Figuras de estilo

Nem sempre as frases se organizam com absoluta coesão gramatical. O empenho de maior expressividade leva-nos, com frequência, a superabundâncias, a desvios, a lacunas, a substituições nas estruturas frásicas tidas por modelares. Em tais construções a coesão gramatical e semântica é substituída por uma coesão significativa, condicionada pelo contexto geral e pela situação.

Os processos expressivos que provocam essa particularidade de construção denominam-se figuras de estilo ou figuras de linguagem e fazem parte da Estilística.

Podemos classificá-las em:

  • Figuras de palavras;
  • Figuras de sintaxe;
  • Figuras de pensamento.

Examinemos as principais nas próximas páginas.

Figuras de palavras

Comparação

A comparação ou símile consiste em estabelecer um confronto entre dois termos da oração, a fim de ressaltar a semelhança entre eles. Na comparação nota-se a presença dos conectivos: como, tal como, tal qual, assim como, que nem. Assim:

Foi rápido, como o olhar, o gesto de Iracema. (J. de Alencar)

Metáfora

A metáfora consiste no desvio do sentido normal de uma palavra, resultante de uma comparação latente entre dois termos da oração. Na metáfora os termos comparativos não aparecem. Assim:

Ele era um pássaro, nascera para cantar. (V. de Moraes)

Metonímia

A metonímia consiste no emprego de uma palavra por outra, com que se acha relacionada. Pode ocorrer, quando se emprega: o abstrato pelo concreto; o autor pela obra; o efeito pela causa; o instrumento pela pessoa; a parte pelo todo; o continente pelo conteúdo; o sinal pela coisa significada; a matéria pelo objeto; o indivíduo pela classe; o lugar pelos seus habitantes.

A Câmara Municipal discutia o orçamento para 1920. (C. D. de Andrade)
Longe, na linha do horizonte, entre a mancha de duas ilhas, o recorte de umavela branca. (J. Montello)

Catacrese

A catacrese consiste em transferir a uma palavra o sentido próprio de outra, pela semelhança de significado entre elas. Por ser de uso tão corrente, muitas vezes não lhe percebemos o sentido figurado. é o caso, por exemplo, de: da cama, barriga da perna, boca do fogão, dente de alho, bala de revólver.

Nesta boca da noite, cheira o tempo a alecrim. (C. D. de Andrade)

Perífrase

A perífrase, denominada também antonomásia, consiste em substituir a designação simples de uma noção por uma sequência de palavras que lhe exprime as principais características. Assim: o poeta dos escravos = Castro Alves; o rei da selva = leão.

Em São Paulo, viveu o Poeta dos Escravos os dias mais inquietos e perturbadores de sua efêmera existência. (E. Gomes)

Sinestesia

A sinestesia consiste em transferir percepções de um sentido para o de outro, resultando um cruzamento de sensações.

Tem cheiro a luz, a manhã nasce…
Oh sonora audição colorida do aroma! (A. de Guimarães)

Figuras de sintaxe

Elipse

Elipse é a omissão de um termo que o contexto ou a situação permitem facilmente suprir. é corrente, por exemplo, a elipse:

  • do sujeito:

Turquinha pegou na mão do noivo e beijou-a, beijou-lhe a testa. (D. S. de Queirós)

  • do verbo:

Poeta sou; pai, pouco; irmão, mais. (M. Bandeira)

  • da conjunção integrante que:

Queira Deus não voltes mais tarde… (M. Bandeira)

  • da preposição de antes da integrante que introduz as orações objetivas indiretas e as completivas nominais:

Gostaria que, além de dever, fosse um prazer. (C. D. de Andrade)
Tenho certeza que fala de amor. (O. L. Resende)

  • da preposição que introduz certos adjuntos:

Ribas, quinze anos, era feio, magro, linfático. (R. Pompeia)

Zeugma

1. Zeugma é uma das formas da elipse. Consiste em fazer participar de dois ou mais enunciados um termo expresso apenas em um deles:

João Fanhoso abriu os olhos pesados de preguiça: primeiro um, depois o outro. (M. Palmério)

Isto é: primeiro abriu um, depois abriu o outro.

2. Alguns restringem a área da zeugma aos casos em que se subentende um verbo anteriormente expresso, mas sob outra flexão, como neste passo de C. D. de Andrade:

A igreja era grande e pobre. Os altares, humildes.

Entenda-se: Os altares eram humildes.

Pleonasmo

Pleonasmo é a superabundância de palavras para enunciar uma ideia:

Achei mais fácil odiar-me a mim mesmo. (E. Veríssimo)
Tive vergonha de me confessar a mim mesmo. (A. Peixoto)

Observações

1. O pleonasmo vicioso é uma falta grosseira quando nada acrescenta à força da expressão, quando resulta apenas da ignorância do sentido exato dos termos empregados, ou de negligência. Estão neste caso frases como:

Fazer uma breve alocução.
Ter o monopólio exclusivo.
Ser o principal protagonista.

Em todas elas o adjetivo representa uma demasia condenável: alocução é um “discurso breve”; não há monopólio que não seja “exclusivo”; e protagonista significa “principal personagem”.

2. Pleonasmo é a reiteração da ideia. A repetição da mesma palavra é um recurso de ênfase, mas não é um pleonasmo.

Hipérbato

Hipérbato é a separação de palavras que pertencem ao mesmo sintagma, pela intercalação de um membro frásico:

Essas que ao vento vêm
Belas chuvas de junho! (J. Cardoso)

Em sentido corrente, porém, hipérbato é termo genérico para designar toda inversão da ordem normal das palavras na oração, ou da ordem das orações no período, com finalidade expressiva.

Anástrofe

Anástrofe é o tipo de inversão que consiste na anteposição do determinante (preposição + substantivo) ao determinado:

Vingai a pátria ou valentes
Da pátria tombai no chão! (F. Varela)

Sínquise

Sínquise é a inversão de tal modo violenta das palavras de uma frase, que torna difícil a sua interpretação.

É o que se observa, por exemplo, nesta quadra do soneto “Taça de Coral”, de Alberto de Oliveira:

Lícias pastor — enquanto o sol recebe,
Mugindo, o manso armento e ao largo espraia,
Em sede abrasa qual de amor por Febe,
— Sede também, sede maior, desmaia.

Entenda-se:

“Lícias, pastor, enquanto o manso armento recebe o sol e, mugindo, espraia ao largo — abrasa em sede, qual desmaia de amor por Febe, sede também, sede maior.”

Assíndeto

Dizemos que há assíndeto quando as orações de um período ou as palavras de uma oração se sucedem sem conjunção coordenativa que poderia enlaçá-las. é um vigoroso processo de encadeamento do enunciado, que reclama do lei-tor ou do ouvinte uma atenção maior no exame de cada fato, mantido em sua individualidade, em sua independência, por força das pausas rítmicas:

A barca vinha perto, chegou, atracou, entramos. (M. de Assis)

Polissíndeto

É o contrário do assíndeto, ou seja, o emprego reiterado de conjunções coordenativas. Com o polissíndeto interpenetram-se os elementos coordenados; a expressão adquire assim uma continuidade, uma fluidez que a tornam particularmente apta para sugerir movimentos ininterruptos ou vertiginosos, como no exemplo a seguir:

E olhava-me, e vinha e ia, e tornava a latir… (S. Lopes Neto)

Anacoluto

Anacoluto é a mudança de construção sintática no meio do enunciado, geralmente depois de uma pausa sensível, como nestes versos de C. de Abreu:

No berço, pendente dos ramos floridos,
Em que eu pequenino feliz dormitava:
Quem é que esse berço com todo o cuidado
Cantando cantigas alegre embalava?

No exemplo dado, observamos que a oração iniciada por no berço não teve seguimento normal no 3º verso, que devia continuá-la, e, em consequência, aquela expressão ficou solta no período.

Silepse

Silepse é a concordância que se faz não com a forma gramatical das palavras, mas com o sentido, com a ideia que elas expressam. A silepse é, pois, uma concordância mental.

Silepse de número

1. Pode ocorrer a silepse de número com todo substantivo singular concebido como plural e, particularmente, com os termos coletivos:

O casal não tivera filhos, mas criaram dois ou três meninos. (A. F. Schmidt)

2. Há também silepse de número quando o sujeito da oração é um dos pronomes nós e vós, aplicados a uma só pessoa, e permanecem no singular os adjetivos e particípios que a eles se referem:

Sois injusto comigo. (A. Herculano)

Silepse de gênero

Sabemos que as expressões de tratamento Vossa Majestade, Vossa Excelência, Vossa Senhoria, etc. têm forma gramatical feminina, mas aplicam-se com frequência a pessoas do sexo masculino. Neste caso, quando funciona como predicativo, o adjetivo que a elas se refere vai sempre para o masculino:

— V. Ex.ª parece magoado… (C. D. de Andrade)

Silepse de pessoa

Quando a pessoa que fala ou escreve se inclui num sujeito enunciado na 3ª pessoa do plural, o verbo pode ir para a 1ª pessoa do plural:

E os sessenta milhões de brasileiros falamos e escrevemos de inúmeras maneiras a língua que nos deu Portugal. (R. de Queirós)

Se no sujeito expresso na 3ª pessoa do plural queremos abranger a pessoa a quem nos dirigimos, é lícito usarmos a 2ª pessoa do plural:

Os dois ora estais reunidos… (C. D. de Andrade)

Figuras de pensamento

Antítese

A antítese consiste em juntar uma ideia a outra de sentido contrário:

Há dois mundos distintos, o claro e o escuro.
Mas dentro do escuro vive também um mundo claro, que eu vejo quando fecho os olhos… (C. D. de Andrade)

Eufemismo

O eufemismo consiste em atenuar o sentido desagradável, grosseiro ou indecoroso de uma palavra ou expressão, substituindo-a por outra, capaz de suavizar seu significado:

Na redação, o secretário fazia a cozinha do jornal, quando a senhora, não primaveril, mas ainda não invernosa, dele se aproximou timidamente. (C. D. de Andrade)

Hipérbole

A hipérbole consiste no exagero da expressão de uma ideia:

Temos riqueza para dar ao mundo inteiro e ainda sobra para quatrocentos e noventa e nove mundos possíveis. (C. D. de Andrade)

Ironia

A ironia consiste em exprimir uma ideia contrária do que se pensa, com a finalidade de criticar:

O casamento foi aprovado pelo Sr. Antunes, com a mesma alma com que um réu sancionaria a própria execução. (M. de Assis)

Personificação ou prosopopeia

A personificação ou prosopopeia consiste em atribuir características humanas a seres inanimados ou irracionais:

Havia estrelas infantis a balbuciar preces matinais no céu deliquescente. (V. de Moraes)

Onomatopeia

A onomatopeia consiste no emprego de palavras imitativas, isto é, as que procuram reproduzir aproximadamente certos sons ou ruídos:

Logo o pêndulo se movia, de um lado para outro, tique-taque, tique-taque, e outra vez a vida voltaria à suavidade de outrora, na paz do apartamento. (J. Montello)