Palavra e vocábulo

Uma palavra é constituída de elementos materiais (vogais, consoantes, semivogais, sílabas, acento tônico) a que se dá um sentido e que se presta a uma classificação.

Diremos, por exemplo, que a palavra boi, designativa de “um quadrúpede ruminante que serve para os trabalhos de carga e para a alimentação”, é um substantivo comum, concreto, primitivo, simples, masculino, singular, monossílabo, tônico, formado da consoante /b/ seguida do ditongo decrescente [oy].

Vocábulo é, a rigor, a palavra considerada somente em relação aos elementos materiais que a constituem. Diremos, pois, que o vocábulo boi é um monossílabo, tônico, formado da consoante /b/, seguida do ditongo decrescente [oy].

Na linguagem corrente, porém, os dois termos palavra e vocábulo se equivalem, e todos empregamos um pelo outro, como fazemos nós mesmos neste livro.

Classes de palavras

As palavras de nossa língua distribuem-se nas seguintes classes: substantivo, adjetivo, artigo, numeral, pronome, verbo, advérbio, preposição e conjunção. A interjeição, vocábulo-frase, fica excluída de qualquer das classificações.

Palavras variáveis e invariáveis

As classes de palavras podem ser agrupadas em variáveis e invariáveis, de acordo com a possibilidade ou impossibilidade de se combinarem com as desinências flexionais.

Os substantivos, os adjetivos, os artigos, os numerais, os pronomes e os verbos flexionam-se, isto é, podem apresentar modificações na forma para exprimir as noções gramaticais de gênero, de número, de pessoa, de tempo e de modo. São, portanto, palavras variáveis ou flexivas.

Os advérbios, as preposições, as conjunções e alguns pronomes têm uma só forma, rígida, imutável. São, por conseguinte, palavras invariáveis ou inflexivas.

Estrutura das palavras

Examinemos estas duas séries de palavras:

terra
terras
terroso
terreiro
desterrar
novo
nova
novinho
novamente
renovamos

Notamos que, em cada uma delas, as palavras apresentam:

  • uma parte constante em cada série: terr- (na primeira) e nov-(na segunda);
  • uma parte que varia de palavra para palavra: -s, -oso, -eiro, des- (na primeira); -a, -inho, -mente, re- e -mos (na segunda).

Radical

As partes invariáveis terr- e nov- constituem o radical de cada uma das séries enumeradas. É o radical que irmana as palavras da mesma família e lhes dá uma base comum de significação.

As outras formas resultam da ligação ao radical de certos elementos, que, como veremos, podem ser uma desinência, um afixo (sufixo ou prefixo) ou uma vogal temática.

Desinência

As desinências têm simplesmente valor gramatical. Servem para indicar:

  • nos nomes (substantivos e adjetivos) e em certos pronomes, o gênero (masculino ou feminino) e o número (singular ou plural);
  • nos verbos, o número (singular ou plural) e a pessoa (1ª, 2ª ou 3ª).

Assim, em terras, nova e numa forma verbal como renovamos aparecem as seguintes desinências:

-s, para denotar o plural (em terras);
-a, para caracterizar o feminino (em nova);
-mos, para expressar a 1ª pessoa do plural (em renovamos).

Convém, pois, distinguir as desinências nominais das verbais.

Desinências nominais. São as seguintes:

Gênero Número
Masculino Feminino Singular Plural
-o -a -s

O singular caracteriza-se pela falta de desinência, ou melhor, pela desinência-zero, pois a falta, no caso, é um sinal particularizante.

Desinências verbais. As flexões de pessoa e número são expressas nos verbos por desinências especiais, que podemos distribuir por três grupos: desinências do presente do indicativo, do pretérito perfeito do indicativo e do infinitivo pessoal (= futuro do subjuntivo):

Presente Pretérito Perfeito Infinitivo Pessoal
Fut. do Subjuntivo
PESSOA SINGULAR PLURAL SINGULAR PLURAL SINGULAR PLURAL
-o -mos -i -mos -mos
-s -is (-des) -ste -stes -es -des
-m -u -ram -em

Nas outras formas finitas, as desinências são as mesmas do presente do indicativo, salvo na primeira pessoa do singular, que, como a terceira, se caracteriza pela falta de qualquer desinência (desinência zero).

Observação

Para facilitar a aprendizagem, dissemos que a desinência da 3ª pessoa do plural é -m (ou -ram, -em). Mas, em verdade, o -m que aí aparece é um mero símbolo gráfico: as terminações -am e -em são apenas modos de representar, na escrita, os ditongos nasais átonos -ãu e -ẽi.

Afixo (prefixo e sufixo)

Os afixos são elementos que se agregam ao radical para modificar-lhe o significado. Os afixos que se antepõem ao radical chamam-se prefixos; os que a ele se pospõem, sufixos.

Os prefixos modificam geralmente de maneira precisa o sentido do radical. Assim, em desterrar e renovamos aparecem os prefixos: des-, que empresta ao primeiro verbo a ideia de separação; re-, que ao segundo acrescenta o sentido de repetição de um fato.

Os sufixos, como as desinências, se unem à parte final do radical. Mas, enquanto estas caracterizam apenas o gênero, o número ou a pessoa da palavra, sem alterar-lhe o sentido ou a classe, os sufixos transformam substancialmente o radical a que se juntam. Assim, em terroso, terreironovinho e novamente, há os sufixos:

-oso, que do substantivo terra forma o adjetivo (terroso);
-eiro, que do substantivo terra forma outro substantivo (terreiro);
-inho, que do adjetivo novo forma o diminutivo (novinho);
-mente, que do feminino do adjetivo novo forma o advérbio (novamente).

Vogal temática e tema

Na análise da forma verbal renovamos, distinguimos três elementos formativos:

  1. o radical: nov-
  2. a desinência número-pessoal: -mos
  3. o prefixo: re-

Falta identificarmos apenas a vogal a, que aparece entre o radical nov-e a desinência -mos, vogal que encontramos também na forma de infinitivo fumar, entre o radical fum-e a desinência -r.

Nos dois casos, ela está indicando que os verbos em causa pertencem à 1ª conjugação. A essas vogais que caracterizam a conjugação dos verbos dá-se o nome de vogais temáticas. São elas:

-a-, para os verbos da 1ª conjugação (fum-a-r, renov-a-mos);
-e-, para os da 2ª (dev-e-r, faz-e-mos);
-i-, para os da 3ª (part-i-r, constru-í-mos)

Vogal e consoante de ligação

O radical acrescido de uma vogal temática, isto é, pronto para receber uma desinência (ou um sufixo), denomina-se tema.

Os elementos mórficos até aqui estudados entram sempre na estrutura do vocábulo com determinado valor significativo externo ou gramatical. Há,porém, outros que são insignificativos, e servem apenas para evitar dissonâncias (hiatos, encontros consonantais) na juntura daqueles elementos.

Se examinarmos, por exemplo, os vocábulos gasômetro e cafeteira, verificamos que:

  • o primeiro é formado de dois radicais — gás- + -metro —, ligados pela vogal -o-, sem valor significativo;
  • o segundo é constituído do radical café- + o sufixo -eira, entre os quais aparece a consoante insignificativa -t- para evitar o desagradável hiato -éê-.

Esses sons, empregados para tornar a pronúncia da palavra mais fácil ou eufônica, denominam-se vogais ou consoantes de ligação.

Formação de palavras

Palavras primitivas e derivadas

Chamam-se primitivas as palavras que não se formam de nenhuma outra e que, pelo contrário, permitem que delas se originem novas palavras no idioma. Assim:

fama
mar
novo
pedra

Denominam-se derivadas as que se formam de outras palavras da língua, mediante o acréscimo ao seu radical de um prefixo ou um sufixo. Assim:

famoso
marinha
renovar
empedrar

Palavras simples e compostas

As palavras que possuem apenas um radical, sejam primitivas, sejam derivadas, se denominam simples. Assim:

mar
marinha
pedra
pedreiro

São compostas as que contêm mais de um radical:

quebra-mar
guarda-marinha
pedra-sabão
pedreiro-livre

Famílias de palavras

Denomina-se família de palavras o conjunto de todas as palavras que se agrupam em torno de um radical comum, do qual se formaram pelos processos de derivação ou de composição.

Às vezes o radical se conserva intacto em toda a família. Com frequência, porém, o radical das palavras de uma mesma família se apresenta sob várias formas em virtude de alterações sofridas através dos tempos. Assim, a palavra portuguesa povo provém do latim populus, -i, substantivo a que correspondia o adjetivo publicus, -a, -um.

Da forma portuguesa pov- possuímos numerosos derivados, como:

povoar
povoamento
despovoar
repovoamento

O radical originário popul- conserva-se em certo número de palavras, algumas já existentes em latim, outras formadas em nosso idioma. Assim:

popular
popularidade
popularizar
superpopulação

Finalmente, a forma public- aparece em derivados e compostos como os seguintes:

público
pública-forma
publicidade
república

Significação das palavras

Quanto à significação, as palavras podem ser:

  • sinônimas, quando apresentam uma semelhança geral de sentido, como:feliz e ditoso, achar e encontrar, perto e próximo;
  • antônimas, quando têm significação contrária, como: feliz e infeliz, bonitofeio, amor e ódio;
  • homônimas, quando se escrevem ou se pronunciam de modo idêntico, mas diferem pelo sentido, como: são (= verbo), são (= sadio), são (= santo); vês (= verbo), vez (= substantivo). Entre os homônimos distinguem-se os homógrafos dos homófonos.
    • Homógrafos são os que têm a mesma grafia: são (=verbo), são (=sadio), são (=santo), embora possam distinguir-se pelo timbre da vogal tônica: gelo (subst.) e gelo (verbo), almoço (subst.) e almoço (verbo).
    • Homófonos são os que têm a mesma pronúncia, mas grafia diferente: vês(=verbo), vez (=substantivo).
  • parônimas, quando se assemelham na forma, sem que tenham qualquer parentesco significativo, como: descrição e discrição, infligir e infringir,intimorato e intemerato, etc.

Observação

Sentido figurado é o sentido em que se toma uma palavra quando apresenta ideia diversa da que normalmente exprime. Está em sentido figurado, por exemplo, o verbo morrer neste passo de Casimiro de Abreu:

“A glória e o nome português morreram!”

Famílias ideológicas

Vimos que as palavras podem irmanar-se por um radical comum. Neste caso, o parentesco se funda essencialmente numa comunidade de origem. Mas podem agrupar-se também, independentemente de sua formação, pela comunidade de sentido. Temos, então, séries sinonímicas, famílias ideológicas, cujos componentes se relacionam por uma noção comum fundamental. Por exemplo:

  • casa, domicílio, habitação, lar, mansão, morada, residência, teto, vivenda;
  • mar, oceano, pego, pélago, ponto.

O estudo sistemático da significação das palavras, bem como o das famílias ideológicas, é de importância capital para a aquisição e o domínio do vocabulário da língua.