino
brâmane
ímprobo
revérbero
anêmona
cáfila
ínclito
sátrapa
anódino
cânhamo
ínterim
Tâmisa
antífona
cérbero
invólucro
trânsfuga
antífrase
cotilédone
leucócito
végeto
antílope
édito (ordem judicial)
lêvedo
zéfiro
antístrofe
Lúcifer
zênite

Prefiram-se ainda as pronúncias:

barbárie
boêmia
estratégia
sinonímia

Para alguns vocábulos há, mesmo na língua culta, oscilação de pronúncia. É o caso de:

anidrido ou anídrido
projetil ou projétil
hieroglifo ou hieróglifo
reptil ou réptil
Oceania ou Oceânia
soror ou sóror
ortoepia ou ortoépia
zangão ou zângão

Acento principal e acento secundário

Normalmente os vocábulos de pequeno corpo só possuem uma sílaba acentuada em que se apoiam as demais, átonas. Os vocábulos longos, principalmente os derivados, costumam, no entanto, apresentar, além da sílaba tônica fundamental, uma ou mais subtônicas.

Dizemos, por exemplo, que as palavras decididamenteinacreditavelmente são paroxítonas, porque sentimos que em ambas o acento básico recai na penúltima sílaba (men). Mas percebemos também que, nas duas palavras, as sílabas restantes não são igualmente átonas. Em decididamente, a sílaba di, mais fraca do que a sílaba men, é sem dúvida mais forte do que as outras. Em inacreditavelmente, as sílabas cre e ta, embora mais débeis que a sílaba men, são sensivelmente mais fortes do que as demais. Daí considerarmos principal o acento que recai sobre a sílaba men (nos dois exemplos) e secundários os que incidem sobre a sílaba di (em decididamente) ou sobre as sílabas cre e ta (em inacreditavelmente).

Ênclise e próclise

Denomina-se ênclise a situação de uma palavra que depende do acento tônico da palavra anterior, com a qual forma, assim, um todo fonético. Próclise é a situação contrária: a vinculação de uma palavra átona à palavra seguinte, a cujo acento tônico se subordina. São proclíticos, por exemplo, os artigos, as preposições e as conjunções monossilábicas. São geralmente enclíticos os pronomes pessoais átonos.